banner_immuno2018
25 julho, 2018 • 7:21 Enviado por Dinler Antunes

Vítimas do próprio sucesso: baixa cobertura vacinal e o risco do retorno da Polio

Autor: Dinler Amaral Antunes, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA).

 

Neste post eu vou recapitular algumas notícias recentes sobre o retorno de doenças que estavam controladas. Isso não é nenhuma novidade para imunologistas ou profissionais da área da saúde, os quais vêm tentando alertar sobre a queda nas taxas de vacinação. A cobertura da vacina da pólio, por exemplo, deveria ser de 95% mas está em apenas 77% no Brasil (O Globo). Assim como outras 8 vacinas para crianças menores de 1 ano de idade, que também estão abaixo da meta. Em um mundo globalizado, onde as pessoas viajam e migram constantemente, isso representa uma vulnerabilidade gigantesca. Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou o Sarampo como sendo uma doença erradicada no Brasil, visto que não haviam sido registrados casos do vírus por mais de um ano (BBC Brasil). A última morte registrada havia sido em 2013, e tratava-se de uma criança de sete meses de idade, HIV positiva e portadora de sífilis (Estadão). Infelizmente, ao invés de mantermos nossas crianças seguras, estamos agora caminhando no sentido contrário. Surtos de Sarampo vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos (BBC Brasil). Recentemente uma epidemia foi reportada na Venezuela (news24), cuja situação é agravada pela séria crise político-econômica. Isso não seria um problema para o Brasil, se a nossa população estivesse vacinada. Como a cobertura está baixa, estamos agora tendo uma epidemia em território nacional: mais de 995 casos confirmados (BBC Brasil, Washington Post). Pelo menos uma morte já foi confirmada em Manaus, onde o prefeito declarou situação de emergência (Estadão); 271 casos confirmados e mais de 1800 suspeitos. O estado do Amazonas registra 444 casos, enquanto o estado de Roraima registra 272 casos e quatro mortes (G1). Os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rondônia e Rio Grande do Sul também constataram casos.

O Sarampo é extremamente infeccioso, por isso se espalha mais rápido e é um dos primeiros vírus a sair do controle. No entanto, conforme alerta a Unicef (O Globo), a baixa cobertura vacinal no Brasil poderá também permitir a ocorrência de outras epidemias, incluindo rubéola, difteria, coqueluche, hepatite A e até poliomielite (BBC Brasil, O Globo).

 

polio1

Imagem publicada pelo site “Tudo do Mundo” (História da Pólio).

 

Conforme dados da OMS, em 1988 a cada 15 minutos 10 crianças no mundo se tornavam paralíticas por conta do vírus da poliomielite (G1). Nas duas décadas anteriores, 27 mil crianças brasileiras sofreram com a paralisia infantil (UOL). Graças ao desenvolvimento da vacina e um programa mundial de erradicação da poliomielite, apenas 12 casos foram registrados em todo o planeta em 2017 (G1). O Brasil registrou os últimos casos no começo da década de 90, recebendo certificado de zona livre da doença em 1994. Infelizmente, foi registrada a circulação do vírus em 23 países nos últimos três anos, incluindo casos na Venezuela (BBC Brasil). Segundo o Datasus, as vacinas contra poliomielite não alcançam a meta de vacinação no Brasil desde 2011. A menor taxa de vacinação ocorreu em 2016, quando apenas 43,1% dos municípios Brasileiros atingiram a meta (BBC Brasil).

Mas porque nós estamos deixando isso acontecer? Se existem vacinas e se elas são oferecidas gratuitamente pelo SUS, porque a cobertura da vacinação está caindo? O impacto negativo de movimentos anti-vacinas é evidente, conforme discutido em textos anteriores (Museu do Amanhã, SBlogI). A falsa associação entre vacinas e autismo mobilizou (e ainda mobiliza) pessoas contra as vacinas, e eventualmente outros estudos falhos ou fraudulentos ajudam a reviver as teorias conspiratórias (Forbes). Mas o movimento anti-vacinas não explica completamente as baixas taxas de vacinação (The Conversation), as quais são também impactadas pela deficiência do sistema educacional, desigualdades sociais, problemas no sistema de saúde, etc. De certo modo, o movimento anti-vacinas é só mais uma manifestação de um problema mais profundo. Nosso descaso com as vacinas parece refletir a nossa dificuldade de dar importância para ameaças que não vivenciamos diariamente. Conforme ilustrado na figura abaixo, com o passar do tempo nos esquecemos dos riscos da doença e começamos a nos questionar sobre os riscos do tratamento, chegando ao cúmulo de abrir mão das vacinas em prol de pseudociência e soluções mágicas.

 

ganetica1

Figura publicada no Facebook pela página “Genética para Todos” (goo.gl/Wkum8Q).

 

Em conjunto com os antibióticos, as vacinas representam uma das maiores conquistas da medicina moderna. Mas as diferenças no uso destes tratamentos talvez ajudem a esclarecer nosso problema com as vacinas. Antibióticos são usados para combater infecções bacterianas. São normalmente administrados após a instauração do quadro infeccioso, ou de maneira profilática durante um procedimento que é propício à infecções. Ou seja, o paciente sente o corte da operação ou a febre decorrente da infecção, e ao se recuperar sabe que o antibiótico teve o efeito esperado. Independentemente da recuperação ter sido perfeita, o antibiótico não previne uma infecção futura. Então rotineiramente temos novas infecções e convivemos com pessoas infectadas, podendo novamente recorrer ao uso de antibióticos; pelo menos por enquanto (SBlogI). As vacinas, por outro lado, são administradas em indivíduos saudáveis, a maioria delas nos primeiros anos de vida. E se a cobertura populacional desejada é alcançada, a doença “desaparece”. Embora o impacto da introdução das vacinas seja óbvio do ponto de vista epidemiológico (veja infográfico interativo na Science News), ele é bastante subjetivo para o indivíduo. Embora ainda tenhamos alguns poucos brasileiros vivos que foram vítimas da paralisia infantil (O Globo, UOL), esta não é a principal preocupação na cabeça dos pais de hoje. Ironicamente, o sucesso da vacina da pólio foi tão grande que a “geração” que se beneficiou desta vacina “esqueceu” da gravidade da doença, se sentindo tão protegida a ponto de contribuir para o retorno desta doença por pura negligência. Não era comum os pais evitarem ou atrasarem a vacina da pólio quando a paralisia infantil ainda era tão “real” quanto é agora a microcefalia induzida pelo Zika.

De fato, estas “doenças do passado” também não são (ou eram) a principal preocupação na cabeça dos médicos. Antes do retorno do Sarampo, um médico ao tratar um paciente com determinados sintomas pensaria diretamente em doenças atuais como Dengue, Chikungunha e Zika (O Globo). Este aumento no número de virus suspeitos dificulta o diagnóstico e aumenta os riscos para o paciente. Infelizmente já é tarde demais para algumas crianças, pelo menos no que se refere ao Sarampo. Pode ser que este choque de realidade ajude a romper o transe da falsa segurança e nos ajude a superar outros problemas institucionais, sociais e econômicos que contribuem para as baixas taxas de vacinação. Só assim poderemos impedir o retorno da poliomielite e de outras perigosas doenças do passado.