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14 julho, 2016 • 5:14 Enviado por Helder Nakaya

Vamos sair com a galera ou tá precisando de Interferon-gama na testa?

Já é sabido que pessoas com desordens neurológicas e de comportamento como autismo, demência e esquizofrenia possuem um desbalanço no sistema imunológico como um todo, especialmente em relação a algumas citocinas e populações de células T. Um artigo que saiu ontem na Nature mostra que o sistema imune na verdade pode ter um papel fundamental nessas desordens.Primeiro eles mostraram que camundongos SCID (com deficiência na imunidade adaptativa) possuem problemas sociais. Eles mostraram isso usando um ensaio na qual botam o camundongo a ser testado em uma câmara que está conectada a outras duas, digamos A e B. Na câmara A, é colocado um objeto e na câmara B um novo camundongo. Normalmente, um camundongo “normal” prefere visitar o coleguinha na câmara B ao objeto. O que eles viram foi que o camundongo deficiente na imunidade adaptativa preferia investigar o objeto. E eles mostraram que esse comportamento anti-social não tem a ver com deficiência no olfato, deficiências motoras ou grau de ansiedade anormais no camundongo SCID. Será que tal compartamento seria revertido se fossem injetados linfócitos de camundongos normais nos camundongos SCID? Sim! Quando isso acontecia, o camundongo SCID passava a demonstrar um comportamento social normal.

IFNg_social_molecule

 

Eles então testaram se linfócitos T poderiam influenciar diretamenta o comportamento social de camundongos. Para isso, eles diminuíram a quantidade de células T que iam parar nas meninges, tratando camundongos selvagens com anticorpos específicos contra VLA4 (uma integrina expressa em células T que é também importante para migração para o sistema nervoso central). Esta eliminação parcial de linfócitos T nas meninges já era capaz de afetar o comportamento social dos camundongos. E como os linfócitos T da meninge não vão ao parênquima do cérebro, isso sugeria que o efeito no comportamento era mediado por fatores solúveis.Analisando o transcritoma do córtex cerebral de ratos e camundongos em diferentes situações (deprivação de sono, estresse, anti-depressivos, etc), os autores encontraram um enriquecimento de genes regulados por Interferon (IFN)-gama. O passo natural para testar essa hipótese foi ver se camundongos deficientes em IFN-gama também exibiam deficiência no comportamento social. E sim, esses camundongos deficientes em IFN-gama eram de fato anti-sociais comparados com camundongos não deficientes. E o interessante é que uma única dose de IFN-gama injetada na cabeça destes camundongos deficientes restaurava o comportamento social “normal” deles. E, claro, essa injeção não funcionava quando o camundongo era deficiente no receptor de IFN-gama.

Mas então em que células esse IFN-gama estava atuando?

Deletando o receptor de IFN-gama especificamente em neurônios do córtex pré-frontal, os autores mostraram que são essas as células responsáveis pela mudança no comportamento. Usando dados de transcritoma, eles também mostraram que animais (camundogos, ratos e até drosófilas) em condições de isolamento social ou que apresentam maior agressividade possuem menor expressão de genes associados com IFN-gama.

Tudo isso sugere que esta citocina solúvel relacionada a uma resposta contra patógenos, também pode influenciar o comportamento social. E como ficar em grupo aumenta a chance de transmitir patógenos, eles acreditam que há uma ligação evolutiva entre animais sociais e uma melhor resposta anti-patógeno, sendo o IFN-gama uma peça chave nisso tudo.

Isso, claro, não quer dizer que devemos injetar IFN-gama na testa daquele amigo que se recusa a ir pra sua festinha.

Unexpected role of interferon-γ in regulating neuronal connectivity and social behaviour
Anthony J. Filiano, Yang Xu, Nicholas J. Tustison, Rachel L. Marsh, Wendy Baker, Igor Smirnov, Christopher C. Overall, Sachin P. Gadani, Stephen D. Turner, Zhiping Weng, Sayeda Najamussahar Peerzade, Hao Chen, Kevin S. Lee, Michael M. Scott, Mark P. Beenhakker, Vladimir Litvak & Jonathan Kipnis
Nature (2016) doi:10.1038/nature18626