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23 fevereiro, 2011 • 7:52 Enviado por Nelson Vaz

Ciência e cientistas

Quando nasceu a ciência? Quando Galileo voltou seu telescópio para os céus? Quando divulgou publicou seus resultados? Ou, quando seus resultados foram repetidos independentemente por outros e, então, só então se entendeu o interesse de melhorar a construção de telescópios e estudar as condições de observação dos astros? Esta semana, em um programa primário da TV Globo, um repórter perguntava a um passante, um homem humilde, se ele tinha micróbios. E o homem lhe assegurava que não, não tinha nenhum. Portamos 10 a 20 bactérias para cada célula de nosso corpo, mas o conhecimento nada vale se não é compartilhado.
Em dezembro de 2010, Jonah Lehrer publicou um ensaio no THE NEW YORKER intitulado THE TRUTH WEAR OFF (A verdade se esvai) ( )que merece ser lido por todos os cientistas e por quem confia na ciência também. Ele faz um longo e preciso relato de várias situações nas quais resultados de experimentos científicos conduzidos com o maior rigor, com o passar dos anos, deixam de produzir os resultados que antes produziam. E discute então algumas possibilidades de explicar a origem de fenômeno tão espantoso e amedrontador.
Entre as explicações, há uma muito singela que. embora não explique tudo, cada um de nós, cientistas, conhece bem: a escolha dos melhores resultados para publicação. Entre três, quatro, ou muitos mais experimentos que realizamos, escolhemos os melhores, os de resultados mais claros para submeter nossos textos à publicação. Não é uma falsificação, é uma escolha daqueles que são, a nosso ver, os resultados mais representativos. Mas, a longo prazo, isso colabora para que a clareza e a significância de nossos resultados se esvaia. “É como se nossos fatos estivessem perdendo sua veracidade: afirmações que foram consagradas em livros-texto, de repente se tornam improváveis” diz Lehrer. Mas, se a possibilidade de replicar resultados com exatidão é o que separa a ciência do charlatanismo, o que fazer se surgem dúvidas como estas? Em que acreditar?
Leherer discute desde a perda de potência de medicamentos psicotrópicas, a uma série de fenômenos na psicologia experimental, que vão da percepção extrasensorial de Rhine, à “interferência verbal (verbal overshadowing), à medida de simetria do corpo como evidência de higidez genética. A explicação mais simples é de que, quando replicados, os valores obtidos tendem a uma média e esta média pode diferir bastante dos resultados de nossos “melhores” experimentos. Ilusões são destruídas pela repetição. Não se trata de violar a estatística: os experimentos são bem controlados e analisados. Jonathan Schooler, um dos estrevistados de Lehrer diz: “Quando eu falo sobre isto, os cientistas ficam muito nervosos”.
O problema é que se torna muito difícil publicar seus resultados se eles não são bastante claros e é praticamente impossível publicar resultados de experimentos que não funcionaram, ou seja, não produziram os resultados desejados. “Na maioria das vezes, os cientistas conhecem os resultados que desejam, e isto pode influenciar os resultados obtidos” – diz Lehrer. Diferenças culturais podem afetar significativamente os resultados de ensaios clínicos. Entre 1966 e 1995 houve 47 estudos sobre a acunpuntura na China, em Formosa e no Japão, e todos concluíram que se tratava de um procedimento eficaz. No mesmo período, de 94 estudos da acunpuntura nos Estados Unidos, Suécia e Inglaterra, apenas 56% mostraram algum benfício terapêutico.
Nos últimos anos, venho tentando convencer os imunologistas de que o organismo não forma “anticorpos”. Em meu modo de ver, o organismo forma “imunoglobulinas” e somos nós, os imunologistas que decidimos tratar algumas destas imunoglobulinas como se elas fossem anticorpos, como se elas tivessem “alvos” bem definidos. Anticorpos são “específicos”, têm “direção”, mas, ao surgirem no organismo as “imunoglobulinas” não estão dirigidas a nada em particular.
Que elas reajam ou não com elementos presentes no organismo naquele instante é decisivo para a sobrevivência e multiplicação das células que as formam – apesar disso, elas não estão dirigidas a nada . Este “direcionamento” pressupõe uma intencionalidade que o organismo não têm; as células são incapazes de decidir o que fazem, apenas fazem o que fazem porque sua estrutura assim o determina.
Então, a imunologia inteira, um dos pilares da medicina e do entendimento sobre a saúde e a doença, tem este viés que, ao mesmo tempo é científico, mas é também dos cientistas – trás uma nódoa de suas crenças e preferências. As observações imunológicas são, de fato, específicas, mas as células e moléculas que elas detectam, operam em um outro contexto, onde se dá a dinâmica estrutural auto-mantenedora do organismo. E esta, não é “defensiva”, nem está dirigida a nada a não ser o próprio viver.
Nelson Vaz
  • Anônimo

    Não concordo com todos os seus pontos de vista, mas tenho certeza que o vies é um problema a ser combatido

    Leitura: How we know what isn't so: the fallibility of human reason in everyday life. Thomas Gilovich

  • Professor,
    sou da opinião que um dos maiores problemas no estudo da Imunologia é o de aceitar os conceitos pré-estabelecidos. Como o tema é muito dinâmico, há a necessidade de constante, contudo cuidadoso, questionamento das bases Imunologicas.
    Ótimo texto!.
    Tiago.

  • GK

    Exatamente o que o Mineo falou. Muitas vezes esperamos que na infeccao X aumente tal citocina. Caso esse aumento nao ocorra o aluno comeca a repetir e mudar o delineamento para poder encontrar o resultado que ele quer. Pesquisa na minha opiniao ou e ou nao e. Nao tem fenotipo nao tem e basta. Outra questao importante e que o resultado inesperado leva a pessoa a pensar o que gerlamente e mais dificil.

  • Ver: Schooler, J. (2011) Unpublished results hide the decline effect. Nature 470, 437. Some effects diminish when tests are repeated. Jonathan Schooler says being open about findings that don't make the scientific record could reveal why.

  • Mauro Fantini

    Prof. Nelson, eu acho essa visão das imunoglobulinas muito interessante. Aliás, achei o Guia Incompleto de Imunobiologia muito inspirador.

    Nessa visão onde entrariam os receptores dos fagócitos da tal imunidade inata? O que, dentro de uma visão mais nobre e menos bélica do sistema imune, os teria selecionado para reconhecer aquilo que reconhecem? Ou será que damos importância demais aos padrões moleculares associados a patógenos e esquecemos (ou nem conhecemos) outras estruturas que também seriam reconhecidas?

    Gostaria de saber a sua opinião a respeito.

    Saudações a todos.