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18 julho, 2016 • 3:55 Enviado por Nelson Vaz

Variação e versatilidade

O termo mudança pode se referir à variação quando se refere, por exemplo, a uma coleção de entidades, como na diversidade genética. Mas quando a mudança se refere a uma única entidade, o termo tem o sentido de plasticidade, versatilidade – inclui algo que permanece a despeito da variação. Os seres vivos são exemplos primários de entidades que exibem permanência com variação, são fluxos ininterruptos de mudanças onde algo se conserva, onde as mudanças adquirem um rumo previsível. Em animais como os vertebrados, do embrião nasce um novo ser que se torna adulto e eventualmente se reproduz e morre. Em seu trabalho sobre o processo evolutivo, que ele denomina a “deriva natural” dos seres vivos, Jorge Mpodozis (2011) insiste em que não deveríamos nos preocupar , primariamente, com a ocorrência de mudanças, porque os seres vivos são fluxos contínuos de mudanças, que não podem ser interrompidas sem que eles se desintegrem. Deveríamos nos preocupar mais com o rumo que estas mudanças seguem. O que determina o rumo destas mudanças? Ou, como Mpodozis diz na epígrafe do pequeno livro (Vaz et al., 2011) que escrevemos junto com Gustavo Ramos e Chico Botelho: “Como se conserva aquilo se que se conserva naquilo que muda?”

Um aspecto importante deste modo de ver é distinguir entre, por um lado, “adaptação”, no sentido de adaptar-se a uma nova situação, e, por outro lado, “conservar a adaptação”, no sentido de manter a congruência com um meio cambiante sem perder a adaptação preexistente, como fazem os organismos enquanto vivem. Segundo Mpodozis, todos os seres vivos estão sempre adaptados pois a perda da adaptação acarreta a perda da organização autopoiética e a morte. Então, na Biologia do Conhecer (Maturana, 2002)não existem seres vivos não-adaptados; para ver a definição de Mpodozis: (https://www.youtube.com/watch?v=bKf1m4R3tW4)

A palavra adaptação (ad + aptus = com a competência, com a aptidão) diz exatamente isto: existe um ser vivo, um sistema apto a manter-se a si próprio, algo que se conserva enquanto muda, que constrói a si mesmo continuamente através da substituição de componentes celulares e/ou moleculares.

Na imunologia, venho apontando esta conservação há várias décadas, uma circularidade, um reciclar interior, um fechamento – uma clausura como dizia Francisco Varela, em Denver (Vaz and Varela, 1978). Nesta mesma época, final dos anos 1970, eu havia encontrado a tolerância oral (Vaz et al., 1977) e mostrado que ela poderia ser adotivamente transferida por linfócitos T (Richman et al., 1978). Não era portanto, uma perda, uma subtração na reatividade. O que era então?

Já de volta ao Brasil, tentei falar sobre isso e representa-lo graficamente em um texto intitulado “A Face oculta da memória imunológica” (Vaz, 1981). Escrevi isto antes do simpósio da SBPC, em 1982, quando me encontrei com as ideias de Humberto Maturana e encontrei pela primeira vez com Antonio Coutinho. A Figura abaixo (adaptada de Vaz, 1981) contrasta a diferença entre o auto-desconhecimento (tradicional) e a auto-determinação (nossa maneira de ver).

auto-desconhecimento

 

Figura 1 . Duas formas de descrever a atividade imunológica. (A) AUTO-DESCONHECIMENTO: angífgenos do ambiente (a,b,c) são reconhecidos por unidades (clones, conjuntos de clones) que são independentes entre si. (B) AUTO-DETERMINAÇAO: As unidades reconhecedoras (clones, conjuntos de clones) são interdependentes e criam um ciclo endógeno de interações. Isto ocorre porque a unidade anti-a reconhece um elemento (idiotípico) “a” que faz parte da unidade anti-c; que, por sua vez reconhece “c” na unidade anti-b, que reconhece “b” na unidade anti-a. Antígenos do ambiente (a’,b’,c’) são confundidos (degeneração da especificidade) com os elementos a,b.c. A hipótese do auto-desconhecimento é incompleta por não incluir a conectividade interna do sistema, que é o que determina seu comportamento.

Maturana, H. and J. Mpodozis (2000). “The origin of species by means of natural drift.” Revista         Chilena de Historia Natural 73:261-310 (2000) 73: 261-310.

Maturana, H. (2002). “Autopoiesis, structural coupling and cognition: a history of these and other   notions in the biology of cognition.” Cybernetics & Human Knowing 9(3-4): 5-34.

Mpodozis, J. M. (2011). A equação fundamental da Biologia. Vaz , N.M., Mpodozis, J.M., Botelho,                   J.F. and Ramos, G.C. “Onde está o organismo? – Derivas e outras histórias na Biologia e         na Imunologia. Editora-UFSC. Florianópolis SC Brasil, Editora UFSC: 25-44.

Richman, L. K., et al. (1978). “Enterically-induced immunological tolerance- I.Induction of   supressor T lymphocytes by intragastric administration of soluble protein antigens.” J.        Immunol. 121: 2429-2434.

Vaz, N. M., et al. (1977). “Inhibition of homocitotropic antibody response in adult mice by previous                   feeding of the specific antigen.” J. Allergy Clin. Immunol. 60: 110.

Vaz, N. M. and F. G. Varela (1978). “Self and nonsense: an organism-centered approach to                immunology.” Med. Hypothesis 4: 231-257.

Vaz , N. M., et al. (2011). Onde está o organismo? – Derivas e outras histórias na Biologia e na            Imunologia. Florianópolis, editora-UFSC.

Vaz, N. (1981). “A face oculta da memória imunológica.” Ciência e Cultura 33 (11):1445-1447.