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4 julho, 2016 • 6:22 Enviado por Manoel Barral

Anticorpos contra o vírus da Dengue facilitam a infecção pelo vírus Zika?

O vírus Zika (ZIKV) foi descrito em 1947 e durante muitos anos não esteve associado a grandes surtos nem a manifestações graves da doença, embora já houvesse sido reconhecido o seu neurotropismo. Em 2007 ocorreram vários casos de infecção por ZIKV na Micronésia mas não foram descritas, na época, manifestações neurológicas de monta e os casos foram considerados de pouca gravidade e com resolução espontânea.

Em 2013, um grande número de infecções pelo ZIKV ocorreu na Polinésia Francesa e em 2015 este vírus causou uma grande epidemia no Brasil. Considerado inicialmente como causador de uma infecção de pouca gravidade o ZIKV passou a representar uma séria ameaça pois demonstrou a possibilidade de causar um número importante de casos com a Síndrome de Guillain-Barré e, mais inesperado e grave, promover microcefalia em fetos de mães infectadas. Uma análise retrospectiva dos casos da Polinésia evidenciou que tais manifestações também ocorreram lá, associados ao ZIKV.

O que poderia explicar o aumento acentuado da virulência do ZIKV após permanecer cerca de 60 anos sem causar manifestações graves? Várias possibilidades foram levantadas, entre elas o aparecimento de mutações no ZIKV, mas não há evidência de tal ocorrência. A cautela se impõe nesta conclusão, pois o número de genomas sequenciados de isolados brasileiros ainda é pequeno. A possibilidade de associação com outras infecções também foi levantada, mas não há, pelo menos até o momento, evidência para implicar um outro agente como coparticipante nos casos graves da infecção pelo ZIKV.

Uma outra hipótese bastante discutida é a possibilidade da ocorrência do fenômeno de antibody-dependent enhancement (ADE). A possibilidade que anticorpos contra um sorotipo do vírus da Dengue (DENV) possam favorecer a infecção por um outro sorotipo do mesmo vírus tem sido levantada repetidamente, embora não haja consenso sobre a importância real do mecanismo in vivo em casos de infecção no homem. Por similaridade, levantou-se a possibilidade que anticorpos contra DENV favoreçam a infecção pelo ZIKV, principalmente pelo fato que as populações expostas ao ZIKV haviam sofrido grandes epidemias de dengue previamente.

Dois artigos recentes, avaliaram a possibilidade que anticorpos anti-DENV incrementem a infecção pelo ZIKV.

Este último artigo, testou anticorpos induzidos por dengue quanto à possibilidade de apresentar reação cruzada com ZIKV por ligação (binding), por neutralização viral e pelo teste de ADE. Foram testados soros de pacientes tailandeses tanto de casos agudos quanto de convalescentes nos quais a infecção pelo DENV foi confirmada por PCR.

Todos os soros de dengue testados foram reativos com ZIKV por ligação e neutralização. A figura abaixo mostra a ligação:

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Legenda: “DENV-immune plasma cross-reacts with ZIKV. (a) Capture ELISA of the binding of plasma from DENV-infected subjects collected at 6 months after discharge from the hospital (six samples (open symbols or ‘x’)) and plasma pooled from control subjects not infected with DENV (filled circles) to ZIKV strains PF13 and HD78788 and DENV, assayed at 12 concentrations of plasma and presented (in arbitrary units (AU)) as titration curves; for DENV, the DENV serotype corresponding to the previous acute infection was used as the capture ELISA antigen. ”

Foram também testados anticorpos monoclonais (MoAbs) contra DENV em relação à sua reatividade contra ZIKV. Cerca da metade dos MoAbs testados se ligaram ao ZIKV e tanto o soro de pacientes com dengue quanto os MoAbs foram capazes de aumentar a infecção de células FcγR positivas pelo ZIKV.

Screen Shot 2016-07-02 at 20.32.46

Legenda: “absence (–PCS) or presence (+PCS) of serum pooled from convalescent subjects DENV-immune plasma cross-reacts with ZIKV. (a) Capture ELISA of the binding of plasma from DENV-infected subjects collected at 6 months after discharge from the hospital (six samples (open symbols or ‘x’)) and plasma pooled from control subjects not infected with DENV (filled circles) to ZIKV strains PF13 and HD78788 and DENV, assayed at 12 concentrations of plasma and presented (in arbitrary units (AU)) as titration curves; for DENV, the DENV serotype corresponding to the previous acute infection was used as the capture ELISA antigen.”

Os dados destes trabalhos embasam a idéia que a imunidade humoral preexistente contra o DENV tem reação cruzada e pode comprometer a resposta protetora contra o ZIKV. A investigar se este mecanismo facilita a passagem pela barreira placentária e hematoencefálica, aumentando a chance de ocorrer Guillain Barré e microcefalia nos casos com ZIKV.

  • Andre Bafica

    Ótimo post prof. Barral! Como todo campo novo, muitas coisas tem sido publicadas rapidamente e inúmeras perguntas ainda necessitam resposta. Algumas mais focadas para iniciar uma discussão, eu incluo abaixo:

    1. Os anti-DENV MoAbs detrimentais são dirigidos à proteína Env do ZIKV?

    2. Se sim, como os dados destes dois papers provenientes em humanos, encaixam nos dados recentes da vacina gerada com base em Abs anti-ENV em camundongos? ver http://www.nature.com/nature/journal/vaap/ncurrent/full/nature18952.html#affil-auth

    Forte abraço, André

  • apoBD

    Nothing is new under the sun.. Magnus Gidlund https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2554488