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28 junho, 2011 • 6:43 Enviado por Tiago Mineo

Investigador português identifica proteínas que podem combater o HIV

Originalmente publicado no site lusitano Ciência Hoje

André Raposo desenvolveu importante estudo na Universidade de Oxford

2011-06-11
Por Luísa Marinho

André Raposo trabalha actualmente em S. Francisco
André Raposo trabalha actualmente em S. Francisco

Uma importante descoberta do investigador português André Raposo, durante o seu pós-doutoramento na Universidade de Oxford, pode abrir portas ao desenvolvimento de novos tratamentos contra o HIV.

Em conversa com o «Ciência Hoje», o investigador explica que foram identificadas “potenciais proteínas antivirais que poderão vir a ser incluídas no desenvolvimento de vacinas/antiretrovirais contra o HIV”.

O estudo, a ser publicado na edição de Julho do «Journal of Immunology», debruça-se sobre a capacidade imuno-reguladora que os linfócitos T4 (glóbulos brancos) têm em suprimir infecção por HIV em macrófagos. André Raposo explica: “Acreditamos que os macrófagos são as primeiras células do sistema imunitário a serem infectadas pelo vírus. No entanto, este não induz a morte destas células, residindo dentro delas durante largos períodos de tempo”.

E é durante esse tempo que os macrófagos transmitem o vírus a outras células, nomeadamente aos linfócitos T, que acabam por não resistir ao vírus e morrem, levando à SIDA. Nas experiências em laboratório, André Raposo descobriu que os linfócitos T, antes de serem infectados pelo HIV, “segregam proteínas de grande massa molecular para o meio extracelular, que uma vez em captadas pelos macrófagos induzem a diminuição dos níveis de receptores CD4 (nos macrófagos), essenciais para o vírus entrar nas células”. Sem estas moléculas “não se estabelece infecção”.

Usando novas técnicas de isolamento e enriquecimento de proteínas a equipa de investigadores, em colaboração com o Centro de Espectrometria de Massa da Universidade de Oxford, conseguiu identificar as proteínas segregadas pelos linfócitos T que induzem a diminuição dos níveis de moléculas CD4 nos macrófagos.

“Uma cura efectiva para a infecção por HIV ainda esta longe de ser encontrada”

“As proteínas identificadas não só induzem essa diminuição mas também alteram o fenótipo destas células tornando-as menos susceptíveis de serem infectadas”. O trabalho descreve também os mecanismos moleculares que levam a diminuição dos níveis de CD4, e estes envolvem a actividade da proteína quinase C e do factor de transcripcao NF-kB, para além dos organelos especializados na degradação de proteínas chamados os proteasomes.

Embora possa abrir portas para o desenvolvimento de novos tratamentos, “uma cura efectiva para a infecção por HIV ainda está longe de ser encontrada”, diz o investigador. Contudo, “são estes pequenos passos que fazem grandes descobertas e as contribuições da ciência básica em laboratórios são essenciais para o desenvolvimento de vacinas efectivas contra o HIV”.

Artigo: “Protein Kinase C and NF-KB-dependent CD4 downregulation in macrophages induced by T cell-derived soluble factors: consequences for HIV-1 infection”
(http://www.jimmunol.org/content/future/187/2)

Actualmente a trabalhar como Postdoctoral Scholar na Universidade da Califórnia em São Francisco (EUA), na Divisão de Medicina Experimental no Hospital General de São Francisco, o investigador português começou o seu percurso em Coimbra. Licenciou-se em Bioquímica na Universidade de Coimbra.

Como parte da licenciatura, no estágio científico, desenvolveu um projecto de investigação em virologia em Montpellier (França) no Instituto de Genética Molecular. Fez, depois, parte do programa doutoral do GABBA no Porto (2005) e escolheu o laboratório de imunologia retroviral do HIV na Universidade de Oxford (Reino Unido) para desenvolver o projecto de doutoramento, do qual saiu este estudo. No fim do doutoramento, escolheu, São Francisco (laboratório do Professor Doutor Douglas Nixon) para para desenvolver um projecto como postdoc.

“Esta cidade é um excelente sítio para se viver; há bastante sol (ao contrário de  Inglaterra) e a investigação na área do HIV é das melhores a nível internacional”
. O cientista pretende continuar por São Francisco uns quatro ou cinco anos.