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27 junho, 2018 Enviado por Comunicação ENSINO E PESQUISA

Uma nova forma de se ensinar Imunologia: ciência, história e filosofia

Pesquisador apresenta estudo que faz dos estudantes protagonistas no aprendizado

A teoria e a prática são partes fundamentais na formação de cientistas, pois é  preciso uma base teórica e de experiências no laboratório. Mas quando, por falta de recursos, essa prática não é possível? Foi o questionamento que o pesquisador Daniel Manzoni de Almeida – docente da Escola da Saúde do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU-SP) e Sócio-Fundador da Conecta – Divulgação e Educação científica – fez quando ministrava aulas da graduação em Imunologia, em sua primeira experiência como professor.

Em 2017, essa pesquisa, intitulada como “A argumentação como prática epistêmica no ensino de Imunologia: Estrutura e uso de uma proposta didática sob uma orientação epistemológica” foi publicada no periódico argentino Revista de Educación en Biología, o que pode impactar futuros professores de imunologia.

O pesquisador considera que essa publicação é uma contribuição dentro da área de ensino em biologia, principalmente por ser um tema tão específico em Imunologia. “É importante para os novos professores poderem fazer essa discussão. Vemos nos livros de Imunologia que o ensino é muito voltado apenas para apresentar o conteúdo científico, pouco se trabalha a história ou com o pensamento filosófico da imunologia. Essa atividade traz uma nova perspectiva, saindo do conteúdo propriamente científico, para apresentar o lado histórico e filosófico, para mobilizar os estudantes nessa vertente que também faz parte da ciência”, comenta Manzoni.

Pesquisador Daniel Manzoni de Almeida
Pesquisador Daniel Manzoni de Almeida

Diferença para o método tradicional

Segundo o pesquisador, o método tradicional tem o conhecimento e todo o domínio de sala de aula focados no professor. Já a nova proposta, que já era estudada por pesquisadores norte-americanos e europeus, traz o aluno para o centro da construção do seu saber. “Um exemplo disso é quando você trabalha o ensino por investigação, um dos objetivos dele, nessa proposta, é que o aluno formule argumentos e textos escritos sobre a temática que ele está estudando, ou seja, toda a construção do saber é ancorada no aluno, em como funciona o seu raciocínio”, explica Manzoni.

Além de estudar a parte científica, Manzoni tem estudado nos últimos anos as particularidades da Imunologia e como elas refletem no ensino. “Procuro captar a parte histórica e filosófica da Imunologia, porque ela tem termos próprios. Por exemplo, quando falamos em memória, em psicologia tem um determinado conceito, mas trazendo para a Imunologia ela toma outra proporção conceitual. Eu investigo quais são essas particularidades da linguagem, os conceitos ao longo da história e a própria filosofia da imunologia, para agregar ao ensino”, afirma Manzoni.

Esse diálogo entre a história, filosofia e Imunologia pode beneficiar tanto ao aluno em seu aprendizado, quanto ao professor com ferramentas para fazer essa construção de conceitos e aplicação dos termos específicos. A graduação é o foco dos estudos do pesquisador, mas em alguns momentos ele também se dedica a pós-graduação, por se tratar de um público de possíveis novos professores.

Além do pesquisador Daniel Manzoni, também participaram desse estudo Silvia Luzia Frateschi Trivelato, da Universidade de São Paulo – Faculdade de Educação, e Marsilvio Gonçalves Pereira, da Universidade Federal da Paraíba.

 

Próximos passos

O pesquisador já está com outro trabalho em andamento da mesma natureza, que já foi submetido a uma revista de ensino. No estudo são trabalhadas outras categorias de análise dos argumentos nos artigos dos alunos. “Estamos analisando a qualidade desses argumentos, se possuem conteúdos de Imunologia ou que vão além dessa área. Já verificamos que existem conteúdos de filosofia e genética, estamos mapeando a natureza desses argumentos”, explica Manzoni.

 

Como tudo começou

Foi em sua primeira experiência como professor da graduação em Imunologia, que ele se viu diante de um desafio que estava limitando o aprendizado em suas aulas. Ao final do semestre letivo, Manzoni realizou com os alunos uma pesquisa de avaliação, em que eles apontaram alguns pontos importantes. Entre eles, que gostariam de mais aulas práticas do que tiveram. “Um dos temas da Imunologia era a genética envolvida no processo de diferenciação de linfócitos, os alunos queriam aulas práticas disso. Eu estava em um beco sem saída, pois é um tema muito complexo que envolve aulas práticas bem caras. Eu fazia pós-doutorado e já estava encaminhando a minha linha de pesquisa para a área de ensino. Pensei nisso como um desafio, em propor aulas práticas baratas, de baixo custo, que não usasse cobaias, mas que trabalhasse com as características da prática científica”, explica Manzoni.

 

A ideia do pesquisador era propor atividades que um professor pudesse aplicar em qualquer aula de imunologia, mas que elas incluam as práticas epistêmicas e científicas, assim surgiu uma nova proposta de ensino de Imunologia, inserindo o estudante nessa cultura, discutindo o conceito de alfabetização científica. “O objetivo da alfabetização científica é o aluno ‘fazer ciência’, ter a possibilidade de se inserir nessa cultura, com atividades baseadas no ensino por investigação que permita que o estudante execute as práticas científicas do cientista”, comenta o pesquisador.

A publicação na revista  pode ser consultada no link

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