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22 maio, 2012 • 5:26 Enviado por Sergio Lira

Eu tinha que ir

No fim de 79 a Rússia (ainda União Soviética)
invadiu o Afeganistão e criou um cu-de-boi cósmico.  Aquilo tinha repercussões na Europa…Mas eu tinha que ir,
desse o que desse. A passagem já 
estava comprada.  A economia
era meio precária, mas eu tinha que ir. Saí do Recife com 250 dólares no bolso
com uma passagem Recife-Lisboa-Madrid, e com a intenção de fazer o resto de
trem. Isso pra passar 6 meses na Alemanha, fazendo um estágio num laboratório.
Estágio esse que foi conseguido via Konny Kauffman, um biofísico alemão que
conheci na UFPE.  Konny me disse
que me pagavam 500 marcos por mês pra trabalhar como estudante num lab no
Max-Planck Institute onde ele trabalhava, em Gottingen. Por sorte tinha um
alemão fazendo neuroendócrino lá que meu professor de Fisiologia, prof.
Ladosky,  também conhecia, e ele me
aceitou.

Parei meu curso de medicina por seis meses, peguei o sobretudo de lã do meu tio, o backpack de
Lula, e me piquei. Não tinha Expedia, não tinha Google, e eu não tinha ideia de
porra nenhuma. Cheguei em Gottingen, fui bater  na
Sternstrasse, nummer 5. Na casa de Konny e Regina, figuras inesquecíveis… A primeira vez
que vi Konny em Recife tomei um susto. Um alemão com cara de hippie, com uma
barba de hippie, usando uma calça de veludo naquele sol do Recife, com um sapato  com o salto na frente….O sujeito além
de parecer doido, era, e é doido. Doido por tudo. Falava português, inglês,
francês, alemão, tudo misturado. E tocava sanfona, queria saber o que era
maracatu, e que queria comprar todos os discos do mundo. Era impossível não
conversar com ele e com Regina, igualmente interessada em música, mas menos
doida. Eles me receberam super bem, morei com eles um mês…

Gottingen fica ao sul de Hannover, no norte da
Alemanha.  E’ uma cidade
universitária, onde vários matemáticos e físicos importantes trabalharam no
passado. Gauss, o da curva, passa a eternidade no cemitério local. Como toda
cidade universitária tinha mil agitos, gente falando, música, política, cinema.
O instituto ficava um pouco fora da cidade, e era formado de uma série de 5
edifícios (as torres da foto). Era moderno, futurista. O meu lab ficava na última torre,
onde ficava o departamento de neurobiologia cujo chefe era Otto Creutzfeldt,
filho do sujeito que descreveu a Creutzfeldt-Jakob disease, uma doença
degenerativa do sistema nervoso, que nessa época ainda não era conhecida como a
forma humana da doença da vaca louca. Credo. Com Creutzfeldt trabalhava meu
ex-professor da UFPE Rubem Guedes. Rubinho e Vilma, mulher dele, estudaram
alemão comigo no Recife. Além de serem pessoas muito especiais, eles eram
responsáveis pelo meu sustento nos dias de domingo, quando ia com Ulrike  comer feijoada (Vilma
era craque em descobrir os melhores defumados alemães pra feijoada) e matar
saudades do Brasil (hoje, que a gente virou Noruega, esse negócio não existe
mais). Ulrike falava um espanhol perfeito, e estava terminando uma tese sobre
Paulo Freire. Tinha estudado no México e meses depois iria pra Nicarágua,
ensinar espanhol pros índios. Da janela do quarto dela vi num
domingo de manhã, atônito, um mar de gente nua deitada no gramado, saudando a chegada
da primavera.  Bote choque cultural
nisso…

O meu
chefe lá era Wolfgang Wuttke, um sujeito que estudava regulação neuroendócrina
da prolactina.  Wuttke me recebeu
muito bem e me apresentou ao lab. O gênio residente era um sujeito chamado
Mansky, que era um nazista de carteirinha. Fora ele, tinha uma polaca muy sexy
pero sênior, que se chamava Eva (ai jesus), um tecnico gente fina e um outro
degredado filho de eva, um 
iugoslavo chamado Miroslav Demajo, 
que dividia comigo a honra de coletar cérebro de rata às 2, 3 e 4 da
manhã. Ontem guguei o indivíduo e descobri que hoje ele é um ativista ambiental na Servia
(pra você ver que nem todo mundo quer ficar nesse lero aqui). Miroslav já  tinha uma posição de professor, tinha
família e tal, mas foi passar um tempo lá, o que deu oportunidade pro Wuttke
fazer os experimentos que alemão nenhum ia fazer. Nos éramos os
gastarbeiters deles (esse era um termo cruel… eles chamavam os turcos e outras
rapaziadas de trabalhadores convidados). Mas não foi tão ruim assim, uma vez
que eu aprendi muito e vi, pela primeira vez, como se fazia ciência no primeiro
mundo. Mil diferenças: primeiro um lugar imenso, com cientistas trabalhando o tempo
todo, de dia, de noite, no fim de semana. Segundo, uma tremenda riqueza em
equipamento, recursos, uma biblioteca magnífica. Terceiro, um sistema de
suporte inimaginável. Se você precisasse de um parafuso com 1 mm de espessura
pra atarrachar na cabeça de um rato, tinha uma oficina que te entregava na mão,
no outro dia, senão na hora. No fim do dia, o técnico pendurava a bata e saia
dirigindo sua Mercedes, em vez de arriscar o ônibus de Camaragibe.  O biotério era imaculado, rato ali
vivia vida de bacana.  Finalmente,
se discutia não só o que saia na literatura, mas o que ia sair do lab. Essa
talvez fosse a diferença maior de todas. 
Em Recife éramos mais espectadores. Líamos a literatura, sabíamos o que
e quem, mas não produzíamos. Ali, as pessoas queriam ser atores. Aliás, não só
queriam, tinham que. Eram pagos para. E se cobrava. Não existia posição fixa (o
contrato era por 5 anos). Renovável se o cara fosse o cão-chupando-manga. O
diretor do instituto era um prêmio Nobel, Manfred Eigen, e ele não tinha sido
eleito pelos bedéis e funcionários. Os meus vizinhos no andar de cima eram
Erwin Neher e Bert Sakman, que inventaram a técnica de patch-clamping e anos
depois ganhariam o prêmio Nobel. 
Ordenava hoje, chegava ontem. 
Aquele lugar era realmente outra estória. E ainda é.  
E a que se dedicava o vosso menestrel? Naquela
altura do campeonato já  se sabia
que a função hipofisária dependia de hormônios produzidos pelo hipotálamo. Mas
o que faltava saber era como os neurotransmissores clássicos como a dopamina, o
GABA e o glutamato, regulavam a produção de hormônios pela hipófise. No caso da
prolactina já  se sabia por essa época,
existia uma regulação pela dopamina a nível de célula hipofisaria,
diretamente, uma vez que existia um sistema vascular que ia do hipotálamo para
hipofise, e que carrega não só neuropeptídios, mas também neurotransmissores clássicos.
No caso dos outros neurotransmissores, o negócio era meio embrulhado. O alemão
me pediu pra examinar as concentrações de GABA e glutamato no cérebro de rata,
fazer um estudo cinético, ver se essas concentrações mudavam em áreas hipotalâmicas
específicas e ver se essas mudanças correlacionavam com produção de LH, prolactina
e FSH no soro. Era um troço completamente descritivo. Hoje, se eu escrevesse
uma grant sobre isso, nesses termos, seria assassinado pelas study sections do
NIH (eu vou voltar a esse negócio num outro post).  Colegas, isso exigiu que matássemos uma
quantidade grande de ratas. Isso tinha que ser feito rapidamente para evitar
stress das mesmas. Trabalhávamos eu e Miroslav com umas luvas de amianto, pra
pegar as moças e levá-las para uma guilhotina. Ora, a chance do dedo ir com a cabeça
da rata era grande.  Uma vez concluído o evento guilhotinesco, o corpo era posto no funil, colhia-se
o sangue para medir hormônio e a cabeça era rapidamente processada, digo, o cérebro
era removido, o hipotálamo dissecado e posto em gelo seco. Um outro estudo
envolvia colheita dos cérebros para histologia e punch de algumas áreas hipotalâmicas
mais precisas. A cinética não era brinquedo. As vezes  tinha experimento às 11 e às 3 e meia da manhã . Dormia um
pouco e acordava meio desorientado, pra pegar rato e botar na guilhotina.  Apesar disso o pessoal ficou
entusiasmado, porque vimos algumas diferenças e um dia o chefe perguntou se eu
queria ir pra Berlim prum simpósio que ele estava organizando. Claro que sim, claro que sim. 
E lá fomos nós pra disneylandia.  Foi uma aventura ir de carro cruzando a
Alemanha Oriental e chegar a Berlim. Chegar na capital da Guerra fria, e ir
visitar Berlim oriental, a vitrine do comunismo europeu.  Berlim foi demais, e ainda é demais (algumas fotos recentes no link). Se não foi vá
correndo.  E o meeting, meu
primeiro meeting, foi muito bom. Vi cara a cara os caras que escreviam os
papers. Tive a chance de conversar com eles. Escutei gente falando mal do
trabalho dos outros (coisa que eu pensei só existisse no terceiro mundo). Vi
que sabia muito pouco, mas que começava a saber alguma coisa, e que produzia
resultados dos quais podia falar. Esse meeting foi muito importante pra mim.
Como foram importantes aqueles 6 meses no Max-Planck. O material que obtive me
deu o suficiente para escrever minha tese de mestrado. E meu chefe pos algum
material em duas revisões que escreveu. Isso ai, o fato de ter estudado
medicina e duas boas cartas de recomendação me abriram a porta pro meu
doutorado aqui nos Estados Unidos. E tudo isso aconteceu por causa do meu
desejo de entender o mundo lá fora, 
pelo estágio na Fisiologia com Ladosky, pela curiosidade compartida com
meus amigos queridos, e por encontrar Konny Kaufmann. Ele me abriu uma grande
porta. Um figuraço. 
No cabeçalho do site dele tá lá, emprestado de Aristóteles:
ensinar não é encher um vaso, é acender uma tocha.
  • Mais uma vez um texto animador e inspirador.
    Obrigado professor Lira

  • O senhor deveria escrever um livro com estas histórias… Certeza!

  • Rodrigo

    Eu ia dizer o que o Julio já disse.
    Sensacional, como sempre!

  • Ler suas cronicas e sempre um alento. Os olhos brilham! Parabens Josi