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28 março, 2012 • 9:00 Enviado por Cris Bonorino

Nobel Drive

Voltando pro Brasil, curtindo um um choque cultural básico sobre a maneira como lidamos com a ciência aqui no Brasil (na cara e na coragem, against all odds e apesar de tudo) versus o que se passa no metro quadrado mais imunológico da Califórnia (North Torrey Pines Road, englobando UCSD, Salk, Scripps e um pouco alem, LIAI), em que existe pessoal administrativo lendo os editais pra você, montando o projeto , enviando, fazendo as compras e prestando contas. E mesmo assim a competição acerradissima aprova menos de 10 por cento dos projetos, e nem uma dezena de papers na Nature garantem que vc vai ganhar… Eu pergunto, o que é justo neste nosso businness?

E falando em justiça, queria aproveitar o gancho que a Carina puxou no seu último post aqui (muito legal, por sinal) sobre a controvérsia do ultimo prêmio Nobel de Medicina, sugestão do Marcello Barcinsk. Na verdade foram várias controvérsias, né? Ainda na semana passada estávamos falando nisso lá no lab do Steve. Eu cheguei em SD no dia da divulgação dos prêmios – e fiquei sabendo da noticia do Steinman ter falecido na véspera. Ali começou a controvérsia nr. 1. Não do mérito – todo mundo achava que ele tinha de ganhar, além de ele ser um gentleman, o homem mudou a cara da imunologia. O problema é que o Nobel nunca havia sido concedido postumamente. E ele tinha morrido naquela madrugada! E os caras pensaram em retirar o premio, por causa disso. Reação do mundo imunológico – de jeito nenhum! Surpreendentemente, prevaleceu o bom senso.
Irônico porque a controvérsia nr.2 começou ali. Na verdade, mesmo os ferrenhos defensores de que o Ruszlan ganhasse ao invés do Beutler concordam que quem originalmente deveria ter ganhado era o Janeway – pra quem não sabe, mentor do Ruszlan, e que faleceu há alguns anos atrás. O Janeway sempre foi creditado com a idéia original de que a inflamação inicial era necessária para que se desenvolvesse depois uma resposta adaptativa, e de que as células imunes percebiam o potencial de dano, fosse infeccioso ou não, e deviam ter receptores pra isso. A própria hipótese do Danger, da Polly Matzinger, na verdade, era baseada nas idéias do Janeway, e os trabalhos do Ruszlan e do Akira deram nomes aos bois, ou moléculas envolvidas. O Beutler, interessantemente, sempre passou perto das coisas. Vi ele falar uns meses depois, contando como ele achava que tinha descoberto uma molécula nova que ficou sabendo que era o TNF, que recém tinha sido isolado pelo Lloyd Old – que também faleceu há alguns meses, vejam só. A maioria dos imunologistas que conheço acham que o Beutler não tinha de ter ganhado. Prova de como as conexões e a política can go a long way no nosso mundo em que teoricamente tudo tem de ser transparente, claro, translúcido, real. As vezes, uma idéia ganha no grito, como dizemos. Mas não eternamente.
A controvérsia nr. 3 foi com o Hoffmann, o terceiro ganhador. Vi ele falar também, ele trabalhava com insetos, o pai dele era entomólogo. Parecia tranqüila, a trajetória dele até chegar nos receptores inatos de insetos – que o Ruzlan depois foi achar nos murinos. Mas teve o fato do pós-doc dele, o Lemaitre, que o Bernardo comentou aqui no blog, criou um site dizendo que tinha feito todo o trabalho e que o Hoffmann nunca tinha prestado atenção nele. Na palestra o Hoffmann falou de cada pessoa do lab, botou foto, disse o que cada um fez, inclusive desse cara. Quem sabe o que aconteceu de verdade ali? Muitas vezes demora pra um chefe de lab ver o potencial do que alguém em especial do lab dele está fazendo, mas esse reconhecimento em geral vem, embora nem sempre tão explicitamente quanto um ou outro gostariam.

Enfim. Melhor que novela. Neste nosso ramo às vezes a gente esquece que cientistas são seres humanos comuns, sujeitos às mesmas vicissitudes enfrentadas por todos – sonhos, ambições, rancor, paixões avassaladoras, e mesmo a morte. O Nobel, como todas as competições internacionais (Olimpíada, Copa do Mundo, Oscar…), ilumina pontualmente o melhor – e o pior – em todos os concorrentes. Mas sem dúvida é o tempo o grande e inequívoco juiz dos nossos méritos. Ver alguma coisa que você descobriu ou criou ser incorporada ao dia a dia de seus colegas não precisa ser acompanhado de placa, medalha ou qualquer láurea. And that is just called doing our job. Não consigo imaginar reconhecimento maior.
  • Parabéns pelo post Cris! Excelente vc ter trazido esta realidade que muitos nem se quer prestam atenção pois estão focados d+ nos seus experimentos, revisão de literatura, prazos para relatórios, final de bolsa etc. Nem só de ciência vive a ciência, né? E como vc bem salientou, a ciência é feita por seres humanos, homens comuns, e onde há ser humano…. bem deixamos de lado esta questão, rs Adorei o assunto em pauta, e pro bem da ciência e saúde dos ciêntistas, o ego deveria ser deixado + de lado… principalmente pelos mais novos, que entram deslumbrados com tudo e alimentam o círculo vicioso. E quanto ao chefe ou qualquer outro reconhecer seu trabalho, seu potencial: penso que devemos nos contentar com nossa conciencia tranquila e com a certeza que fizemos nosso trabalho dentro das possibilidades (próprias e do local) e da melhor forma possível.
    Somos apenas grãos de areia compondo todo o deserto do conhecimento, deixemos o tempo transpor e moldar as dunas para que cada trabalho isolado tenho um significado maior.
    Mais uma vez, obrigada e parabéns pela escolha do assunto do Post e pelo conteúdo bem abordado. Abs

    • Puxa, obrigada! Realmente tem tantos aspectos da nossa profissao com os quais temos de nos preocupar, que nao da tempo de ficar entediado… e vc, o que achou do Nobel?

    • Bem, neste assunto to mais por fora que bunda de índio. Acompanhei o furdunço aqui no blog mesmo, que junto ao Journal Club tem sido a luz sobre minha ignorância nos últimos tempos. Mas acho que como todo prêmio, por trás do mérito em si, há sim uma politicagem envolvida. Além disso, onde há fumaça há fogo, pode não ser um incêndio como a fumaceira tenta alertar, mas no mínimo uma faísquinha pode existir. Mas, quem de fora vai saber a verdade mesmo? Até os que estao diretamente envolvido tem a "sua verdade". O fato é que sempre há no mínimo a minha versão da história, a versão do outro e o que realmente aconteceu rs

  • Cris, excelente post e welcome back!

    • Obrigada Tiago. Um pedacinho meu ficou lá, fazer o que. Mas conte com o pedação que voltou! Bj!

  • Anônimo

    Adorei Cris! Compartilhei no face.
    Beijo Carol Torronteguy