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25 abril, 2017 • 7:17 Enviado por Comunicação

Alergia alimentar e aversão: um diálogo entre a imunidade e o comportamento

Por: Luísa Lemos (doutoranda) e Ana Maria Caetano Faria (orientadora), do Laboratório de Imunobiologia, Departamento de Bioquímica e Imunologia no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A alergia alimentar é conhecida como a manifestação de uma resposta imune anormal a antígenos da dieta. As alergias afetam mais de 3,5% das crianças e mais de 6% dos adultos e esses números estão aumentando em países desenvolvidos e em desenvolvimento. Uma das características mais marcantes das alergias é a produção de uma classe de anticorpo, a IgE. Quando os anticorpos da classe IgE se ligam aos seus receptores de alta afinidade presentes em mastócitos e basófilos, ocorre o processo chamado de sensibilização. Essa etapa é assintomática, sem manifestações clínicas e imperceptível na grande maioria dos casos. Em contatos posteriores com o mesmo alérgeno, mastócitos e basófilos, células contendo grânulos de histamina (um potente vasodilatador) e outros mediadores inflamatórios, degranulam liberando esses mediadores e iniciando os sinais alérgicos: vasodilatação, edema, eritema, prurido, dor e outros.

Não sabemos ainda porque alguns alimentos são mais alergênicos que outros, embora algumas características comuns entre eles estejam bem estabelecidas: em geral são proteínas de baixo peso molecular, têm alta solubilidade em fluidos corporais e tendem a ser glicosilados. Também já foi relatado que a alergia gera um fenômeno de aversão ao consumo do antígeno, ou seja, o indivíduo alérgico evita o contato com o alérgeno (Cara et al, 1994). Vista dessa maneira, a alergia parece um fenômeno meramente destrutivo e indesejável, ou seja, uma versão espúria da atividade imunológica sem nenhuma vantagem biológica óbvia. Em 2012, Palm e colaboradores revisitaram o fenômeno propondo uma nova interpretação para o papel evolutivo da alergia. Os autores discutem que é possível – e até bem provável – que as alergias e seus subprodutos participem de mecanismos protetores do organismo (Palm et al, 2012).

A ideia é que as reações desencadeadas pela histamina e pelos mediadores lipídicos da inflamação alérgica promoveriam reflexos protetores contra agentes nocivos do meio ambiente (venenos e toxinas produzidos por plantas e animais), isto é, eles teriam sido selecionados e mantidos ao longo da evolução como uma forma do organismo perceber e eliminar rapidamente moléculas potencialmente tóxicas. Assim, a vasodilatação e o edema resultariam na desintoxicação e neutralização de antígenos enquanto que os reflexos de proteção como espirro, tosse, vômito e diarreia, seriam maneiras variadas de eliminação dos alérgenos tóxicos. Nessa perspectiva, a aversão ao consumo do antígeno que acompanha o fenômeno da alergia alimentar constituiria um mecanismo de prevenção à exposição a substâncias potencialmente perigosas.

Uma pergunta importante, nesse aspecto, é como um circuito biológico aparentemente selecionado para proteger o corpo de produtos nocivos (tais como venenos e toxinas produzidas por animais e plantas) pode ser desencadeado por antígenos inócuos (alérgenos alimentares). O que sabemos é que indivíduos atópicos (com propensão aumentada à produção de IgE e, portanto, à alergia) apresentam defeitos genéticos associados à regulação imune da atividade inflamatória. Assim, a alergia alimentar a produtos não tóxicos (tais como a maioria dos alérgenos) pode ser simplesmente o resultado de um desvio geneticamente determinado de um mecanismo originalmente protetor.

Outro aspecto fascinante do fenômeno da aversão é que ele é o resultado de interações delicadas entre o sistema imune e o sistema nervoso central envolvendo a modulação de uma atividade tão complexa como o comportamento de escolha de alimentos. Cara e colaboradores foram os primeiros a descrever experimentalmente o fenômeno nos anos 90. Esses autores mostraram que camundongos BALB/c sensibilizados para Ovalbumina da clara de ovo (OVA) e desafiados com soluções adocicadas contendo esse antígeno, diminuíam drasticamente seu consumo ao longo dos dias em que ocorria o desafio oral. É importante salientar que camundongos BALB/c tem uma preferência natural por alimentos adocicados. Por outro lado, ao longo do desafio oral, enquanto o consumo da solução contendo o alérgeno reduzia, os títulos de anticorpos IgE específicos para OVA aumentavam, ou seja, a aversão ao antígeno era diretamente proporcional à concentração de IgE específica no soro dos animais (Cara et al, 1994). A transferência de células de baço de camundongos alérgicos ou do soro dos mesmos para camundongos saudáveis era capaz ainda de transferir o fenômeno da aversão (Cara et al, 1997) mostrando claramente que ele dependia de componentes do sistema imune.

Em 2003, Basso e colaboradores, iniciaram uma série de estudos estabelecendo em maior detalhe os correlatos neuro-imunológicos do fenômeno da aversão associado à alergia alimentar (Basso et al, 2003). Esses autores mostraram que o tratamento de camundongos alérgicos à ovalbumina (OVA) com anticorpos neutralizadores de IgE inibiam completamente a aversão ao consumo de antígeno. Esse resultado estabeleceu definitivamente a ligação entre a produção da IgE e o desenvolvimento do comportamento aversivo. Além disto, através de análises de ativação neuronal, os autores demonstraram que a aversão estava relacionada ao acionamento de áreas cerebrais ligadas à emoção: o núcleo paraventricular do hipotálamo (PVN) e o núcleo central da amígdala (CeA). Trabalhos posteriores do mesmo grupo conseguiram ampliar ainda o entendimento do fenômeno da aversão mostrando a relação entre a preferência alimentar a determinados antígenos e a reatividade imunológica desencadeada a eles (Costa-Pinto et al, 2006; Costa-Pinto et al, 2007; Mirotti et al, 2010). Esses relatos trouxeram um brilho novo à investigação sobre as interações neuro-imunológicas mostrando que elas são recíprocas. Embora já fossem abundantes os exemplos da influência do sistema nervoso na atividade imunológica (inclusive na alergia), este foi o primeiro fenômeno exemplar de um efeito direto do sistema imune em uma atividade neurológica complexa.  

Em 2015, nosso grupo prosseguiu esses estudos estendendo a investigação da alergia alimentar e seus correlatos neuro-imunológicos para um modelo de alergia às proteínas do leite.  Gomes-Santos e colaboradores demonstraram, em um novo modelo de alergia alimentar à beta-lactoglobulina (BLG), que proteínas do soro de leite (whey) quando hidrolisadas antes do consumo eram capazes de reduzir a produção de IgE específica mesmo depois da sensibilização e eram mais consumidas por camundongos quando comparadas às não hidrolisadas. Este é atualmente um dos temas de estudo do grupo. Ele abre novas discussões sobre preferência alimentar e alergia já que a alergia alimentar ao leite é muito prevalente na infância, mas, por outro lado, trata-se de um alérgeno essencial à sobrevivência dos mamíferos.

 

Referências:

Palm NW, Rosenstein RK, Medzhitov R (2012) Allergic host defences.

Nature, 484(7395):465-72.

Cara DC, Conde AA, Vaz NM (1994) Immunological induction of flavor aversion in mice. Brazilian Journal of Medical and Biologicl Research, 27(6):1331-41.

Cara DC, Conde AA, Vaz NM (1997) Immunological induction of flavour aversion in mice. II. Passive/adoptive transfer and pharmacological inhibition. Scandinavian Journal of Immunology, 45(1):16-20.

Mirotti L, Mucida D, de Sá-Rocha LC, Costa-Pinto FA, Russo M (2010) Food aversion: a critical balance between allergen-specific IgE levels and taste preference. Brain Behavior and Immunity, 24(3):370-5.

Costa-Pinto FA, Basso AS, De Sá-Rocha LC, Britto LR, Russo M, Palermo-Neto J (2006) Neural correlates of IgE-mediated allergy. Annals of the New York Academy of Science, 1088:116-31.

Costa-Pinto FA, Basso AS, Russo M (2007) Role of mast cell degranulation in the neural correlates of the immediate allergic reaction in a murine model of asthma. Brain Behavior and Immunity, 21(6):783-90.

Gomes-Santos AC, Fonseca RC, Lemos L, Reis DS, Moreira TG, Souza AL, Silva MR, Silvestre MP, Cara DC, Faria AM (2015) Hydrolyzed whey protein prevents the development of food allergy to β-lactoglobulin in sensitized mice. Cellular Immunology, 298(1-2):47-53.