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28 setembro, 2012 • 8:00 Enviado por Tiago Mineo

Transgenia e Câncer…

Fig. 1. Mortality of rats fed GMO treated or not with Roundup, and effects of Roundup alone. Rats were fed with NK603 GM maize (with or without application of Roundup) at three different doses (11, 22, 33% in their diet: thin, medium and bold lines, respectively) compared to the substantially equivalent closest isogenic non-GM maize (control, dotted line). Roundup was administrated in drinking water at 3 increasing doses, same symbols (environmental (A), MRL in agricultural GMOs (B) and half of minimal agricultural levels (C), see Section 2). Lifespan during the experiment for the control group is represented by the vertical bar ± SEM (grey area). In bar histograms, the causes of mortality before the grey area are detailed in comparison to the controls (0). In black are represented the necessary euthanasia because of suffering in accordance with ethical rules (tumors over 25% body weight, more than 25% weight loss, hemorrhagic bleeding, etc.); and in hatched areas, spontaneous mortality.
Colegas,
li com muita preocupação notícia veiculada por parte da imprensa na última semana, sobre indução de tumores por consumo de milho transgênico e herbicida utilizando ratos como modelo experimental. 
O assunto é polêmico: o milho e a soja são grãos ‘ubiquitários’ em nossas dietas. O aumento de demanda por estes alimentos requer um aumento na produtividade – seja por incremento da área plantada ou de produtividade/hectare. Paralelamente, o estabelecimento de monoculturas é acompanhado por desequilíbrios no ecossistema e, consequentemente,… pragas! Para se eliminar as pragas, em nome da produtividade, derramam-se (literalmente) rios de herbicidas, fungicidas e muitas outras idas (doravante denominados venenos) nos produtos que chegam as nossas bocas. Os transgênicos (OGMs) surgiram para auxiliar no combate as pragas, na esperança de reduzir-se assim os volumes de venenos aplicados. Mas quem produz os OGMs também produz os venenos e, curiosamente, a associação tornou-se fundamental para uma boa safra. Todo esse processo é acompanhado de técnicas contemporâneas como real time PCR, uma vez que é necessário qualificar o tipo de grão que embarca em nossos portos com os mais variados destinos no planeta: porcentagem de transgênicos, presença de pragas, para quem vão os royalties… Não vou aqui ser hipócrita e dizer que abomino a busca por inovações que visem a produtividade. Contudo acredito que a regulação destas estratégias deve ser revista em prol da saúde coletiva.
Voltando para a notícia: Não trabalho com tumores… é uma área que tenho pouquíssimo conhecimento. Mesmo assim, fiquei curioso e busquei o paper em questão, com base nas notas da AFP no UOL e IG.
O artigo em questão será publicado na Food and Chemical Toxicology (Elsevier, JCR ISI 2012 = 2.999), journal que conta com vasto número de publicações na área de segurança alimentar, pelo grupo do Prof. Gilles-Eric Seralini (Universidade de Caen, França). Fiquei impressionado com o que li. Apesar de que, se eu fosse o revisor, questionaria alguns pontos como a repetibilidade do protocolo: mais pelo número de animais utilizados do que por experimentos independentes – é ‘impossível’ repetir 3x um protocolo de 2 anos. 
Me peguei divagando sobre outras questões a este respeito… Será que os venenos atuam no sistema imune? Será que a modificação genética no milho cria um veneno desconhecido, potencialmente carcinogênico? Será que tecnologias semelhantes, aplicadas em animais produtores de carnes, tem o mesmo potencial? Será que vacinas de DNA, que tem como princípio a incorporação de material genico codificador, pode incorrer nas mesmas barreiras?…. Será que esse paper é furado?!?!? 
Na minha opinião, só o tempo (e a pesquisa) nos dirá…

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Para quem quiser ler com mais detalhes:

Available online 19 September 2012

Long term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize

  • a University of Caen, Institute of Biology, CRIIGEN and Risk Pole, MRSH-CNRS, EA 2608, Esplanade de la Paix, Caen Cedex 14032, France
  • b University of Verona, Department of Neurological, Neuropsychological, Morphological and Motor Sciences, Verona 37134, Italy
  • c University of Caen, UR ABTE, EA 4651, Bd Maréchal Juin, Caen Cedex 14032, France
  • Caros, as proteínas transgênicas encontradas neste milho (no caso, a proteína epsps) são comuns a milhares de alimentos e evidentemente não têm nenhuma relação com o câncer observado pelo Séralini e seus colegas. Além disso, depois de cosidas, estas proteínas (que compões uma parte muito pequena do grão do milho, menos que 0,001%) são degradadas como todas as demais. Não há, portanto, nenhuma relação entre o consumo de milho e o câncer observado nos animais.

    O que acontece é que o artigo do Séralini é um completo desastre, o que na verdade apenas segue a linha dos anteriores do mesmo grupo, sempre muito ruins. Quando o dito vem a público dizer que os cientistas reagiram contra seu paper sem lê-lo, seguramente deve tirar estas conclusões de seu próprio comportamento, já que ele reivindica ser o primeiro a fazer um estudo de longo prazo em alimentos GM quando existem muitos outros anteriores.
    O mais sério, contudo, foi escolher justamente uma linhagem de ratos que espontaneamente desenvolve tumores pelo corpo todo após seis meses de vida. Isso é, independente de qualquer outro erro, um disparate completo.
    Para uma leitura crítica do paper sugiro visitarem:
    http://genpeace.blogspot.com.br/2012/09/artigo-que-mostra-o-surgimento-de.html
    e também
    http://genpeace.blogspot.com.br/2012/09/artigo-sobre-efeito-de-milho.html

    Atenciosamente,
    Paulo Andrade/ Dept. Genética/ UFPE

  • Olá Paulo.
    Muito obrigado pelo seu comentário.

    Vou te dar minha opinião como consumidor, uma vez que não sou agrônomo, bioquímico ou especialista em tumores: não tenho o menor medo dos alimentos transgênicos.

    Tenho medo sim de tudo o resto que jogam em cima dos nossos alimentos! Estes compostos são tóxicos demais! Não é atoa que se tem hoje uma legislação rígida em relação aos resíduos desses tratamentos…

    Mas, como disse no post, não sou contra a produtividade – muito pelo contrário. Só acho que não podemos colocar a saúde da população em risco em prol da produção.

    Abraços, Tiago.

  • Rodrigo

    Tiago, a questão é realmente interessante e polêmica. Não faltam por aí artigos de todo tipo relatando intoxicações (para não citar alergias e doenças crônicas) de pessoas, animais selvagens ou rebanhos por causa de alimentos transgênicos e/ou agrotóxicos. É difícil avaliar quanto há de verdade ou não por trás dessas notícias, ou quão bem os dados foram interpretados e por isso devemos realmente prestar atenção quando um periódico científico se dispõe a publicar algo desse gênero e o que há por trás disso.

    Como também não trabalho com câncer e nem com transgênicos, me concentrei nos agrotóxicos: por que as produtoras de transgênico fazem uma espécie de venda casada de cultivares e agrotóxicos? As quantidades utilizadas foram de fato reduzidas? É possível reduzir ainda mais a utilização de pesticidas? Os agricultores sabem disso? Se eles sabem, seguem as instruções? Não é o que vejo, tais insumos são aplicados em larga escala, sem que os agricultores, principalmente os pequenos e médios, utilizem equipamentos adequados de segurança e os venenos atingem não só as lavouras, mas também as matas ao redor (quando elas ainda existem), além de contaminar rios e solo e suas formas de vida. Talvez aí tenhamos um grande problema de saúde pública de fato.

    O BRASIL UTILIZA MUITOS AGROTÓXICOS BANIDOS PELA UNIÃO EUROPEIA E PELOS EUA. Esses produtos são destinados ao mercado interno, já que não podem ser exportados, vide o boicote sofrido por nossa laranja nos EUA. Ingerimos cerca de 5 litros de veneno por ano, segundo a campanha contra agrotóxicos (http://contraagrotoxicosse.blogspot.com.br/p/sobre-campanha.html).

    Como você mesmo disse, não podemos ser hipócritas e abandonar tudo isso de repente e desconsiderar as vantagens da tecnologia, mas devemos estar igualmente alertas sobre os reais benefícios de alguns produtos e ao abuso no uso de outros. Afinal, a produção de alimentos não é o problema e sim sua distribuição e o acesso a eles. Portanto, não podemos permitir que a saúde pública e o meio-ambiente sejam rifados.

    Devem ser incentivados estudos tanto experimentais quanto na área de saúde pública, com levantamentos, questionários bem dirigidos e amostras significativas e bem analisadas que permitam aprofundar o conhecimento sobre o impacto real dos agrotóxicos na saúde daqueles que trabalham diretamente ou muito próximo a eles e aqueles que entram em contato através da ingestão alimentos.

    Sei que eu já escrevi demais, mas não posso deixar de dizer que por definição, e ao contrário da transgenia, as vacinas de DNA para uso clínico não se inserem no genoma do indivíduo, se é a isso que você se refere quando diz “incorporação de material gênico codificador”. Há estudos de segurança sobre o tema e, se for o caso, durante o desenvolvimento de uma vacina de DNA deve-se realizar mais testes para garantir que isso não ocorre. O desenho de uma vacina de DNA pode evitar propriedades que por ventura aumentem as chances de integração. Enfim, é só para evitar interpretações equivocadas. O FDA dispõe de regulações a respeito (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2847045/pdf/nihms162389.pdf).

    Parabéns por trazer esse assunto ao blog, excelente post.

    Abraço