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30 março, 2012 • 3:38 Enviado por Sergio Lira

Porque sim

 Gláucia e eu fomos a
Israel agora há pouco. Fomos visitar meu colega de postdoc, Micky  Schickler e sua mulher Hedva, e, mais
importante, fomos conhecer um lugar diferente e nos divertir, que a vida é
curta.

Fui também dar um
talk no Instituto Weizmann, que fica em Rehovot, uma cidade ao sul de Tel Aviv.
O Instituto leva o nome de Chaim Weizmann, um químico de origem russa que
estudou na Alemanha, na Suíça e trabalhou vários anos na Inglaterra. Lá
conquistou todo mundo, e descobriu um método para extrair acetona de pele de
batata, o que rendeu um grande avanço na produção de explosivos pelos ingleses
(não me perguntem como, não sei). Além de cientista, Weizmann era ativista
politico. Foi eleito presidente da entidade sionista internacional depois da
morte de Theodor Herzel. Em 1918 fundou a Hebrew University em Jerusalém (a
diretoria incluía Einstein, Freud e Martin Buber, nada mal). Em 32, quando
ainda não havia oficialmente o Estado de Israel, montou um pequeno instituto de
pesquisa em química, com uma doação de uma família inglesa no meio dos laranjais
em Rehovot,  onde ele tinha uma
casa de campo. Em 49, quando ele já tinha 75 anos, o instituto foi refundado,
agora com seu nome, uma homenagem ao seu trabalho, sua visão. Nesse meio tempo
ele foi o primeiro presidente de Israel.
O instituto fica numa área muito
arborizada, que ocupa 1 quilômetro quadrado, onde estão construídos mais de 100
prédios e casas para cientistas (um conjunto de casas é batizado de Conjunto
Oswaldo Aranha, nosso diplomata que teve uma papel importante na história de
Israel pois presidiu a sessão da ONU onde foi estabelecido o Estado de Israel).
Uma escultura de Bruno Giorgi, doada por Alfredo Bloch, está entre as várias
peças de arte distribuídas no campus. 
Ronen Alon, um grande traficante de
leucócito e grande amigo, arranjou um tour do campus prá gente. Primeiro vimos
a casa de Weizmann, que virou um museu. Depois demos um passeio pelo instituto,
com seus labs de fisica, de biologia, de matemática, computação.  São 250 grupos de pesquisa, mil alunos,
200 postdocs, e 400 pessoas em administração. A mantra é  pesquisa interdisciplinar. O orçamento
anual é de aproximadamente 300 milhões de dólares (o custo da corrupção brasileira
é sem duvida muito superior). O governo israelense cobre um terço disso, o
resto vem de grants internacionais e filantropia+royalties. Royalties são um
caso à parte, uma vez que já em 59 o Weizmann fundou uma empresa chamada Yeda
(saber, em hebraico), com fim de comercializar as descobertas dos seus
cientistas. Prá dar uma ideia, entre 2000 e 2004 eles fizeram mais de 200 milhões de
dólares em royalties.
Fomos almoçar. Ronen nos mostrou a janela
de Ada Yonath, Nobel de química (que tentou 25.000 vezes cristalizar
ribossomos, e finalmente conseguiu) e falou do seu carro velho, que fecha a
porta na porrada. Depois do almoço dei meu talk, e fomos falar com o pessoal da
nossa área, Guy Shakar e Steffen Jung, que foram postdocs de Mike Dustin e Dan Littman aqui em Nova York. Daniel Mucida e eu colaboramos com eles. No lab de Guy encontramos Julia Farache, uma estudante brasileira que estuda tráfego de celulas mieloides no intestino em real-time
(vejam a foto abaixo).
Depois Ronen nos levou prá Tel Aviv. Na
saída  mostrou um parque de biotech
paridas pelo Weizmann. Fomos prá Tel Aviv, andamos pela rua. Tel Aviv parece
uma Miami. É muito, muito diferente de Jerusalém. É perto do mar, longe da
cruz, como dizia Caetano em Vaca profana. Jerusalém nos confundiu, espantou,
mexeu. Jerusalém é uma miragem, fantasia, pedra dura, sangue, ódio, alma. Um
lugar cheio de versões. E estórias. E lá a ficha caiu. Jerusalém é um osso, a
metáfora da vida. Num processo eterno de construção e destruição. Osso calcinado pelo sol do tempo.
Ronen é parcial a Tel Aviv. Claro, foi uma
cidade feita por eles. Depois andamos até Jaffa,  uma cidade árabe, no mediterrâneo. Lá, no meio da rua,
encontramos Yair Reisner, o chefe do departamento dele que tinha ficado em casa
curando uma gripe. Ele nos levou pro seu apartamento e nos serviu um bom vinho.
Falamos de arte, de ciência, de arquitetura, um grande papo.  Depois voltamos a Tel Aviv. Fomos jantar
no porto. Na parede do restaurante dois retratos enormes de cenas de Waltz with Bashir, o
filme israelense de maior sucesso nos ultimos anos. Se nao viram, vejam. É
muito bom.
Depois viajamos pelo país. Haifa, Acco, e Rosh
Pina, na fronteira com o Líbano. Depois o mar da Galileia, o Rio Jordão, os
territórios ocupados, o Mar morto. Um país fascinante, com suas dinâmicas, seus
erros trágicos,  e seus acertos espetaculares. 
Dentre esses acertos sem dúvida, o
Weizmann. Nessa viagem comecei a me perguntar: porque não fazemos um Instituto
assim no Brasil? Um troço multidisciplinar, engajado com o Brasil, com sua
juventude, com seu futuro? Porque não podemos nos livrar de uma vez por todas
das donas lurdinhas, dos decanos,  dos “pais da matéria”, e criar algo  COM visão, garra, competição,
desempenho, commitment?
Israel é prova de que isso é possível.  Eles apostaram na ciência para
construir o país, as pedras fundamentais de um novo país. Um país dependente
das suas mentes.  Um lugar prá ser
a mola do progresso, que define o que o país vai ser. Acreditaram no seu
capital humano. Investiram nas suas mentes, na perspectiva de mudar o
presente.  Porque não fazer como
eles? Porque não acreditar na invenção? E porque não por  4% do PIB na ciência, na invenção, como
eles põem? Será que vamos sempre pensar em tirar da terra e nunca em investir
na nossa gente?
Voltei convencido que essa transformação
pode acontecer agora no Brasil.  Pode acontecer no curso das nossas vidas. Sim.
Temos tudo pra isso: os recursos, o  balanço, a esperança, a criatividade, a solidariedade, o
momento. E mil outras razões.
 O Weizmann tem 63 anos. É uma espetacular prova de sucesso.
Temos tudo pra reproduzir esse modelo.
Tudo.

  • Sergio,

    Adorei seu post. Posso te confeçar uma coisa?

    O pior é que meu sonho ingenuo é exatamente ficar bilhonário para construir um centro de excelencia em pesquisa. Pensava em construir eu mesmo uma vez que eu já imaginava que depender de dinheiro e interesse do meu país pra isso era uma possibilidade menos provável do que ficar bilhonário (viagem minha de qualquer jeito).

    Parabéns pelo post… Espero que ele consiga abrir alguns olhos e mudar alguma coisa.

  • Belo post! Muito interessante.
    Bernardo, eu penso exatamente a mesma coisa e é o que me faz sair de casa muitas vezes e procurar uma casa lotérica para jogar na Mega Sena.

  • O custo da corrupção brasileira… triste mas verdade. E nós, vamos fazer o que? Bj, Sergio

  • Bernardo e Josiane, muito obrigado pelos comentários. Confesso que nao sei como essa ideia poderia tomar rumo pratico (caso voces nao ganhem na mega sena…)))

    Cris querida, uma inciativa do estado brasileiro, superpartidaria, gerida por cientistas, numa parceria com empresarios e instituicoes internacionais seria a maneira mais simples de se criar algo assim (existem centros de excelencia no Brasil, com o O IMPA, o ITA e a CEBRAPA. Porque nao um grande centro de vanguarda em biologia, que todos sabemos ser a nova fisica?). Poderiamos ser criativos e exigir novas formas de financiamento da ciencia. Por exemplo: 1% de restituicao de tudo que assistimos desviados pela corrupcao, que nunca volta pra nacao (muito saudavel que hoje presenciemos a descobertas das falcatruas, mas inconcebivel que elas continuem impunes e que ninguem devolva nada do que roubou)…ou ainda, 0.05% de taxa sobre o que a nossa classe abastada compra em Miami ou Nova Iorque (eu moro aqui e vejo o frenesi consumista dos patricios).

    Mas, agora falando serio, o que vai por o negocio pra frente somos nos, a comunidade cientifica. Ja pensaram se os israelenses tivessem se deixado levar pela constatacao que viviam no meio de um deserto, no meio de uma situacao conflituosa, com os traumas inimaginaveis da guerra? Nada teria sido construido…