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23 março, 2018 • 5:59 Enviado por Dinler Antunes

Sobre vacinas e foguetes nos tempos da Terra plana

Autor: Dinler Amaral Antunes, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA).

Se você pensa que na Idade Média as pessoas acreditavam que a Terra era plana, se engana. Na verdade isso é um mito, em grande parte disseminado por um livro de ficção histórica sobre a vida de Cristóvão Colombo (que também inspirou o filme “1942: A conquista do paraíso”). Apesar de uma minoria que realmente acreditava na Terra plana, o conceito da Terra esférica já era consenso 01entre os intelectuais. Mais impressionante, no entanto, é o fato de que o primeiro a fazer um cálculo bastante preciso da circunferência da Terra foi o filósofo Eratóstenes no século III a.C, conforme lindamente explicado por Carl Sagan (versão completa). Mais de 2200 anos mais tarde, nós não apenas acumulamos uma infinidade de dados altamente precisos sobre o formato da Terra, como nós nos beneficiamos diariamente de tecnologias e serviços que são diretamente ligados ao formato do planeta (como internet e comunicação por satélite, GPS, rotas de vôos comerciais, rotas marítimas, etc). Muito diferente do século III a.C ou da Idade Média, hoje uma grande parcela da população tem fácil acesso a informação, podendo acessar uma infinidade de sites/vídeos educativos e aprender por conta própria. O futuro maravilhoso previsto por Isaac Asimov já chegou!! Ironicamente, o efeito colateral deste fácil acesso a informação parece ser uma maior disseminação de teorias conspiratórias e informações falsas, conforme ilustrado na imagem ao lado (publicada por Hype Science). Infelizmente “o tempo da Terra plana” é agora. A internet permite que pessoas que compartilham esta crença se encontrem, se organizem, e promovam a disseminação deste e outros absurdos. Em Novembro de 2017, ocorreu nos EUA a primeira Conferência Internacional sobre a Terra Plana, com centenas de conferencistas (veja vídeo da BBC). Evidentemente, esta crença também se propaga no Brasil.

No que se refere a crença na Terra Plana, o remédio para desinformação pode vir como uma consequência do avanço tecnológico. Estamos vivendo uma nova corrida espacial, envolvendo diversas agências governamentais e empresas privadas. Recentemente, a empresa SpaceX realizou com sucesso o teste de seu novo foguete (Falcon Heavy) e como parte do teste colocou em órbita um carro da Tesla. Milhares de pessoas acompanharam o lançamento pela internet e assistiram ao fantástico retorno dos foguetes auxiliares (boosters). Outros milhares assistiram a live do “Starman em órbita (imagem abaixo). Obviamente uma parcela dos internautas reagiu ao evento dizendo que era tudo falso. Como qualquer um tinha acesso às imagens reais do Starman e da área de carga do Falcon Heavy, rapidamente surgiram na web várias imagens forjadas, tentando convencer as pessoas de que este evento (real) havia sido forjado. Pause por um momento para pensar no significado desta frase. Por exemplo, é possível achar imagens falsas mostrando o Tesla em um fundo verde, ou o Tesla em um estúdio. Mas independentemente da ação e do alcance destes agentes das teorias conspiratórias, o alcance de um evento histórico como este lançamento da SpaceX é muito maior. Vai ser muito mais difícil defender a Terra plana quando a exploração espacial se tornar rotina e quando passeios em órbita se tornarem acessíveis para uma parcela maior da população.

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Imagem de uma das câmeras que transmitiram a live do “Starman” em órbita.

Mas voltemos ao problema das vacinas. Se algo tão evidente e relativamente acessível como o formato da Terra ainda é motivo de debate e confusão, o que esperar de questões ainda menos intuitivas, como o funcionamento das vacinas? Em 2017 eu escrevi um texto de opinião para o Museu do Amanhã, abordando a importância das vacinas e os riscos do movimento anti-vacinas (Da varíola ao anti-vaxx). Um dos pontos abordados neste texto foi justamente este paradoxo entre o acesso à informação e o aumento da “desinformação”. Este ponto foi posteriormente abordado no TEDxUSP pelo Biólogo Átila Iamarino (apresentador do Nerdologia). O Átila discutiu como o nosso sistema educacional está defasado frente a este dilúvio de informações. Muito mais importante do que ensinar os alunos a acumular fatos e conhecimentos estáticos, seria ensiná-los a buscar e filtrar o conhecimento desejado. Ser cético com o conteúdo encontrado, avaliar a credibilidade das fontes, considerar questões como conflito de interesse, viés político, etc.

Isso não significa que todos precisam ser especialistas ou cientistas. Apenas que todos deveriam ter as ferramentas básicas de pensamento crítico e de método científico. Os cálculos de Eratóstenes não eram tão complicados, mas nem todo mundo precisa saber reproduzi-los hoje. No entanto, todo mundo deveria ter uma noção de grandezas (e de escala) e facilmente concluir que uma régua de 30 cm alinhada contra o horizonte não prova que a Terra é plana. Este pensamento crítico e científico (básico) também nos protegeria de acreditar no pseudo Dr. Fulano, que está revelando pelo whatsapp a cura milagrosa do câncer. Usualmente baseado em produtos 100% naturais, que só não foram revelados pela grande mídia em função do complô da indústria farmacêutica para continuar vendendo medicamentos (haja vista a polêmica da “fosfo, que de fato não funcionava).

Foi justamente neste ambiente fértil da internet e das redes sociais que a teoria anti-vacina cresceu e se espalhou como uma epidemia mundial. Apoiada em ideias “intuitivas”, mas erradas, como a de que o bebê é muito pequeno para suportar todas as vacinas obrigatórias, de que o número de vacinas é apenas consequência de uma pressão mercantil, de que as vacinas enfraquecem o sistema imunológico “natural”, de que tratamentos homeopáticos são mais seguros e eficientes, etc. A consequência vem sendo acumulada nos surtos de doenças que já haviam sido controladas, como o Sarampo. Os EUA tiveram um grande surto de Sarampo em 2014 (CDC). Mais recentemente uma epidemia de Sarampo na Europa contaminou mais de 7,5 mil pessoas (ECDC). O Brasil também pode entrar para esta lista, visto que a adesão a campanhas de vacinação também está caindo em alguns grupos (O GLOBO, Folha).

Outro ponto mencionado no texto do Museu do Amanhã foi que cada pessoa infectada é uma roleta-russa para a comunidade, pois mutações aleatórias em cada ciclo de replicação do vírus podem subitamente torná-lo mais resistente ou mais “agressivo”. Uma publicação recente na revista Science fornece um exemplo real deste risco. Os autores descrevem que uma simples mutação (S139N) em uma proteína do vírus Zika foi responsável por um aumento substancial na capacidade do vírus de infectar células progenitoras neurais, acarretando o aumento de incidência de microcefalia no recente surto de Zika nas Américas. Lembrando que no período inicial do surto também não faltaram teorias conspiratórias sobre a causa da microcefalia, inclusive colocando a culpa nas vacinas.

Em resumo, ainda precisamos evoluir muito em termos de educação básica e divulgação científica para leigos. E isso não é um problema exclusivo do Brasil. Além disso, sempre existirão pessoas defendendo todo tipo de absurdo na internet, por ignorância, ganância, ou motivos ocultos. Pior do que isso, existem grupos organizados que estão usando esta nossa vulnerabilidade para manipular o público através das mídias sociais (Sciencemag, O GLOBO); o que também soa como uma grande teoria conspiratória, mas que parece ser a nova realidade. Infelizmente, não existe solução simples ou rápida para estes problemas. Mas o mais importante neste momento é não desistir do diálogo civilizado, sempre que for possível. Ouvindo as opiniões mais absurdas, mas respondendo respeitosamente com base em fatos e informação de fonte confiável. Uma frase que tem sido repetida por diversas pessoas nos EUA salienta que “as pessoas têm direito a suas próprias opiniões, mas não tem direito aos seus próprios fatos”. Nós precisamos encontrar uma base sólida de fatos para construir um novo diálogo, capaz de transpassar as nossas bolhas sociais. E precisamos repetir quantas vezes forem necessárias que a Terra não é plana e que as vacinas não causam autismo (PLOS Blogs).

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Imagem da Estação Espacial Internacional serenamente orbitando o nosso esférico planetinha azul.