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19 dezembro, 2017 • 2:24 Enviado por Dinler Antunes

A diáspora científica Brasileira em pauta

Autor: Dinler Amaral Antunes, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA).

 

A crise econômica Brasileira e o impacto das medidas de austeridade sobre o financiamento de pesquisa e inovação ganharam atenção internacional em 2017, com destaque para uma coluna publicada em Abril pela revista Nature. Em Setembro, um grupo de  23 ganhadores do Prêmio Nobel  assinaram uma carta destinada ao presidente Michel Temer, recomendando mudanças na postura do governo com relação ao financiamento de pesquisas científicas (Estadão). O documento fazia referência ao corte de 44% no Orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), assim como à perspectiva de um novo corte em 2018. Na mesma semana o presidente também recebeu uma carta semelhante assinada por 250 pesquisadores da área da matemática, e em Outubro o congresso nacional recebeu uma petição com mais de 80 mil assinaturas (Times).

Sendo um empreendimento global, a pesquisa científica não se limita por barreiras geográficas. Pesquisadores nos EUA podem se dedicar a pesquisa de doenças que afetam apenas países africanos, enquanto pesquisadores sul americanos podem se dedicar a sblogi_dinler_1temas que são de especial interesse para países asiáticos ou europeus. Também é possível para um pesquisador trocar de país e se manter na mesma linha de pesquisa. Justamente por esta fluidez, o ambiente econômico e científico de um país em dado momento pode afetar bastante a disponibilidade de recursos humanos na pesquisa. Um período de prosperidade ou de investimento estratégico em pesquisa e educação pode atrair pesquisadores atuando no exterior (vide exemplo de Israel e Coréia do Sul). Por outro lado, um período de crise e cortes de financiamento neste setor pode agravar o fluxo de pesquisadores saindo do país e se estabelecendo no exterior.

Dado sua histórica posição de liderança na pesquisa científica, os EUA representa um dos principais destinos – temporário ou permanente – para pesquisadores Brasileiros no exterior. Aos poucos, estão se desenvolvendo uma série de redes locais conectando pesquisadores Brasileiros de diversas áreas atuando nos EUA. Estas redes desempenham uma série de atividades, como facilitar a interação entre empresas/investidores e pesquisadores acadêmicos, fortalecer parcerias entre universidades americanas e Brasileiras,  e auxiliar estudantes de graduação e de pós graduação que estão temporariamente nos EUA.  

Mas como o Brasil pode se beneficiar da presença destes pesquisadores nos EUA? Como podemos atrair e engajar estes membros da diáspora Brasileira, para que eles contribuam com o desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil? Que ferramentas podem ser utilizadas para fortalecer os laços entre Brasil e EUA? Quais devem ser as áreas priorizadas neste processo? Estas foram algumas das perguntas levantadas pela Embaixada do Brasil nos EUA, durante o Primeiro Encontro da Diáspora Brasileira em Ciência Tecnologia e Inovação, realizado em Washington D.C. no dia 8 de Dezembro. Participaram do encontro pesquisadores Brasileiros atuando em renomadas instituições americanas, como Stanford e NASA, bem como representantes das redes locais (como SciBr Foundation, BRASCON e BayBrazil). Também participaram do evento representantes de agências de fomento Brasileiras (CAPES, CNPq, FAPESP) e americanas (NIH, NSF), representantes de grupos de empreendedores e inovadores, bem como representantes de outras diásporas científicas nos EUA (como da Itália e da Índia).

O diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, esclareceu a proporção real do atual corte orçamentário no Brasil. Ele salientou que o corte afeta sobretudo o MCTIC (e portanto o CNPq), mas não afeta o MEC (e portanto a CAPES). Também salientou que existe investimento do setor privado na pesquisa Brasileira, sobretudo no Estado de São Paulo, e que esta parcela do financiamento para pesquisa continua crescendo. Ele esclareceu que é preciso desfazer o mito de que não existe interação entre Universidade e Empresas no Brasil, e o mito de que não existem Startups, apresentando dados que colocam a USP em pé de igualdade com Universidades americanas nestes setores.

Os representantes das agências de fomento americanas salientaram que existem linhas de financiamento que podem beneficiar grupos Brasileiros, através de parcerias com pesquisadores americanos. Um exemplo de sucesso é uma parceria entre NIH e FAPESP. Na ocasião a Embaixada também anunciou um projeto de pesquisa em colaboração com a FAPESP e UNICAMP, visando caracterizar a diáspora Brasileira nos EUA e definir formas de aumentar o acesso a este capital humano, bem como influenciar polÍticas públicas no Brasil.

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Também ocorreu agora em Dezembro o segundo SciBr Summit, organizado pela SciBr Foundation em Boston, MA. O evento reuniu pesquisadores Brasileiros e norte-americanos para discutir o futuro da ciência Brasileira, bem como alternativas para promover ciência e inovação no Brasil. Entre os palestrantes convidados estava o ganhador do Prêmio Nobel em Física, Jerome Friedman, um dos pesquisadores que assinou a carta enviada ao presidente Temer. A lista de palestrantes incluiu ainda Duilia de Mello (NASA), Fernanda Viegas (Google), Sidney Chalhoub (Harvard), entre outros.

 “By funding science, you are funding education, you are increasing the level of your population, and you are getting new technology into your economy. All technology, the most important technology, is based on basic science. If you don’t invest in basic science, you are not going to get revolutionary technology.” – Jerome Friedman at SciBr Summit 17.

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