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4 setembro, 2017 • 5:05 Enviado por PGBIOEXP

Evidência de associação clínica da leishmaniose mucosa à presença de leishmania vírus.

Por: Lilian Motta Cantanhêde (Mestre em Biologia Experimental – PGBIOEXP/UNIR, Doutoranda do IOC, FIOCRUZ) e Ricardo de Godoi Mattos Ferreira (Pesquisador FIOCRUZ-RO, Docente do PGBIOEXP/UNIR).

Editor-chefe: Juliana Pavan Zuliani (Pesquisador FIOCRUZ-RO, Docente do PGBIOEXP/UNIR)

 

A Leishmaniose Tegumentar Americana-LTA é uma infecção causada pelo parasita Leishmania e pode apresentar desde um envolvimento cutâneo (LC) até uma destruição das mucosas (LM) sendo esta forma, considerada uma evolução da doença. Cerca de 10% dos pacientes assintomáticos ou com lesões cutâneas recuperadas, evoluem para a forma mucosa e apresentam um quadro imunológico diferenciado com produção exacerbada de citocinas inflamatórias. Diversos fatores influenciam a evolução clínica das leishmanioses, dentre eles podemos citar a virulência do parasita, a resposta imune do hospedeiro e fatores genéticos tanto do hospedeiro, quanto do parasita.

 

O Laboratório de Epidemiologia Genética da Fiocruz Rondônia vem desenvolvendo diversos projetos visando contribuir com a geração de conhecimento para melhor entendimento da evolução dessa patologia complexa. Os projetos dos alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado investigam aspectos da epidemiologia da doença em Rondônia e vizinhanças, aspectos da biologia molecular do parasita, com metodologias de análise de expressão gênica, edição genética, sequenciamento de genes específicos e análises genômicas, bem como a variabilidade genética humana relacionada a evolução da doença utilizando microarranjos de DNA.

 

Recentemente, a presença de um vírus denominado Leishmania vírus 1 (LRV1) no interior do parasita da Leishmania vem sendo relacionado com a variação da manifestação da doença. Em modelos animais, ficou demonstrado que a presença do RNA dupla-fita que caracteriza o vírus estimula uma resposta imune exacerbada, com lesões características da forma mucosa da doença (IVES et al., 2011; RONET et al., 2011).

 

Nesse breve texto, gostaríamos de destacar os resultados obtidos pelo Laboratório, com publicação na revista Plos Neglected Tropical Diseases (CANTANHEDE et al., 2015). O objetivo do trabalho foi determinar se o LRV1 ocorre em pacientes com leishmaniose cutânea e mucosa do estado de Rondônia atendidos no ambulatório do Centro de Medicina Tropical – CEMETRON, utilizando técnicas de biologia molecular, além de avaliar uma possível associação entre o vírus e a forma mucosa da doença.

 

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Tabela 1. Frequências observadas de Leishmania sp., tipos de leishmaniose e presença de LRV1.

O trabalho trouxe informação relevante sobre as espécies que foram detectadas nos pacientes atendidos no Hospital Cemetron. Apesar de se tratar de seguimento de casos, os resultados permitem uma evolução no conhecimento da epidemiologia da doença, que carece de estudos mais abrangentes no território para que tenhamos uma linha de base mais confiável. Em relação a associação da presença do LRV1 nos pacientes, foi possível observar que o vírus foi detectado nas amostras de 71,1% dos pacientes com a forma mucosa da doença, enquanto a frequência observada nos pacientes com a forma tegumentar típica foi de 28,9% dos pacientes. Os resultados observados corroboram com a hipótese de associação formulada utilizando modelos animais, porém, como foi encontrado um número importante de pacientes com a forma mucosa, outros fatores a serem investigados também devem contribuir para a evolução clínica da doença. Esse estudo traz provavelmente a maior casuística de pacientes investigados em relação a presença do LRV1 publicado na literatura até o momento.

 

CANTANHÊDE, L M; DA SILVA JÚNIOR, C F; ITO, M M; FELIPIN, K P; NICOLETE, R; SALCEDO, J M V; PORROZZI, R; CUPOLILLO, E; FERREIFA, R G M. Further Evidence of an Association between the Presence of Leishmania RNA Virus 1 and the Mucosal Manifestations in Tegumentary Leishmaniasis Patients. PLoS Neglected Tropical Diseases (Online), v. 9, p. e0004079, 2015.

IVES, A; RONET, C; PREVEL, F; RUZZANTE, G; FUERTES-MARRACO, S; SCHUTZ, F; ZANGGER, H; REVAZ-BRETON, M; LYE, LF; HICKERSON, SM; BEVERLEY, SM; ACHA-ORBE, H; LAUNOIS, P; FASEL, N; MASINA, S. Leishmania RNA Virus Controls the Severity of Mucocutaneous. Science. v. 331, p. 775-778. 2011.

RONET, C; IVES, A; BOURREAU, E; FASEL, N; LAUNOIS, P; MASINA, S. Immune responses to Leishmania guyanensis infection in humans and animal models in Immune Response to Parasitic Infection. v.1,eds E. Jirillo and O. Brandonisio (Bussum: Bentham Science Publishers),165–175. 2010.

Informações detalhadas podem ser obtidas no artigo citado acima bem como na dissertação de mestrado da aluna Lilian M. Cantanhêde:

CANTANHÊDE, LILIAN MOTTA. Detecção de leishmaniavírus em amostras de paciente com leishmaniose tegumentar americana atendidos no Centro de Medicina Tropical de Rondônia – CEMETRON. Universidade Federal de Rondônia. Porto Velho, Rondônia, 2013. 63f.: il.