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24 julho, 2016 • 6:36 Enviado por Andrea Teixeira

A Teoria da Descontinuidade da Imunidade

 

Figura

Figura: A Teoria da Descontinuidade propõe uma estrutura unificadora para mecanismos imunológicos conhecidos. Os mecanismos englobariam o reconhecimento de padrões, a ausência de um padrão, danos teciduais e modificações funcionais que são consideradas separadamente, mas que segundo a Teoria da Descontinuidade seriam instâncias de uma mesma regra geral, que o sistema imune selecionou por evolução para responder a modificações repentinas do hospedeiro. Adaptado de Pradeu & Vivier, Sci. Immunol, 2016.

 

De forma similar a outros sistemas biológicos, o sistema imune pode ser definido como um sistema de detecção de mudanças. De acordo com a Teoria de Descontinuidade da Imunidade, o sistema imune responde a mudanças repentinas na estimulação antigênica e torna-se tolerante por estimulação baixa ou contínua. Esse princípio básico, que é suportado por dados recentes de checkpoints imunes em infecções virais, cânceres e alergias, pode ser visto como uma estrutura unificadora para respostas imunes diversas.

As perspectivas dessa Teoria foram recentemente apresentadas pelos pesquisadores Thomas Pradeu do ImmunoConcept, Universidade de Bordeaux e Eric Vivier do Centro de Imunologia, Universidade de Marseilhe na França, no volume 1 da nova publicação do grupo Science, Science Immunology, lançada esse mês.

Muitos sistemas biológicos se comportam de uma forma similar, percebendo não somente o estímulo propriamente dito, mas também a velocidade de mudança do estímulo. De acordo com esta Teoria, o sistema imune detecta variações antigênicas em função do tempo. Consequentemente, o sistema imune detecta mudanças repentinas, o que será capaz de desencadear respostas imunes efetoras. Esse conceito foi pioneiramente abordado para as células da imunidade adaptativa por Grossman & Paul em 1992 e revisto por esses mesmos autores numa publicação recente sobre o tema no Annual Review of Immunology e pode se aplicar também às células da imunidade inata.

O sistema imune também pode adaptar-se a modificações duradouras por estimulações curtas ou prolongadas sofridas pelo hospedeiro, o que então é tratado como um novo ponto de referência. Dessa forma, concentrações antigênicas altas e contínuas e níveis baixos de variação da concentração antigênica poderiam levar à tolerância imunológica. Assim, a Teoria da Descontinuidade predizeria que respostas imunes efetoras são induzidas por alterações antigênicas repentinas, enquanto exposição crônica a antígenos levaria à tolerância imune. Contudo, desordens inflamatórias crônicas seriam uma exceção a essa premissa. Uma hipótese para explicar essa aparente exceção na Teoria da Descontinuidade da imunidade é que oscilações na exposição do sistema imune a estímulos imunológicos nessas condições poderia prevenir a indução de tolerância. Entretanto, estudos adicionais são necessários para determinar se e em quais condições inflamatórias crônicas haveria associação com esta exposição intermitente de desafios imunes.

O desencadeamento de uma resposta imune é um processo complexo baseado na integração de muitos sinais distintos, incluindo estrutura antigênica e o contexto em que o reconhecimento ocorre. Algumas formas diferentes de reconhecimento imune podem ser distinguidas e são apresentadas na figura dessa postagem: Reconhecimento de padrões (intracelular ou extracelular por receptores padrões de reconhecimento), reconhecimento da ausência de um padrão (“perda do próprio”, como acontece com células NK, macrófagos ou complemento), reconhecimento de dano tecidual e reconhecimento de modificações funcionais.

Se esses mecanismos de reconhecimento imune divergem de um mecanismo comum de reconhecimento de mudanças ou muito mecanismos de reconhecimento imune convergem para uma estratégia comum de reconhecimento de mudanças, é algo que ainda precisa ser desvendado.

 

Referências

– Pradeu T, Jaeger S, Vivier E. The discontinuity theory of immunity. Sci. Immunol. 1, aag0479. Epub 2016 Jul 14.

– Z. Grossman, W. E. Paul, Dynamic tuning of lymphocytes: Physiological basis, mechanisms, and function. Annu. Rev. Immunol. 33, 677–713 (2015).

– Nataf S. The sensory immune system: a neural twist to the antigenic discontinuity theory. Nat Rev Immunol. 2014 Apr;14(4):280. doi: 10.1038/nri3521-c1.

– Pradeu T, Jaeger S, Vivier E. The speed of change: towards a discontinuity theory of immunity? Nat Rev Immunol. 2013 Oct;13(10):764-9. doi: 10.1038/nri3521.

– Z. Grossman, W. E. Paul, Adaptive cellular interactions in the immune system: The tunable activation threshold and the significance of subthreshold responses. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 89, 10365–10369 (1992).