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2 abril, 2017 • 8:38 Enviado por IBA FMRP-USP

IL-1β: além da Inflamação

Por: Mikhael Haruo e Sandra Palma (doutorandos FMRP/USP – IBA)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Não precisa ser imunologista para saber que o sistema imune é indispensável para a defesa do organismo frente à infecções. Quem nunca ouviu que fulano, cliclano e beltrano estavam com o sistema imunológico debilitado, em virtude de uma situação de estresse, e aí griparam, por exemplo? Pois bem, de fato o nosso sistema imunológico, especialmente o sistema imune inato (composto pelos fagócitos, principalmente), possuem diversos receptores de reconhecimento-padrão (PRRs), tais como TLR, NLR, CLR, RLR, que atuam na identificação de microrganismos invasores presentes tanto no ambiente extracelular, quanto no citosol e nos endossomos. No entanto, têm-se demonstrado também que os mesmos receptores, que por ora reconhecem padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs), também desempenham importantes funções no reconhecimento de padrões moleculares associados ao perigo (DAMPs), os quais são representados por componentes de células necróticas extravasados para o ambiente extracelular, por exemplo.

De maneira curiosa e intrigante, Dror e colaboradores demonstraram que macrófagos peritoneais são capazes de induzir a secreção de insulina pós-prandial por meio da produção de IL-1β, sendo, portanto, um trabalho científico que aponta o papel fisiológico da citocina que, até então, esteve majoritariamente relacionada com doenças infecciosas, autoimunes e metabólicas. Neste contexto, o grupo evidenciou que a microbiota, ou traços de microrganismos presentes nas rações dos camundongos, atuaram como um primeiro sinal para a ativação do inflamassoma de NLRP3, o qual levou a produção de IL-1β via produção de espécies reativas do oxigênio (ROS) mitocondrial decorrente do influxo de glicose via GLUT1. De maneira curiosa, foi verificado que a insulina pós-prandial, produzia por células β da ilhota pancreática, e induzida por IL-1β, promoveu o aumento da capitação de glicose por macrófagos peritoneais que, por sua vez, resultou numa alça de retroalimentação positiva ao intensificar a ativação de NLRP3 e produção de IL-1β.

Esses achados enfatizam um papel novo da IL-1β, além de demonstrar mais um exemplo de inter-relação entre sistema imunológico e metabolismo, no controle da homeostase da glicose.

Fig 1

Figura 1: IL-1β potencializa a secreção pós-prandial de insulina. A alimentação eleva os níveis séricos de IL-1β, o qual potencializa a secreção de insulina por células β pancreáticas e a depuração de glicose. A glicemia, decorrente da alimentação, culmina na ativação do inflamassoma de NLRP3 e consequente produção de IL-1β por macrófagos peritoneais. Ainda, produtos bacterianos provenientes da alimentação, ou até mesmo da microbiota, também estimulam a liberação de IL-1β que, por sua vez, resulta na secreção de insulina por células β pancreáticas via sinalização de IL-1R, receptor expresso em elevados níveis por tais células. Assim, a insulina promove a captação de glicose por células musculares, adiposas e, principalmente, por células imunes, fenômeno este responsável por maximizar os níveis séricos de IL-1β por potencializar a produção de espécies reativas do oxigênio.

Referências:

Dhor et al. Postpandrial macrophage-derived IL-1β stimulates insulin, and both synergistically promote glucose disposal and inflammation. Nature Immunology 2017.

Comentário do paper:  Hjorth M., Febbraio M. IL-1β delivers a sweet deal. News and Views. v. 18, p. 247- 248. 2017.