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8 maio, 2018 • 7:17 Enviado por Maurício Menegatti Rigo

Canibais entre nós

Por:  Mauricio Menegatti Rigo da PUCRS

 

O canibalismo, visto a partir de uma perspectiva antropológica, se refere ao ato em que um ser humano se alimenta da própria carne humana (antropofagia). Ato este que até hoje ainda é observado em algumas regiões do globo, principalmente em tribos mais isoladas. As razões que explicam o canibalismo são diversas: o ato pode ser visto como um ritual de guerra em que, ao alimentar-se da carne do inimigo, é possível absorver as qualidades deste; ou ainda como um ato de respeito familiar, pois alimentar-se da carne de um parente falecido seria equivalente a prestar-lhe uma homenagem; por fim,  algumas tribos encaram o ato como algo trivial, onde a carne humana equivale ao consumo da carne de animais (o famoso potayto potahto). Não há uma explicação completa das razões que permeiam o ato do canibalismo. Mas por que estamos falando sobre canibalismo em um blog que trata de assuntos relacionados à imunologia!? Simplemente por que o canibalismo está presente em todos nós, no nosso âmago, em um nível invisível a olho nu, e que pode ter implicações diretas para entender e melhorar a maneira como tratamos doenças como, por exemplo, o câncer. Estamos falando do canibalismo celular.

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Imagem modificada de CNIC (Jose María Adrover Montemayor). Fonte https://medicalxpress.com/news/2017-05-cell-canibalism-defenses.html

O canibalismo celular é entendido como um comportamento pelo qual uma célula viva “se alimenta” de outra célula também viva. Isso é diferente da fagocitose, onde uma célula viva (macrófago, por exemplo) só é capaz de fagocitar uma célula do próprio organismo desde que esteja em processo de apoptose1. Além disso, células canibalizadas podem permanecer viáveis por um tempo no citoplasma da célula canibal, e sua morte não parece ser dependente de lisossomos, mas sim, devido à privação nutricional2. Existem outros mecanismos como a entose, a emperipolese e a fagoptose, mas enquanto alguns autores consideram esses mecanismos como tipos de canibalismo, outros os categorizam como mecanismos distintos (seja pela forma como a célula é internalizada ou pelo desfecho celular)3,4,5,6.

Da mesma forma como o canibalismo humano, o canibalismo celular também tem razões diversas para acontecer, muitas delas pontuadas a partir da perspectiva evolutiva. Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS), em 2016, demonstrou, através do uso de co-culturas 3D de linhagens celulares, um mecanismo pelo qual células-tronco mesenquimais (MSCs, do inglês Mesenchymal Stem/stromal Cells) eram canibalizadas por células do câncer de mama (BCCs, do inglês Breast Cancer Cells), mais especificamente as células da linhagem MDA-MB-2317.Tal ato possibilitou que as BCCs entrassem em um estado de dormência, típico de células senescentes, e ali se mantivessem, ilesas e escondidas, por um maior período de tempo. Como se isso não fosse suficiente, o estudo também revelou que as células cancerígenas parecem ter adquirido uma assinatura molecular única, enriquecida com fatores pró-sobrevivência e supressores tumorais.

Ainda no campo da imunologia tumoral, um estudo de 2006, publicado na Cancer Research, demonstrou, elegantemente, um mecanismo pelo qual células metastáticas do melanoma eram capazes de canibalizar células do sistema imunológico, especialmente células T citotóxicas. O mesmo não foi visto para células primárias do câncer, relacionando a malignidade tumoral com o ato canibal8. Aqui, mais do que fornecer alimento para a sobrevivência das céluas tumorais, o canibalismo celular auxiliou essas células na evasão do sistema imunológico.

Diversas razões justificam a seleção positiva de células canibais em prol da sobrevivência tumoral, sejam por questões nutricionais, aumento da variabilidade genética, controle do volume tumoral ou mesmo pela evasão do sistema imunológico. Em uma era em que a imunoterapia surge como uma abordagem promissora para o tratamento e controle do câncer, certamente não podemos deixar de levar em consideração o canibalismo celular.

 

 

Referências

  1. Lozupone F, Fais S (2015). Cancer cell cannibalism: A primeval option to survive. Curr Mol Med. 15(9):836–841.
  2. Sharma N, Dey P (2011). Cell cannibalism and cancer. Diagn Cytopathol. 39(3):229-33.
  3. Overholtzer M, Mailleux AA, Mouneimne G, Normand G, Schnitt SJ, King RW, Cibas ES, Brugge JS (2007). A nonapoptotic cell death process, entosis, that occurs by cell-in-cell invasion. Cell. 131(5):966–97.
  4. Rastogi V, Sharma R, Misra SR, Yadav L, Sharma V (2014). Emperipolesis – a review. J Clin Diagn Res. 8(12):ZM01–ZM02.
  5. Fais S, Overholtzer M (2018). Cell-in-cell phenomena, cannibalism, and autophagy: is there a relationship? Cell Death Dis. 24;9(2):95.
  6. Gupta N, Jadhav K, Shah V (2017). Emperipolesis, entosis and cell cannibalism: Demystifying the cloud. J Oral Maxillofac Pathol. 21(1):92-98.
  7. Bartosh TJ, Ullah M, Zeitouni S, Beaver J, Prockop DJ (2016). Cancer cells enter dormancy after cannibalizing mesenchymal stem/stromal cells (MSCs). Proc Natl Acad Sci U S A. 113(42):E6447-E6456.

8. Lugini L, Matarrese P, Tinari A, Lozupone F, Federici C, Iessi E, Gentile M, Luciani F, Parmiani G, Rivoltini L, Malorni W, Fais S. Cannibalism of live lymphocytes by human metastatic but not primary melanoma cells. Cancer Res. 2006 Apr 1;66(7):3629-38.