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3 junho, 2018 • 9:00 Enviado por IBA FMRP-USP

O inimigo pode estar dentro de nós: Intestino fraco, bactérias escapam provocando autoimunidade

Por: Leonardo Lima e Paula Viacava (doutorandos-iBA/ FMRP-USP)

Editora: Luciana Benevides

 

O Lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune sem cura, multifatorial, crônica, de etiologia desconhecida, com predisposições genéticas e influências ambientais, que afeta cerca de 5 milhões de pessoas no mundo, geralmente mulheres, podendo apresentar complicações graves levando até mesmo a morte. Embora estudos recentes mostrem que as bactérias comensais intestinais podem residir em tecidos linfoides gastrointestinais de indivíduos saudáveis, não está claro se a translocação bacteriana está envolvida com o quadro de autoimunidade sistêmica (1). Evidências crescentes sugerem que a microbiota intestinal pode afetar os sintomas e a progressão de algumas doenças autoimunes. No entanto, como e porquê a microbiota influencia o LES ainda precisa ser elucidado. O primeiro relato descrevendo uma disbiose intestinal associada ao LES aconteceu apenas em 2014 e, no ano passado, reumatologistas já relataram o papel da disbiose bacterina influenciando a resposta ao LES (2,3).

Neste contexto, os autores do trabalho (4) observaram que a depleção de bactérias Gram-positivas, em camundongos que desenvolvem espontaneamente LES, acarretou em uma menor produção de autoanticorpos e de outros antígenos associados ao LES, o que se correlacionou com uma maior sobrevivência dos animais. Adicionalmente, eles observaram que estas bactérias gram-positivas, aumentavam a permeabilidade da barreira intestinal e a translocação bacteriana a níveis sistêmicos.

Em seguida, foi revelado que uma bactéria denominada Enterococcus gallinarum, encontrava-se, sistemicamente, em 82% dos animais com LES. Ainda mais, esta bactéria translocava do intestino para outros órgãos apenas em humanos e camundongos com alguma predisposição ao LES, mas não em indivíduos e animais saudáveis. Para comprovar que a possível bactéria patogênica, E. gallinarum, era realmente importante para desenvolver os mecanismos patológicos associados ao LES, eles adicionaram esta bactéria no intestino de animais, e observaram que a colonização intestinal pela E. gallinarum aumentava a permeabilidade de barreira intestinal e a inflamação intestinal. Além disso, foi mostrado que hepatócitos murinos e humanos infectados com esta bactéria, expressavam auto-antígenos, os quais em combinação com a produção de auto-anticorpos, em organismos com predisposição ao desenvolvimento do LES, gerava a formação de imunocomplexos, e sua conseguinte deposição nos vasos, levando aos efeitos sistêmicos desta doença (Figura1).

Ainda não satisfeitos com o grande avanço em conhecimento do campo da interação entre microbiota, doenças autoimunes e mais especificamente o LES, os autores desenvolveram uma vacina com a bactéria E. gallinarum atenuada, e mostraram que o tratamento com a mesma levava a uma redução dos autoantígenos e anticorpos e uma conseguinte maior sobrevivência dos camundongos com elevada predisposição ao desenvolvimento de LES.

Figura

Figura 1: Microbiota induzindo ou potencializando a resposta autoimune do LES (Imagem retirada do comentário do autor -https://www.youtube.com/watch?v=NKBcGuzfv_I)

Referências :

  1. Fung TC, Bessman NJ, Hepworth MR, Kumar N, Shibata N, Kobuley D, et al. Lymphoid-Tissue-Resident Commensal Bacteria Promote Members of the IL-10 Cytokine Family to Establish Mutualism. Immunity. 2016;44(3):634–46.
  2. Hevia A, Milani C, López P, Cuervo A, Arboleya S, Duranti S, et al. Intestinal dysbiosis associated with systemic lupus erythematosus. MBio. 2014;5(5).
  3. Neuman H, Koren O. The gut microbiota: A possible factor influencing systemic lupus erythematosus. Vol. 29, Current Opinion in Rheumatology. 2017. p. 374–7.
  4. Manfredo Vieira S, Hiltensperger M, Kumar V, Zegarra-Ruiz D, Dehner C, Khan N, et al. Translocation of a gut pathobiont drives autoimmunity in mice and humans. Science (80). 2018;359(6380):1156–61.