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25 fevereiro, 2011 • 11:48 Enviado por Sergio Lira

Não atire na adrenal

Dia desses, jantando aqui em casa com Gabriel e Angelina, disse que ia escrever sobre como me meti neste ensandecimento no qual voces tambem se meteram. Foi assim… Em 77, Lula Brigido, Veronica Coelho, Fernando Pinto, Marcia Melo e eu estávamos no segundo ano de medicina, na Universidade Federal de Pernambuco. O chefe da fisiologia era Waldemar Ladosky, um paranaense que tinha estudado com Thales Martins, um fisiologista brasileiro que tinha proposto o conceito de feedback hormonal, mas que nunca recebeu crédito porque publicou em revista nacional de pouca divulgação. Ladosky dava umas aulas muito interessantes, onde falava de experimentos que davam origem ao conhecimento que ia bater nos livros. Isso era totalmente diferente do que escutávamos de nossos outros professores; muito diferente, por exmplo, do decoreba que incentivava nossa professora de farmacologia, a inesquecível Mefenezina (apelido cruel, cruel). Ladosky, muito lido, poliglota, viajado, e furador, nos adotou e começamos a frequentar o departamento. Ele estudava neuroendocrinologia, que era um troço superavançado na época. No fim de 77 Roger Guillemin e Andrew Schally, dois neuroendocrinologistas, ganharam o premio Nobel por caracterizar vários peptídeos produzidos pelo hipotálamo que regulam a atividade da hipófise. Então estavamos trabalhando numa área de ponta do conhecimento. Enchíamos a boca falando daquilo. Ladosky dividiu o grupo em dois e deu um projeto de pras meninas e outro pros galegos. Os galegos levaram a pior. Por duas razões. Primeiro porque de neuroendócrino o projeto não tinha nada. Segundo, porque o modelo experimental dos galegos era… de lascar… Ladosky disse que existia um problema muito interessante que a gente tinha que estudar (atenção pessoal: zero input dos galegos porque os galegos sabiam zero de ziriguidim). O problema era o seguinte: a adrenal produz aldosterona, um hormonio que é muito importante pra retenção de sódio pelo rim. Sem adrenal, baibai brasil… Um animal, contudo, era exceção a regra, e podia ajudar a entender melhor o processo… Segundo Ladosky Thales Martins dizia que para cada problema biológico deus criara um animal… E esse animal, nobres colegas, era o timbu.
Vou declarar de saida que torço pelo Náutico (não aceito gozação de rubronegro), mas que nunca tive muita afeição pelo mascote da querida agremiação, o supramencionado timbu. O bicho e´ sinistro, no sentido clássico do termo (hoje, como me ensinou meu amigo Marcelo Bozza, sinistro é o maximo, vá entender…). Falar em termo, a palavra timbu vem do tupi, mas debuta na língua brasileira segundo seu Houaiss, no século 17, na Bahia, lugar onde tudo (menos o frevo) foi inventado no Brasil. Cientificamente o timbu é conhecido como Didelphis albiventris, por ter o útero bifurcado e o ventre claro. É um masurpial, bien sur. Com bolsa e tudo. Bicho estudado pelos neurofisiologistas interessados desenvolvimento do sistema visual (o sistema visual amadurece enquanto os animais estão na bolsa, o que permite o manuseio, etc – pelo menos nessa Thales tava certo…). Mas, apesar desses estudos, o que se sabe sobre ele ainda não dá pra encher uma catedral, e não apareceu ainda, Gabriel que me corrija, a tal da timbuzomics…Mas tudo tem seu tempo.
Fomos fazer um levantamento bibliográfico para ver o que tinha sido publicado sobre o assunto. Ladosky nos levou pra biblioteca empoeirada e velha da faculdade e nos introduziu a uns volumes amarelados chamados Biological Abstracts pra fazer o tal do levantamento. Meninos, voces acostumados com pubmed, não tem ideia do suor que era um troço desse… Eram uns volumes onde se encontrava os abstracts de todos os papers publicados em biologia naquele ano. Tinha que ler quase de lupa porque a letra era infeliz de pequena. Líamos os abstracts, escrevíamos umas fichas. O calor era insuportável. A poeira, o cheiro de mofo, e a bibliotecária, idem. Achamos umas tres ou quarto coisas publicadas, e pedimos os tais papers, que nem me lembro se recebemos.
E tome discussão…Será que tem um mecanismo alternativo pra retenção de sódio? Será que ele produz aldosterona em outro lugar? E tome mais discussão. Vamos adrenalectomizar o bicho, e estudar como ele se comporta. Vamos ver se ele realmente mantem o sódio depois da adrenalectomia. E vamos ver se existe aldosterona em circulação, vindo de outra fonte. Ordenamos o kit para aldosterona (que ate hoje não chegou) e partimos pra luta. Luta, isso sim, porque o bicho não era pra menos.
Nosso primeiro problema foi a ausencia de uma casuística timbuzal. Eramos amadores. Alguem no departamento já tinha usado, mas não eramos de high-throughput. Como voces devem intuir, não existe Charles River pra timbu. Então, como conseguir o dito cujo? Fala com um, fala com outro e eventualmente se chega a mãe-fonte do funcionalismo, o pau-pra-toda-obra: o bedel.…. Obvio, o bedel tinha um amigo que arranjava. Dito e feito, na manhã seguinte aparece no departamento um individuo cheirando a Pitu (a popular cachaça pernambucana) com um saco nas costas. Ali dentro estava o nosso objeto do desejo, ardilosamente capturado pelo bebum com um pires de cachaça, o que nocauteava a fera e facilitava a captura. Não e’ piada não, timbu adora cachaça, donde a expressao “bebado feito um timbu…”
O bedel, com coragem de mamar em onça, tirou o ressacado do saco, e nós tres, imberbes filhos da ciência, quase desmaiamos ao ver produzidos antes nossos olhos adolescentes uma das criaturas mais ferozes e fedorentas jamais criadas na natureza. O bicho era insuportável. Aquele era o pior tipo de casamento arranjado que poderia existir. Algum professor passante, vendo nosso espanto, sugeriu que anestesiado não ia ser tao ruim… Recuperado do susto o próximo problema foi onde hospedar o nobre colega. Óbvio que tinha que ser no biotério, mas o biotério era pior que o inferno de Dante, era escuro, quente, e fedia insuportavelmente; nenhum de nós tres queria lidar com essas variaveis. Além do mais, o digníssimo timbu alem de reservatório pra leishmaniose, tambem era reservatório de raiva. Se ele nos mordesse teríamos que sacrificá-lo, e remover o cérebro para examinar a presenca os corpúsculos de Negri, inclusões virais nos neuronios. Isso sem falar em tomar a vacina (imunologia até que enfim). Resolvemos rapidinho que nosso dinheiro do cigarro a varejo ia pro bolso do bedel….
Próxima parada: mesa de operação. A adrenal esquerda era bico, mas a direita estava colada na veia cava inferior. Aquilo ali era uma tarefa pra adulto. Fomos conversar com o professor, que telefonou pra seu amigo Marcelo Silveira, chefe da cirurgia experimental. Ele é o de óculos na foto ai de baixo com Fernando (esquerda) e Lula (direita). Conversa vai, conversa vem, e Marcelo topou ajudar.

Detalhe: ele operava no Pedro II, nosso hospital escola, no centro da cidade. A fisiologia estava no Engenho do Meio, na Cidade Universitária, mil anos luz dali. E agora? Bom, agora, transporta-se o nobre colega num onibus, dentro de uma caixa. Imaginem que tipo de receptividade tivemos dos passageiros do transporte coletivo…Na língua portuguesa ainda não tem expressão pro chiado que aquele bicho fazia (o guinchar do dicionário não chega perto) e sui-generis era pouco, muito pouco, pro cheiro que ele exalava… Fizemos um par de viagens (a “trip” demorava uns 45 minutos num calor da bixiga, desses de voce suar pela canela) e Marcelo teve que requebrar muito pra não matar os bichos. Nesse meio tempo Fernando comprou um fusca velho e íamos nós, e o didelfo da vez. Íamos disfarçados de estudantes de medicina e, fora nossa enorme boa vontade, levávamos uma mangueira pra sifonar gasolina do tanque do carro de alguma alma caridosa, uma vez que o tanque do fusca andava perenialmente seco.

Próxima parada: o pós-operatório…. Fizemos alguns estudos de função renal, botamos os bichos numas gaiolas metabólicas, medimos sódio e potássio na urina e no sangue. Os bichos, de fato perdiam bastante sódio, mas depois de alguns dias voltava tudo ao normal… E agora José? O kit não vinha…Os bichos vivinhos da silva…Uma noite nós tres, tomando cachaça e escutando Led Zeppelin, estávamos conversando sobre as possíveis implicações da grande pesquisa que fazíamos, quando Lula perguntou o que diacho tinhamos aprendido depois de tanto suor? E ele mesmo respondeu, na tapa: se esse bicho avançar pra lhe morder, e voce só tiver uma bala, não atire na adrenal…
O projeto timbu acabou por aí, porque o kit não chegou. Nunca publicamos nada porque não tinha o que publicar. Um dia, um desafeto do nosso professor, soprou no nosso ouvido que essa estória do timbu era velha, mas que mais velho ainda era o fato de que esses animais desenvolviam glandulas adrenais ectópicas ao longo da veia cava, e assim sobreviviam…. Depois dessa aventura partimos pra outras, mas isso é assunto pra outro post…
E o que ficou desse primeiro momento? Algumas coisas simples tipo: tem que ler, tem que questionar, tem que suar a camisa (e até tomar gasolina se for o caso), tem que discutir, e, finalmente, tem que rir. De tudo. Da idéia, do experimento, e mais importante, de si mesmo… A ciencia é um negócio pra se levar a sério, mas o mundo já tá cheio de gente que se leva a sério demais…
Nota de rodapé pros etílicos: “A escolha do timbu como mascote ocorreu em 19 de agosto de 1934, durante um jogo Náutico x América, no campo da Jaqueira. No intervalo, em virtude da chuva e da falta de condições no vestiário, o técnico alvirrubro preferiu conversar com os jogadores no centro do gramado. Um dirigente do Náutico levou para os jogadores uma garrafa de conhaque e pediu que eles bebessem um gole para agüentar o frio. Com isso, a torcida adversária gritava “Timbu! Timbu!” para provocar os jogadores alvirrubros, pois o animal aprecia a bebida alcoólica. O Náutico venceu o América por 3 a 1. Quando os jogadores do Náutico saíram de campo, foram perturbar a torcida adversária, gritando “Timbu, 3 a 1″. Após este jogo, o timbu foi o mascote escolhido pelo Clube Náutico Capibaribe, que então organizou um bloco criado pelo pessoal do remo em 1934 – o Timbu Coroado – que sai aos domingos de carnaval, da sede alvirrubra, e percorre o bairro dos Aflitos.”
Do blogão do Náutico. http://blogaodonautico.wordpress.com/mascote/
  • Prof. Seérgio, o senhor com certeza deveria ter uma participação mais ativa neste blog. Seus posts são fantásticos, prendem o leitor, uma maravilha…

  • Quase uma crônica, rs! Concordo com a Fabrine, excelente post!

  • Mauro Fantini

    Concordei! Ótimo texto!

  • Grande Sergio, otimo post. Me deliciei com a história. E nós, jovens pesquisadores reclamando das condições de trabalho. Realmente vc mostrou como suar a camisa pela ciência.
    Mto boa a história. E essa foto do Lula Brígido parecendo uma criança nem parece que é verdade. hehehe.
    Abraço
    Hernandez

  • Camila

    Sergio,
    Mais um post riquíssimo, interessante e engraçado até. És um escritor nato!

  • Remo

    Participação semanal do Prof. Sérgio seria fantástico!!

  • Excelente o post, em todos os aspectos, como já foi comentado.

    também voto pela participação semanal do Prof Sergio!

  • Pessoal, muito obrigado. Quando seu Barral me convidou, nao imaginei que fosse acabar (eita lingua) gostando tanto de escrever. Faz tempo que nao escrevo em brasileiro (variante limoeirense-recifense).

    So queria fazer um adendo no texto. No fim, eu listo coisas que aprendi. Faltou uma: Tem que colaborar, pedir ajuda. Nesse caso ai de cima, se nao fosse Marcelo, a gente jamais teria feito o experimento.

    Ate a proxima!

  • Desculpa ai, e' adendo ao, em vez de adendo no. Ainda nao aprendi a usar esse blog direito, nao sei editar comentario, nao sei postar foto direito. Acho que vou ter que falar com Dona Cristina e Seu Tiago.

  • Estou a sua disposição, Prof.

  • Caramba, excelente! Quem diria que aquele nosso jantar ia render tanto.

  • Monique Ferraz

    Muito boa a historia, Prof. Cheia de ensinamentos e envolvente. Parabéns!!