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28 fevereiro, 2017 • 6:23 Enviado por Joao Carmo

Plantas Medicinais, Alimentícias, Flavonoides e Sistema Imune

Aproveitando para divulgar o Workshop Internacional de Imunologia, a ser realizado nos próximos dias 28 e 29 de abril de 2017, no Campus Itumbiara da Universidade Estadual de Goiás, escrevo abaixo sobre algumas das palestras do evento: efeito de plantas medicinais (Dra Keila Zaniboni Siqueira) e plantas alimentícias não convencionais (PANCs – Dra Cristiane Bolina) sobre o sistema imune. Como não há muitos artigos publicados sobre o assunto ainda, relacionando os efeitos dessas plantas sobre o sistema imune, resumo a edição especial da revista Nutrients, publicada recentemente, com a seguinte revisão:

PANCsflavonoides
“Os flavonóides, incluindo cerca de 6000 compostos fenólicos, são produtos do metabolismo secundário de plantas que podem ser uma parte da dieta através do consumo de muitas plantas comestíveis. Os flavonóides podem ser classificados em flavonóis (tais como quercetina, kaempferol, isoquercetina, etc., encontrados em cebolas, maçãs, bagas, couve, alho-poró, brócolis, mirtilos, vinho tinto e chá), flavonas (como glicosídeos de luteolina, crisina e apigenina, comumente encontrados em frutos com casca, salsinha e alho-poró), isoflavonas (como a genisteína, a daidzeína e a glicitina presentes em leguminosas, principalmente soja e derivados), flavanonas (como naringenina, eriodictilol e hesperidina, excluindo citrinos), flavanóis (como a epicatequina, a catequina, a galocatequina, a epigalocatequina, o galato de epigalocatequina e também as formas poliméricas ou os taninos condensados encontrados no cacau e no chá), e antocianidinas (tais como pelargonidina, cianidina e malvidina, encontradas em vinho tinto e frutas de bagas).

Quimicamente, os flavonóides têm uma estrutura polifenólica que lhes confere atividades antioxidantes, propriedades reconhecidas há mais de 40 anos. Nesse período (1976-2016), cerca de 23.000 publicações apareceram (mais de 20.000 artigos de pesquisa e 2600 avaliações) de acordo com pesquisa na base de dados Scopus (pesquisando ‘flavonóides e antioxidantes’). Porém, as atividades biológicas flavonóides vão além das propriedades antioxidantes, embora algumas estejam relacionadas. Alguns tipos particulares de flavonóides têm mostrado efeitos protetores contra o câncer, doenças cardiovasculares, alterações gastrointestinais e síndromes relacionadas ao sistema nervoso, como depressão, epilepsia, doença de Alzheimer e doença neurodegenerativa, entre outras condições patológicas.
A evidência na literatura das ações anti-inflamatórias de alguns flavonóides baseia-se em estudos in vitro e in vivo, bem como em estudos clínicos. No contexto de inflamação, foram descritos alguns dos mecanismos de ação dos flavonoides: como antioxidantes, modulando a expressão de genes (i.e., citocinas, moléculas de adesão) ou atividades enzimáticas. No entanto, o papel dos flavonóides no ramo adaptativo da resposta imune ainda permanece bastante inexplorado. O objetivo da edição especial de “Nutrients” intitulada “Flavonóides, Inflamação e Sistema Imune” foi incentivar os pesquisadores a atualizar o conhecimento desses compostos a partir desses dois aspectos biológicos, intimamente relacionados: resposta inflamatória, principalmente conduzida por macrófagos e neutrófilos como expressão da ativação do sistema imune inato; e o sistema imune relativo, acima de tudo, à imunidade adquirida. Os artigos incluídos nessa edição demonstram a tendência dos investigadores de explorar os flavonóides, como composto puro ou incluído nos alimentos e o seu impacto em células, animais ou seres humanos em referência à resposta inflamatória ou imunitária.

Esta questão proporciona uma oportunidade para atualizar o conhecimento sobre alguns exemplos das subclasses dos compostos flavonóides e seus efeitos, mesmo em nível molecular, sobre imunidade e inflamação, mas também em doenças mediadas por inflamação, como obesidade resistente à insulina, doenças cardiovasculares e até mesmo câncer. As contribuições são de países da África (África do Sul), América (Brasil), Ásia (China, Coréia, Japão e Taiwan) e Europa (Alemanha, Espanha e Suíça).
A revisão de Vezza et al. [1], por exemplo, enfoca o efeito dos flavonóides na doença inflamatória intestinal, aprofundando nos mecanismos de ação propostos. Estes autores relatam estudos in vitro e in vivo sobre o efeito de antocianinas, chalconas, flavanonas, flavonas, flavonóis e isoflavonas na doença inflamatória intestinal e também revelam a ausência de ensaios clínicos para confirmar o papel real dos flavonóides deste fármaco sobre a doença inflamatória. A revisão de Goya et al. [2] também inclui alguns dos estudos de uma importante fonte de flavanóis – cacau – em modelos animais de inflamação do cólon. Por outro lado, a quercetina, um flavonol com propriedades biológicas únicas há muito reconhecidas, é também o foco de um artigo de revisão de Li et al. [6] sobre os efeitos e mecanismos da quercetina sobre a inflamação e a função imunológica in vitro, in vivo e em estudos clínicos.

Em geral, a maioria da literatura revista suporta os benefícios da suplementação prolongada com quercetina. Outro flavonol com atividades biológicas bem conhecidas é a miricetina. Semwal et al. [7] revisam extensivamente estudos que demonstram, entre outros, as suas atividades e aplicações antioxidantes, anti-fotoenvelhecimento, anticâncer, antiagregação plaquetária, anti-hipertensivos, anti-inflamatórios, imunomoduladores e antialérgicos. Eles concluem que, embora mais estudos de toxicidade devam ser desenvolvidos, miricetina pode constituir um novo agente para estas situações num futuro próximo.
Existem duas revisões que compilam estudos demonstrando a ação anti-inflamatória do consumo de cacau, alimento relativamente rico em flavonoides. Goya et al. [2] focam na inflamação como um mecanismo patogênico envolvido em doenças cardiovasculares e compilam estudos in vitro e abordagens em animais experimentais, mostrando seu efeito particular sobre marcadores da inflamação. Além disso, comentam as publicações mais recentes sobre os efeitos do cacau sobre os marcadores anti-inflamatórios em coortes humanas.

Neste contexto, é importante a revisão crítica por Ellinger et al. [3], que incluem 33 ensaios randomizados e controlados que relatam os efeitos do consumo de cacau sobrem biomarcadores inflamatório. Contudo, estes autores concluem que a evidência dos efeitos anti-inflamatórios do cacau é atualmente escassa, embora o consumo de cacau possa prevenir ou mesmo reduzir a inflamação vascular. Mantendo-se com os efeitos do cacau e do chocolate, esta edição especial também inclui um artigo de pesquisa [4] focado em um ensaio clínico duplo-cego randomizado, controlado por placebo, conduzido em 92 pacientes infectados com HIV – uma população com alto risco cardiovascular.

Este estudo também inclui outro alimento rico em polifenóis – erva mate. A conclusão deste primeiro estudo clínico para avaliar o efeito desses flavonóides no perfil inflamatório desses pacientes submetidos à terapia anti-retroviral, indica que 65 g de chocolate escuro é capaz de aumentar as concentrações de HDL. Um efeito diferente do cacau é demonstrado por Camps-Bossacoma et al. [10], que relataram os efeitos tolerogênicos do cacau em um modelo de rato de sensibilização oral. Este estudo, focado na imunidade adquirida, revela as mudanças produzidas pela ingestão de cacau nos gânglios linfáticos mesentéricos, que eventualmente impedem a imunização oral a um alérgeno alimentar. O tecido linfóide associado ao intestino também foi avaliado no estudo de Martín-Peláez et al. [9], que incluíram um ensaio clínico com compostos fenólicos de azeite. Este ensaio humano randomizado, controlado, duplo-cego demonstra que o consumo de azeite virgem contendo 500 mg/kg de compostos fenólicos de azeite aumenta a proporção de bactérias intestinais revestidas com IgA [8].
Outro estudo clínico (aberto, prospectivo, randomizado, cruzado, de alimentação controlada) inclui o efeito do tomate e do azeite sobre os fatores de risco para doenças cardiovasculares [8]. Este artigo relata que um único ingrediente de tomate, especialmente molho de tomate enriquecido com azeite refinado, diminui o colesterol total, triglicerídeos e vários biomarcadores inflamatórios celulares e plasmáticos, enquanto aumenta a concentração de HDL.
Finalmente, deve ser levado em conta que, apesar dos relatos crescentes sobre os benefícios dos flavonóides sobre a inflamação, o conhecimento sobre seus potenciais riscos para a saúde também é fornecido. Nesta edição, Yu et al. [4] examinam os benefícios anti-inflamatórios das isoflavonas, mas também analisam a evidência atual de seus efeitos negativos sobre a saúde.
Os autores esperam que os artigos contidos nesta edição, mas também as referências que eles incluem e comentam, sejam de interesse para pesquisadores, clínicos, nutricionistas e outros profissionais ou não profissionais envolvidos no mundo apaixonado da interação entre a saúde e a dieta – particularmente daquela com alimentos ricos em flavonóides. Além da atualização dos conhecimentos sobre as ações específicas dos flavonóides sobre imunidade e inflamação, os autores também incentivam mais estudos clínicos e pesquisas experimentais para caracterizar os mecanismos de ação intracelular, estabelecer a quantidade de flavonóides necessários para alcançar tais efeitos e também estabelecer a ação precisa de cada flavonóide ou extrato específico contendo flavonoides.”

Frutas

Forças Naturais Plantas

Fonte:
Pérez-Cano & Castell. Flavonoids, inflammation and Immune System. Nutrientes. 8(10):659, 2016.

Querem saber mais? Leiam:

1. Vezza T., Rodríguez-Nogales A., Algieri F., Utrilla M.P., Rodriguez-Cabezas M.E., Galvez J. Flavonoids in inflammatory bowel disease: A review. Nutrients, 8(4):211, 2016.

2. Goya L., Martín M.Á., Sarriá B., Ramos S., Mateos R., Bravo L. Effect of cocoa and its flavonoids on biomarkers of inflammation: Studies of cell culture, animals and humans. Nutrients. 8:659, 2016.

3. Ellinger S., Stehle P. Impact of cocoa consumption on inflammation processes—A critical review of randomized controlled trials. Nutrients, 8(6):321, 2016.

4. Yu J., Bi X., Yu B., Chen D. Isoflavones: Anti-inflammatory benefit and possible caveats. Nutrients. 8(6):361, 2016.

5. Li Y., Yao J., Han C., Yang J., Chaudhry M.T., Wang S., Liu H., Yin Y. Quercetin, inflammation and immunity. Nutrients. 8(4):211, 2016.

6. Semwal D.K., Semwal R.B., Combrinck S., Viljoen A. Myricetin: A dietary molecule with diverse biological activities. Nutrients. 8(2):90, 2016.

7. Valderas-Martinez P., Chiva-Blanch G., Casas R., Arranz S., Martínez-Huélamo M., Urpi-Sarda M., Torrado X., Corella D., Lamuela-Raventós R.M., Estruch R. Tomato sauce enriched with olive oil exerts greater effects on cardiovascular disease risk factors than raw tomato and tomato sauce: A randomized trial. Nutrients. 8(3):170, 2016.

8. Martín-Peláez S., Castañer O., Solà R., Motilva M.J., Castell M., Pérez-Cano F.J., Fitó M. Influence of phenol-enriched olive oils on human intestinal immune function. Nutrients. 8(4):213, 2016.

9. Petrilli A.A., Souza S.J., Teixeira A.M., Pontilho P.M., Souza J.M.P., Luzia L.A., Rondó P.H.C. Effect of chocolate and yerba mate phenolic compounds on inflammatory and oxidative biomarkers in HIV/AIDS individuals. Nutrients. 8(5):132, 2016.

10. Camps-Bossacoma M., Abril-Gil M., Saldaña-Ruíz S., Franch À., Pérez-Cano F.J., Castell M. Cocoa diet prevents antibody synthesis and modifies lymph node composition and functionality in a rat oral sensitization model. Nutrients, 8(4):242, 2016.

11. Kim O.K., Jun W., Lee J. Effect of Cudrania tricuspidata and kaempferol in endoplasmic reticulum stress-induced inflammation and hepatic insulin resistance in HepG2 cells. Nutrients, 8(1):60, 2016.