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14 março, 2017 • 6:44 Enviado por Dinler Antunes

O doloroso processo de “parir” um artigo científico; e o que aprendemos com isso

Autor: Dinler Amaral Antunes, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA).

 

Publicar um artigo científico descrevendo os resultados de sua pesquisa é um processo longo e doloroso. A despeito de nossos esforços para planejar a “gestação” e agendar a data mais conveniente para o nascimento do artigo, isso nunca funciona. Somos frequentemente redirecionados pelos resultados obtidos e estendemos os prazos para tentar entender e validar os dados observados. Com certa surpresa, certo dia percebemos que a pesquisa cresceu e amadureceu, sendo chegada a hora de compartilhá-la com o mundo.

 

Escrever um artigo científico não é como postar sua opinião no Facebook. Você precisa descrever os dados e discutir suas implicações. Para isso, você precisa estar ciente de toda a pesquisa que já foi feita no tema e esclarecer como sua contribuição se encaixa (ou não) no que se sabia até então. Você precisa apontar as limitações de estudos anteriores e esclarecer os pontos que fazem o seu trabalho ser inovador e pertinente. Muito provavelmente, isso envolve criticar o trabalho de amigos e colegas que atuam na mesma área. Você precisa ser franco, mas ponderado. Precisa salientar as implicações do trabalho, mas ser honesto sobre suas limitações.

 

Enfim, isso significa passar horas trabalhando no texto. Revisando seus dados. Criticando seus próprios experimentos. Revisando o trabalho de outros. Buscando relações e discutindo os resultados. Uma parte deste trabalho envolve o seu grupo (coautores), mas uma boa parte se resume a você (primeiro autor) e uma página em branco aguardando o texto.

 

phd072314sFonte: http://www.phdcomics.com/comics.php?f=1733

 

Depois de dias (semanas?) de trabalho, cuidadosamente escolhendo as palavras e reorganizando frases, você finalmente conclui o “parto”. A página vazia agora comporta um lindo texto. Aquela imagem mental abstrata com a qual você vinha sonhando há tempos, agora se vê materializada. Você se sente orgulhoso e eufórico; quer mostrar ao mundo sua criação e ouvir elogios sobre sua beleza. Na maioria das vezes, no entanto, a reação é outra. Seus co-autores avaliam o texto e partem para o ataque. Isso não está bom! Isso está errado! Você precisa repensar isso! E assim, passado o choque, você começa um cuidadoso processo de cirurgia plástica do seu recém-nascido filho.

 

De fato, existiam coisas imperfeitas, mas você o amava o jeito que era. Seus co-autores apontaram inúmeros defeitos, pediram para refazer partes inteiras, e você se esforça para corrigir os defeitos sem desfigurar a criação original. Depois de um tempo, você contempla sua nova obra. De fato, muito mais bonita que antes. E ainda é possível reconhecer seus traços, a obra ainda é em maior parte sua.

 

phd091411sFonte: http://www.phdcomics.com/comics.php?n=1439

 

Novamente orgulhoso e eufórico você escolhe o melhor jornal científico de sua área e submete o pródigo artigo, cheio de expectativas. Mais uma vez, uma chuva de críticas lhe aguarda. Desta vez não são seus co-autores, que também compartilham interesse em publicar seu artigo. Desta vez são seus pares. Especialistas da área. Muito provavelmente os autores de alguns dos artigos que você criticou. Eles fazem um julgamento duro. Derrubam suas afirmações infundadas e questionam a validade de seus dados. Eles exigem novas provas, exigem uma revisão mais detalhada da literatura, exigem a remoção de alguns trechos e a inclusão de outros; coisas que você não necessariamente concorda. Você argumenta, discute, batalha para atender aos pedidos sem ter que refazer tudo do zero. Você busca novos argumentos para justificar suas posições e remove conclusões que de fato estavam equivocadas. Você remodela sua obra várias vezes no processo.

 

Em muitos casos, a despeito dos seus esforços, os revisores não se sentem convencidos e rejeitam seu artigo. Talvez porque seu trabalho tinha algumas falhas fundamentais. Talvez porque eles não entenderam o que você estava fazendo. De uma forma ou de outra, a culpa é sua. Você falhou. Colegas menos otimistas te sugerem abandonar o trabalho, ou publicá-lo em alguma revista bem menos exigente.

 

Mas com persistência e dedicação você revisa o trabalho, adiciona dados e finalmente consegue a desejada publicação em uma renomada revista da área. Depois de questionar suas convicções inúmeras vezes e mudar significativamente sua forma de apresentar os dados, você agora observa sua criação com novos olhos. Agora sim ela é pública. Seus colegas lhe felicitam e você é convidado para falar sobre o seu trabalho. Você se sente novamente orgulhoso da contribuição, apesar das mudanças.

 

Por um breve período, sua publicação é o que há de mais novo na área. Mas como você estava atuando na fronteira do conhecimento atual e como ciência é uma atividade coletiva, rapidamente novos artigos serão publicados. Eles incluirão críticas e comentários sobre a sua contribuição e trarão resultados ainda mais inovadores, solucionando muitos dos problemas que você não pode solucionar no seu trabalho. E a vida continua. Talvez seu artigo acabe esquecido. Talvez alguém prove que você estava errado. Ou, na melhor das hipóteses, trabalhos muito melhores que o seu acabarão lhe dando algum crédito por estar apontando na direção correta, apesar de todas as óbvias críticas que eles não deixarão de expressar. Se tudo deu certo, a esta altura você já está grávido(a) de um novo trabalho e pronto para começar tudo outra vez.

 

Agora deve estar claro o motivo pelo qual usei o adjetivo “doloroso” para descrever o processo. Lendo a descrição acima você pode estar pensando que ser cientista exige um certo grau de masoquismo. De fato, você recebe muito mais críticas do que elogios. E quanto mais inovadora a sua contribuição, maior o impacto imediato, e maior a chance de ser duramente criticado e corrigido depois.

 

Eu ainda sou um jovem autor, mas depois de ter vivenciado este processo algumas vezes já aprendi algumas lições que são de utilidade pública. Em primeiro lugar é preciso entender que as críticas não são pessoais. Uma crítica ao seu trabalho não deve ser entendida como um ataque pessoal, por mais apaixonado e convicto que você esteja sobre suas opiniões e sua interpretação dos dados. Obviamente estamos falando de interações entre pessoas e existem casos excepcionais em que o revisor deixou de ser profissional e fez comentários pessoais ou de alguma forma inadequados (machistas, por exemplo). Mas estas são as exceções, e neste caso você pode simplesmente ignorá-las (ou expressar sua indignação para o editor!). Parafraseando o escritor britânico Christopher Hitchens, “aquilo que pode ser afirmado sem evidência, pode ser descartado sem evidência.”

 

Na maioria dos casos, por mais duras que sejam as críticas, elas são apenas a demonstração do ceticismo dos revisores. E por mais que possam haver visões/interpretações divergentes entre as partes, o debate está embasado em fatos e evidências. Ambos os lados do debate estão ouvindo os argumentos do lado contrário e pensando se aquilo realmente explica os fatos observados. Portanto a discussão não fica empacada em um debate vazio, no qual cada lado repete frases prontas e o lado oposto simplesmente as ignora. Existe um esforço para chegar a um consenso. Obviamente os revisores e o editor da revista tem mais “poder” neste contexto, podendo encerrar a conversa de maneira abrupta e até injusta. Mas muitas vezes existe realmente uma troca; na qual o autor concorda que alguns pontos irão melhorar o trabalho (e faz as alterações), mas ao mesmo tempo convence o editor de que algumas das críticas eram infundadas ou desnecessárias.

 

Eu não estou dizendo que é um processo fácil e que o autor sempre acaba feliz com o resultado da discussão. Eu só estou salientando que via de regra ambos os lados estão mais preocupados em esclarecer os fatos, do que em “ganhar a discussão”. E que críticas ao seu trabalho, ou as suas ideias, não são críticas a sua pessoa. E isso não se limita a redação de artigos científicos. Divulgadores de ciência como Pirula e Sam Harris costumam repetir com frequências a distinção entre respeitar pessoas e respeitar ideias. Nós devemos respeitar pessoas (indivíduos) e seu direito de expressar ideias e opiniões (quaisquer que sejam). A liberdade de expressão é um dos direitos mais fundamentais em uma democracia. Mas nós não precisamos “respeitar” ideias (quaisquer que sejam), no sentido de que devemos poder criticar francamente estas posições. A pessoa que recebe as críticas não deveria ficar ofendida. Deveria pensar sobre o que foi dito e, caso sejam críticas bem fundamentadas, repensar suas posições de forma a incorporar ou refutar embasadamente estas críticas.  

 

Estamos vivendo um período de muita polarização (no Brasil e no mundo) e estamos cada vez com menos paciência para o debate. Nos isolamos nas nossas bolhas e ignoramos ou ridicularizamos quem está fora delas. Pior ainda, desenvolvemos tamanha paixão por alguns temas que se torna tabu discuti-los. Qualquer crítica a estes temas, se torna uma crítica ao que me define como pessoa. Eu sou o meu time, eu sou o meu partido, eu sou a minha religião (ou a falta dela), eu sou a minha empresa, eu sou a minha tribo. Ou você está comigo, ou está contra mim. E eu simplesmente não quero ouvir nada que soe parecido com uma crítica a minha tribo, mesmo que sejam fatos.

 

Este tipo de comportamento está cada vez mais forte e vem sendo responsável por uma onda Nacionalista em vários países. Infelizmente, nos isolarmos nas nossas bolhas não faz as outras pessoas mudarem de opinião sozinhas. E ignorarmos os fatos e as críticas embasadas não os tornam menos verdadeiros. O comportamento “tribal” vai na contramão da globalização. A despeito de nossos bairrismos, este é um caminho sem volta; cada vez mais nos tornaremos parte de uma sociedade global, multiétnica e multicultural. E precisamos saber conviver em sociedade, neste único planetinha que habitamos. Não é nada fácil, mas precisamos reaprender a conversar, escutar, e discutir de maneira intelectualmente honesta, tentando salientar consensos e convergir em torno dos fatos.