banner_immuno2018
9 julho, 2018 • 2:40 Enviado por Maurício Menegatti Rigo

Com uma pequena ajuda do citomegalovirus

Por: Maurício Menegatti Rigo, Ph.D.

Quem está envolvido com a área acadêmica sabe: a primeira rejeição a gente nunca esquece (nem a segunda, a terceira, a quarta, …). Minha primeira vez foi em 2009, depois de submeter meu primeiro artigo. Aquele sentimento de “vou descobrir a cura para essa doença” foi instantaneamente substituído por tristeza, cólera e ansiedade frente à rejeição e (muitos!!) alguns duros comentários. Mas, no meu caso, esses sentimentos estavam associados a minha juventude e falta de experiência. Com o tempo, aprendi a olhar para o trabalho de forma mais clínica, tentando identificar os motivos que levaram à rejeição e o que podia ser feito para melhorar. Mas o que isso tem a ver com o tópico deste texto? É por que o artigo que vou comentar aqui muito me lembrou uma das frases escritas pelo revisor da minha primeira rejeição: “Do not use the word ‘prove’. We can only disprove in science.” Traduzindo, “Não use a palavra ‘provar’. Na ciência, podemos apenas refutar”. E foi o que Smithey e colaboradores fizeram neste artigo (1), refutaram uma ideia que era amplamente defendida por imunologistas e virologistas.

Durante algum tempo pensou-se que a deficiência na geração da resposta imunológica em pessoas idosas era, entre outros fatores, decorrente da infecção com o citomegalovírus (CMV), um vírus bastante comum pertencente à família dos herpesvírus, o que ocasionaria um estreitamento na resposta imunológica em prol do combate de um único vírus, diminuindo a variabilidade de resposta contra outros patógenos (2). Esse raciocínio é lógico se levarmos em consideração que o CMV consegue se replicar em vários tecidos, pode persistir ao longo da vida com intervalos entre latência e reativação e tem envolvimento direto com a imunidade inata e adaptativa (3,4,5,6). Mas, por vezes, o lógico pode estar invisível aos olhos se não temos todas as peças do quebra-cabeça para montá-lo. E é aqui que, mais uma vez, vemos a importância da ciência em nossas vidas. Os autores não provaram o seu ponto, mas sim, mostraram uma série de evidências refutando o pensamento lógico atual e estimulando o leitor a pensar a partir de uma perspectiva diferente.

Mas vamos falar do artigo e dos resultados! Os autores usaram como modelo animal camundongos C57BL/6, separando-os em três grupos: (i) camundongos adultos (18 semanas), (ii) camundongos idosos não infectados com CMV (CMV, 20 meses) e (iii) camundongos idosos que foram infectados com CMV ainda na fase adulta, ou seja, estiveram com o vírus incubado por 15 meses (CMV+, 20 meses). O foco principal do trabalho foi comparar o pool de células T e seus receptores (TCRs) entre os três grupos após infecção com Listeria monocytogenes expressando ovalbumina (Lm-OVA) e desafio com o peptídeo OVA257-264(SIINFEKL), focando no clonotipo (cada sequência única de aminoácidos da região CDR3-BETA) e no repertório dos TCRs (frequência de cada clonotipo).

TCRparts
Figura 1. O reconhecimento do peptídeo SIINFEKL (OVA257-264) ocorre, principalmente, através do contato da alça CDR3-BETA do TCR (domínio V-BETA) no contexto do MHC de classe I. (Modificado do artigo “Immunoglobulin and T Cell Receptor Genes: IMGT(®) and the Birth and Rise of Immunoinformatics, 2014”)

Os resultados foram realmente surpreendentes, pois foram de encontro ao que se esperava encontrar. A primeira observação dos autores foi uma mudança no padrão usual de clonotipos e repertório de TCRs. Enquanto camundongos adultos e idosos CMV­ apresentaram sequências similares de CDR3-BETA e um mesmo tipo de clonotipo (TRBV12-1 e TRBJ1-2), camundongos idosos CMV+ apresentaram uma maior variedade de clonotipos e tamanhos diferentes de CDR3-BETA. Nesta mesma linha, os autores também averiguaram que enquanto camundongos idosos CMV mobilizaram dois ou três clones no repertório de TCRs inteiro para gerar 75% da resposta, 17 diferentes clonotipos foram recrutados para realização do mesmo grau de resposta em camundongos idosos CMV+. Isso já começou a apontar para uma maior diversidade de células T envolvidas na resposta imunológica, ao contrário do pensamento atual.

Os autores também verificaram que cerca de 30% dos clonotipos de TCRs encontrados em camundongos adultos eram também encontrados em camundogos idosos CMV, enquanto que em camundongos idosos CMV+ esse número baixou para menos de 15%. Associado a isso, a maior parte dos clonotipos em camundongos idosos CMV possuíam um motivo “PR” (prolina-arginina) conservado nas alças CDR3-BETA, o que não aconteceu em camundongos idosos CMV+, onde esse motivo “PR” estava claramente diminuído. Em conjunto, esses dados sugerem um maior estreitamento do repertório de TCRs em camundongos idosos não infectados com CMV, indo ao encontro dos achados de que a diversidade da resposta é maior em camundongos idosos infectados com CMV.

Para fechar o artigo, mais um resultado interessante. As sequências de CDR3-BETA foram analisadas por sequenciamento nos três grupos, antes e após a infecção com Lm-OVA (Tabela 1). A conclusão foi que o estreito repertório de TCRs encontrado em camundongos idosos CMV não se deve à ausência de clonotipos, uma vez que eles estão presentes antes da infecção. Duas hipóteses são levantadas: ou o sistema imunológico falhou no recrutamento desses clonotipos, ou não conseguiu manter a resposta efetora, o que não aconteceu nos camundongos idosos CMV+.

Tabela 1. Análise da presença de clonotipos de TCR nos grupos estudados, antes e após desafio com Lm-OVA (Modificado de “Lifelong CMV infection improves immune defense in old mice by broadening the mobilized TCR repertoire against third-party infection.”)

Clonotipo de TCR Sequência presente?
Pré-infecção com Lm-OVA Pós-infecção com Lm-OVA
Adulto Idoso CMV Adulto CMV+ Adulto Idoso CMV Adulto CMV+
CASSLGGSYEQYF SIM SIM SIM SIM NÃO SIM
CASSLGNSDYTF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSLDEQYF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSLGEQYF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSLGGGAETLYF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSLGNQDTQYF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSLGTGGYEQF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSLNTEVF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSPGLGGYEGYF SIM SIM SIM NÃO NÃO SIM
CASSLRNSDYTF SIM SIM SIM SIM NÃO NÃO
CASSRGANSDYTF SIM SIM SIM SIM NÃO NÃO

 

Aqui, procurei focar em alguns dos principais achados do artigo. De modo geral, se olharmos a partir da perspectiva de que uma maior diversidade de clonotipos de TCR são recrutados para o local da resposta, o CMV parece ter mais efeitos positivos do que negativos sobre a resposta imunológica. Vale ressaltar que os dados foram mostrados para modelos animais. Os próximos passos provavelmente envolverão o estudo da infecção no contexto humano.  Retomando a frase da minha primeira rejeição, nada está provado. Mas evidências sugerem fortemente em prol do autor. E aí? Vai refutar?

 

Referências

  1. Smithey, MJ; Venturic, V; Davenportc, MP; Buntzmand, AS; Vincente, BG; Frelingera, JA; Nikolich-Žugich, J. Lifelong CMV infection improves immune defense in old mice by broadening the mobilized TCR repertoire against third-party infection. PNAS, 2018.
  2. Pawelec, G; McElhaney, JE; Aiello, AE; Derhovanessian, E. The impact of CMV infection on survival in older humans. Curr Opin Immunol, 2012.
  3. Hengel, H; Brune, W; Koszinowski, UH. Immune evasion by cytomegalovirus—survival strategies of a highly adapted opportunist. Trends in Microbiology, 1998.
  4. Babić, M; Krmpotić, A; Jonjić, S. All is fair in virus-host interactions: NK cells and cytomegalovirus. Trends in Molecular Medicine, 2011.
  5. Amsler, L; Verweij, MC; DeFilippis, VR. The tiers and dimensions of evasion of the type I interferon response by human cytomegalovirus. Journal of Molecular Biology, 2013.
  6. McSharry, BP; Avdic, S; Slobedman, B. Human cytomegalovirus encoded homologs of cytokines, chemokines and their receptors: roles in immunomodulation. Viruses, 2012.