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12 setembro, 2017 • 12:01 Enviado por Joao Carmo

Citocinas e quimiocinas no Fogo Selvagem, a forma endêmica do Pênfigo Foliáceo

O pesquisador Dr Carlo Oliveira, autor deste estudo, foi doutorando “sanduíche” no Laboratory of Malaria and Vector Research, nos National Institutes of Health (NIH), Rockville, MD, EUA. É graduado em Medicina Veterinária da UFRRJ, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em Imunologia Básica e Aplicada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Atualmente é docente de Imunologia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Neste ano, ele e colaboradores publicaram 2 artigos relacionados ao Fogo Selvagem, uma doença endêmica no Triângulo Mineiro. A presença do Hospital do Fogo Selvagem tem facilitado as interações com a UFTM, que na pessoa do Dr Carlo, impulsiona as pesquisas sobre o assunto e deu origem a este artigo (o outro será abordado em outro post), recém-publicado em agosto:

“Alterações em citocinas e quimiocinas na forma endêmica do Pemphigus Foliaceus (Fogo Selvagem)”

Fig 1 Carlo 10 set 17 UFTM

Fig. 1. Distribuição geográfica de pacientes com a forma endêmica (fogo selvagem) do pênfigo foliáceo. As cores respectivas representam o número de pacientes de cada municipalidade.

A forma endêmica do pênfigo foleáceo (fogo selvagem – FS) é uma doença autoimune caracterizada pela presença de autoanticorpos IgG contra desmogleínas, proteínas do desmossomo essenciais para a integridade epidérmica e mucosa. Até o momento, 2 tipos principais de pênfigo foram descritos, o pemphigus vulgaris (PV) e o pemphigus foliaceus (PF), e em alguns casos, estas doenças podem ser subdividas ou apresentar variantes. PF pode ser encontrado em todos os continentes, mas o FS é mais frequente no Brasil, onde é 20 vezes mais comum do que em outros países como Peru, Colômbia, Argélia e Tunísia. Particularmente, no Brasil, doenças que formam bolhas, como o PF, são mais frequentemente associadas com indivíduos negros que vivem em áreas rurais.

O fogo selvagem partilha características clínicas e imunopatológicas com a forma não-endêmica e caracteriza-se pela presença de autoanticorpos patogênicos (primariamente IgG4) contra a desmogleína (Dsg-1), resultando na perda de organização entre queratinócitos (acantólise), que leva à formação de vesículas intraepidérmicas. Apesar do papel de anticorpos com alvo na desmogleína, vários outros aspectos se associam com a complexa patogênese e suscetibilidade do pênfigo. Já se demonstrou o envolvimento de níveis elevados de citocinas Th2 como IL-4, IL-10 e IL-13 na produção de IgG4 por linfócitos B tanto nos pacientes PF como PV. Aqueles pacientes também apresentaram níveis reduzidos de IL-2 e IFN-gama, resultando em supressão da proliferação de linfócitos Th1, o que sugere efeitos inibitórios de citocinas Th2, assim contribuindo para o mau prognóstico da doença.

Devido ao desequilíbrio imune, o tratamento farmacológico do pênfigo, especialmente em países subdesenvolvidos, baseia-se principalmente em drogas imunomoduladoras e anti-inflamatórias como glicocorticoides (GC). Entretanto, alguns pacientes são refratários ou apresentam efeitos colaterais. Além disso, nos últimos anos, outras citocinas como IL-9, IL-17 e IL-22 foram associadas à patogênese doenças inflamatórias e autoimunes da pele, como a psoríase. Embora essas doenças possam estar associadas como o desenvolvimento do pênfigo, este requer mais esclarecimentos sobre a rede de citocinas, o perfil imunológico e o impacto do tratamento no resultado da doença.

Assim, em face da falta de dados sobre o tratamento e o perfil imune de pacientes com FS em diferentes estágios clínicos, este estudo objetivou elucidar a rede de citocinas e quimiocinas nestes indivíduos.

Para tanto, o soro de 64 pacientes diagnosticados com FS foi utilizado para estabelecer os níveis destas moléculas nesta doença e com a gravidade do FS e influência do tratamento.

Em comparação com indivíduos saudáveis, pacientes de FS recém diagnosticados e ainda sem intervenção terapêutica, apresentaram níveis mais elevados de IL-22 e CXCL-8, e níveis reduzidos de IFN-gama, IL-2, IL-15 e CCL-11. Além disso, o tratamento com imunossupressores aumentou a produção de IFN-gama, IL-2, CCL-5 e CCL-11 e reduziu os níveis de IL-22 e CXCL-10. Parece que a terapia imunossupressora teve efeitos duradouros a longo prazo sobre a produção de quantidades mais elevadas de IFN, IL-2 e CCL-5, além de manter mais baixos os níveis de IL-22 em pacientes com FS em remissão.

Referência:

Timóteo, RP; Silva, MV; da SIlva, DAA; Catarino, JS; Alves, FHC, Júnior, VR; Roselino, AM; Sales-Campos, H; Oliveira, CJF. Cytokine and chemokines alterations in the endemic form of Pemphigus Foliaceus (Fogo Selvagem). Frontiers in Immunology, 2017 (8):978, 1-9.

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