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11 janeiro, 2017 • 3:33 Enviado por Dinler Antunes

O “perverso” problema da resistência antimicrobiana

Autor: Dinler Amaral Antunes, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA).

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(Assista a este documentário no Netflix, iTunes ou Amazon)

 

O maior centro médico do planeta fica na cidade de Houston, no Texas (EUA), sendo conhecido como TMC (na sigla em inglês para Centro Médico do Texas). Em uma área que representa praticamente um bairro da cidade, estão concentradas 54 instituições médicas sem fins lucrativos, incluindo hospitais, escolas de medicina, escolas de enfermagem, escolas de farmácia, escolas de odontologia, universidades e organizações voltadas a saúde pública. Segundo dados atualizados, o centro recebe cerca de 8 milhões de pacientes por ano, realiza mais de 180 mil cirurgias por ano (1 a cada 3 minutos) e realiza o parto de 25 mil bebês por ano (1 a cada 20 minutos). Também abriga o maior hospital de câncer do planeta (The University of Texas MD Anderson Cancer Center), onde estão sendo colocados em prática alguns dos mais avançados tratamentos para diversos tipos de câncer. Mas o que vem causando grande mobilização da comunidade médica e acadêmica no TMC não são os promissores ensaios clínicos em imunoterapia contra o câncer ou desenvolvimento de novos procedimentos cirúrgicos, mas a preocupação com o surgimento de novas cepas de bactérias resistentes a múltiplos antibióticos.

Com todo desenvolvimento da medicina moderna fica fácil esquecer, mas quase todos os procedimentos que realizamos hoje dependem da eficácia de antibióticos. Desde uma simples cirurgia ambulatorial até um longo tratamento quimioterápico, o sucesso destes procedimentos depende de termos ferramentas para controlar infecções bacterianas (que são prevalentes!!). Se chegarmos ao ponto em que a maioria das infecções comuns sejam causadas por bactérias resistentes a múltiplos antibióticos, todos os 8 milhões de pacientes anuais do TMC estarão em apuros. E por consequência, o resto do mundo também. Levantamentos realizados pelo CDC nos EUA indicam que a cada ano 2 milhões de pessoas se infectam com bactérias resistentes aos antibióticos conhecidos, acarretando em pelo menos 23 mil mortes por ano (só nos EUA). A facilidade com que cepas resistentes são selecionadas na presença de doses crescentes de antibiótico foi capturada em um recente experimento divulgado pela Science News. Esta facilidade, fruto de mecanismos genéticos das bactérias e da pressão seletiva dos antibióticos, se soma a facilidade com que nos deslocamos atualmente fazendo com que este não seja um problema isolado. Quando uma cepa resistente surge ela rapidamente se espalha, não só pelo ambiente, mas entre hospitais e inclusive entre países. É um problema que afeta toda a comunidade, e que só poderá ser contornado por uma ação conjunta de toda a comunidade. Ainda não estamos vivenciando a falência dos antibióticos de forma generalizada, mas se não tomarmos medidas imediatas poderemos ter problemas muito sérios (globais) em um futuro próximo.

 

 

Parece simples, para resolvermos o problema da resistência a antibióticos precisamos fazer melhor uso dos antibióticos que temos. Este não é um problema novo. Na verdade, é tão velho quanto a descoberta dos antibióticos. A penicilina revolucionou a medicina e teve aplicação imediata em diversas áreas, inclusive no controle de doenças sexualmente transmissíveis. A penicilina era 100% eficiente no controle da gonorréia, por exemplo, um problema comum nas tropas norte americanas durante a guerra do Vietnã. Mas ao invés de continuar usando a penicilina no tratamento da doença, o exército americano quis dar um passo além. Distribuiu penicilina para todas as prostitutas no Vietnã, na tentativa de prevenir a infecção de soldados americanos. Como consequência, em pouco tempo surgiu a primeira cepa resistente a penicilina; a qual se espalhou pelas prostitutas, depois pelos soldados, e de lá para o mundo. Hoje, praticamente qualquer caso de gonorréia é resistente a penicilina. E este início “desastrado” foi só o prenúncio do que estava por vir. Para todo o novo antibiótico descoberto, houve uso sem controle e subsequente surgimento de cepas resistentes em poucos anos.   

 

                        (Fonte: https://leucinerichbio.com/blogs/blog_title?id=6)

 

Em parte isso envolve o medo dos profissionais de saúde de não darem o tratamento adequado ao paciente. Como é difícil distinguir imediatamente entre os sintomas de uma infecção viral e de uma infecção bacteriana, por exemplo, na dúvida se opta por receitar antibiótico sempre. Isso também é culpa do paciente, que não se conforma com a resposta de que é provavelmente uma infecção viral e que deve simplesmente tomar líquidos e aguardar o sistema imunológico resolver o problema. Ninguém quer esperar, ninguém quer ficar sem remédio. Então o paciente pressiona o médico ou consegue antibiótico por conta própria. E assim vamos desperdiçando antibiótico e a cada uso vamos arriscando a chance de selecionar uma nova cepa resistente. Portanto, parte da solução envolve conscientização dos médicos e pacientes, bem como diagnósticos mais rápidos e precisos para diferenciar infecções virais e bacterianas.discovery-new-classes-of-antibacterial

Mais do que um problema relacionado ao mau uso, também é um problema relacionado com a indústria. O desenvolvimento de novas drogas é um processo caro e demorado, então o desenvolvimento de novos antibióticos acaba não sendo um investimento interessante para a indústria farmacêutica. Os antibióticos são drogas comercializadas com preço baixo e que se tornam rapidamente ineficientes pelo surgimento de cepas resistentes. Como consequência, houve um período de aproximadamente 30 anos sem que se desenvolvessem novas classes de antimicrobianos.


Mas é ainda mais complicado do que isso. Porque nós não usamos antibióticos apenas como tratamento para doenças em humanos. Antibióticos são adicionados a uma infinidade de produtos, de sabonetes a cosméticos, e são utilizados para induzir ganho de massa muscular na criação de animais para consumo humano. Assim, não adianta receitarmos antibióticos de maneira consciente se estamos constantemente despejando “toneladas” de antibióticos no ambiente e nos alimentos que consumimos.  

O documentário Resistence (imagem no topo do post), retrata todos estes diferentes aspectos do problema. Escrito e dirigido por Michael Graziano, este documentário inclui entrevistas com especialistas e pessoas envolvidas nos vários setores, abordando desde a caracterização do problema até alternativas economicamente viáveis que já estão sendo adotadas em alguns países. Talvez mais importante, este documentário coloca um “rosto” nas consequências do problema, ao entrevistar pacientes e familiares afetados por bactérias resistentes. Este filme é acessível para qualquer audiência e precisa ser amplamente divulgado, visto que parte da solução envolve informar a população sobre os riscos reais do uso abusivo de antibióticos e da necessidade de repensarmos alguns aspectos da nossa indústria alimentícia. O filme está disponível em diferentes serviços de streaming, incluindo Netflix, iTunes e Amazon.      

Considerando todos estes diferentes níveis de complexidade, o problema da resistência antimicrobiana foi recentemente classificado como um exemplo de wicked problem (problema “perverso”). Uma classificação utilizada para problemas incompletos, contraditórios e com requisitos mutáveis, cujas soluções são freqüentemente difíceis de se reconhecer por conta de sua interdependência. Na tentativa de iniciar uma resposta a este tremendo desafio, a comunidade do TMC em Houston inaugurou em Dezembro de 2016 um novo centro para pesquisa na área de resistência antimicrobiana e genômica microbiana (CARMiG). Para marcar o início dos trabalhos, o centro sediará um simpósio sobre o tema agora nos dias 19 e 20 de janeiro de 2017 (Novas Fronteiras na Pesquisa Antimicrobiana).

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