O papel da Co-estimulação na ativação B dependente T

Por: Ana Salina e Isabel Guerra (doutorandas IBA/FMRP-USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

A produção de anticorpos dependente de célula T é uma das respostas importante da imunidade adaptativa contra patógenos (1). Uma das etapas para o desenvolvimento dessa resposta é a interação entre células dendríticas (DCs) e linfócitos T foliculares (Thf), e Thf com linfócitos B (1, 2). Também é sabido que o reconhecimento de linfócitos T é dependente tanto da presença do peptídeo ligado à fenda da molécula de MHC presente na APC (3-6), quanto da presença das moléculas CD80/CD86 (B7.1/B7.2) que se ligam a CD28 e da interação entre CD154 e seu ligante CD40 (7, 8). No entanto, os dados demonstrados no artigo de Watanabe et al. (2017), através da utilização de ferramentas como camundongos knockout condicionais ou quimeras, os quais deletaram especificamente a expressão dessas moléculas nas células dendríticas e células B, indicam que não há de fato a necessidade de expressão de B7 e CD40 em uma mesma célula para que haja uma resposta de um centro germinativo (CG) eficiente. Os resultados demonstram que existem diferentes requerimentos de expressão de molécula co-estimuladora para os diferentes subtipos celulares. Dessa forma, a ativação inicial de células T CD4+ é dependente da interação com DCs que necessitam expressar B7, enquanto CD40 não apresenta um papel essencial. A geração subsequente de Thf e a função dessas na proliferação e diferenciação de células B do CG, além da troca de classe e maturação de afinidade, são dependentes da expressão de CD40 e não de B7 nas células B.Esses dados têm implicações para futuros tratamentos que modulam a imunidade humoral nos diferentes estágios da resposta CG. Por exemplo, a interferência da co-estimulação de B7-CD28 pode ser efetiva no controle da expansão clonal de células T CD4 antígeno-específicas e consequentes respostas do CG. A interferência deve ser realizada nos estágios iniciais da resposta na interação de T-DC, porém, esse bloqueio seria menos eficiente nos estágios finais da resposta do GC, uma vez que é um estágio mediado pela interação T-B.

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Figura 1: Modelo esquemático da co-estimulação das moléculas B7 e CD40 em células B e dendríticas para a resposta do centro germinativo. Adaptado de Watanabe et al., 2017

Referências Bibliográficas:

  1. Victora, G.D., and M.C. Nussenzweig. 2012. Germinal centers. Rev.Immunol. 30:429–457. http://dx.doi.org/10.1146/annurev-immunol-020711-075032
  2. Vinuesa, C.G., M.A. Linterman, D. Yu, and I.C. MacLennan. 2016. Follicular helper T cells. Rev. Immunol. 34:335–368. http://dx.doi.org/10 .1146/annurev-immunol-041015-055605
  3. Singer, A., and R.J. Hodes. 1983. Mechanisms of T cell-B cell interaction. Rev. Immunol. 1:211–241. http://dx.doi.org/10.1146/annurev.iy .01.040183.001235
  4. Cosgrove, D., D. Gray, A. Dierich, J. Kaufman, M. Lemeur, C. Benoist, and D. Mathis. 1991. Mice lacking MHC class II molecules. 66:1051– 1066. http://dx.doi.org/10.1016/0092-8674(91)90448-8
  5. Grusby, M.J., R.S. Johnson, V.E. Papaioannou, and L.H. Glimcher. 1991.
  6. Depletion of CD4+ T cells in major histocompatibility complex class II-defcient mice. 253:1417–1420. http://dx.doi.org/10.1126 science.1910207
  7. Deenick, E.K., A. Chan, C.S. Ma, D. Gatto, P.L. Schwartzberg, R. Brink, and S.G. Tangye. 2010. Follicular helper T cell differentiation requires continuous antigen presentation that is independent of unique B cell signaling. 33:241–253. http://dx.doi.org/10.1016/j.immuni.2010.07.015
  8. Armitage, R.J., W.C. Fanslow, L. Strockbine, T.A. Sato, K.N. Clifford, B.M. Macduff, D.M. Anderson, S.D. Gimpel, T. Davis-Smith, C.R. Maliszewski, et al. 1992. Molecular and biological characterization of a murine ligand for CD40. 357:80–82. http://dx.doi.org/10.1038/357080a0
  9. Kawabe, T., T. Naka, K. Yoshida, T. Tanaka, H. Fujiwara, S. Suematsu, N. Yoshida, T. Kishimoto, and H. Kikutani. 1994. The immune responses in CD40-defcient mice: impaired immunoglobulin class switching and germinal center formation. 1:167–178. http://dx.doi.org/10 .1016/1074-7613(94)90095-7
  10. Masashi Watanabe, Chiharu Fujihara, Andrea J. Radtke, Y. Jeffrey Chiang, Sumeena Bhatia, Ronald N. Germain, Richard J. Hodes. 2017. Co-stimulatory function in primary germinal center responses: CD40 and B7 are required on distinct antigen-presenting cells. J Exp Med. 4;214(9):2795-2810. doi: 10.1084/jem.20161955. Epub 2017 Aug 2.

Nova hipótese sobre a neuropatia induzida pelo Mycobacterium leprae: papel dos macrófagos

Por: Mouzarllem B Reis e Robson K Loterio, doutorandos IBA FMRP-USP.

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

 

Hanseníase, ou lepra, como foi conhecida por milênios, é causada pelo Mycobacterium leprae e afeta a pele, olhos e as mucosas das vias aéreas superiores levando, principalmente, a danos nos nervos periféricos. Apesar de ser uma doença histórica, pouco ainda se sabe cientificamente dos mecanismos que levam as neuropatologias. Isso se deve não apenas as características intrínsecas da bactéria (intracelular obrigatória com longos períodos para replicação, genoma reduzido e a necessidade de cultivo em in vivo), mas também a ausência de modelos animais práticos que mimetizem a doença em humanos. Em geral, camundongos atímicos são utilizados para o cultivo dessas bactérias e o tatu de nove bandas é o único modelo atual onde ocorre dano neuropático similar ao que ocorre em humanos. Em tatus, foi possível avançar com as pesquisas sobre a hanseníase, porém faltam ferramentas genéticas para trabalhar com esses animais.

Grupos de pesquisa em micobactérias estão utilizando o zebrafish como o modelo animal para estudar as doenças causadas por esse grupo de microrganismos. As vantagens de se usar zebrafish são que esse modelo possui inúmeras ferramentas genéticas disponíveis. Os adultos e as larvas, ao serem infectados por M. marinum (causador de tuberculose em peixes), M. leprae e M. tuberculosis apresentam formação de granulomas, assim como em humanos. Além disso, é possível visualizar in vivo o deenvolvimento da infecção, pois as larvas são transparentes. As larvas não apresentam sistema imune adaptativo, sendo o sistema imune inato o responsável pelas respostas imunes.

Madigan e colaboradores [1], utilizando esse modelo de infecção por M. leprae em zebrafish, investigaram a viabilidade desse modelo para desenvolvimento de lesão neuropática induzida na hanseníase, além da participação dos macrófagos. Inicialmente, a caracterização do modelo, incoculando a bactéria na veia caudal ou no hindbrain da larva, demonstrou que apenas macrófagos são recrutados, e que o reconhecimento da bactéria ocorre independente de toll-like receptors. A ablação de macrófagos na larva impede a disseminação da bactéria para regiões distantes. Além disso, a bactéria tem capacidade de disseminar para o espaço extravascular, e este mecanismo também é dependente dos macrófagos.

Os autores, então, investigaram a possibilidade do M. leprae induzir lesão aos nervos periféricos. E de fato, a inoculação da bactéria induz o surgimento de protusões na estrutura do nervo logo no segundo dia após inoculação, independente do volume bacteriano inoculado. Ao investigar quais mecanismos bacterianos estariam induzindo o surgimento das protrusões, foi demonstrado que este processo é dependente do Glicolipídeo Fenólico – 1 (do inglês, PGL-1), presente exclusivamente na estrutura de parede celular do M. leprae e que é implicado na literatura como indutor de muitos dos mecanismos de patogenia da bactéria. O PGL-1 tem a capacidade de estimular a desmielinização dos axônios, sem causar destruição dos mesmos.

Na literatura, já eram conhecidos mecanismos de indução de lesões em nervos promovidos pelos macrófagos em várias doenças neuropáticas, como síndrome de Guillain—Barré e esclerose múltipla. De fato, na hanseníase, este processo é dependente de macrófagos. Estas células se relacionaram, no modelo de zebrafish, com maior número de protrusões na estrutuda do nervo, e a depleção destes é capaz de reverter a lesão neuropática. Uma vez que, em biopsias de pele humana de pacientes com hanseníase, foram encontradas evidências da participação do óxido nítrico (NO) na indução de lesão, os autores então investigaram esta via. A produção de NO colocaliza-se com a infecção do macrófago pela bactéria e com o surgimento de protrusões nos nervos. A produção de NO é dependente da presença do PGL-1 da bactéria, que induz o macrófago a liberar óxico nítrico, causando destruição e alteração morfológica das mitocôndrias presentes nos axônios (Figura 1). Ao inibir o NO, utilizando estratégias farmacológicas, as protrusões são revertidas, assim como a lesão mitocôndrial.

Este elegante trabalho abre novos precedentes sobre o estudo de neuropatia induzido pelo M leprae, uma vez que o estudo é dificultado pela falta de modelos animais, e, em humanos, a neuropatia se desenvolve de forma tardia. O trabalho demonstra que macrófagos são responsáveis pela indução do dano em nervos periféricos já na fase aguda da doença, indo a contramão com trabalhos consolidados na literatura que demonstram que o dano neural se inicia com ação diretamente da bactéria ao interagir com as células de Schwann[2].

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Figura 1: O mecanismo de lesão em nervos periféricos no modelo de zebrafish propõe que macrófagos infectados com M. leprae produzam de óxido nítrico, e que o óxido nítrico proveniente dos macrófagos induzem lesões às mitocôndrias, assim como o surgimento de protrusões na mielina desses axônios (Madigan et al., 2017)

Referências Bibliográficas:

1] Madigan CA et al. A macrophage response to Mycobacterium leprae Phenoolic Glycolipid initiates nerve damage in Leprosy. Cell 170, 973-985, 2017.

[2] Rambukkana A et al. Contact-dependent demyelination by Mycobacterium leprae in the absence of immune cells. Science 296, 927, 2002.

FIRST BREATH: AN UNDERESTIMATED EVENT

Por: Bruno Marcel Silva de Melo e David-F Colón M (Doutorandos IBA –FMRP/USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

 

Os pulmões são uma grande interface entre o corpo e o ambiente e sua integridade, assim como da barreira alvéolo-capilar, é essencial para garantir níveis adequados de oxigênio, mecanismos de manutenção, renovação e proteção. Mais de 10,000 litros de ar passam por dia pelos pulmões e, com isto, numerosos vírus, bactérias e poluentes precisam ser prevenidos de entrar no corpo. Neste sentido, o microambiente pulmonar possui mecanismos imuno-moleculares especializados tais como: as Células Alveolares Epiteliais do tipo II (AEC2, alveolar epithelial type II), células linfoides inatas do tipo 2 (ILC2), macrófagos do perfil alternativo (M2) assim como a alarmina IL-33, os quais em suma permitem a regulação dos mecanismos de defensa do hospedeiro e o estabelecimento da homeostasia tissular [1-4]. No entanto, como o desenvolvimento desta homeostase imune nos pulmões surge após o nascimento, tem sido pouco estudado. Ainda, após o nascimento, com a primeira respiração, os pulmões rapidamente são expostos ao ambiente externo e, portanto, mecanismos reguladores são necessários para evitar as reações inflamatórias contínuas ao estimulo ambiental. Contudo o efeito desta primeira respiração no microambiente pulmonar e suas consequências tem sido pouco explorada. Foi neste contexto que o grupo liderado por Sylvia Knapp, do Centro de pesquisa em medicina molecular da Academia de Ciências da Áustria, mostrou que a primeira respiração em recém-nascidos inicia sinais essenciais que modelam o milieu dos pulmões [5]. Especificamente, os autores demonstraram que a pressão mecânica exercida pelo ar durante as primeiras respirações em camundongos induz a liberação da alarmina IL-33 por células epiteliais do pulmão. Uma vez secretada, a IL-33 se liga nos receptores ST2, expressos em grande quantidade nas células ILC-2. Essa interação permite a manutenção do número dessas células, além da ativação das mesmas no pulmão. Uma vez ativadas, as células ILC-2 produzem IL-13 que polarizam os macrófagos alveolares residentes já diferenciados para um perfil M2. Essa polarização acontece, de maneira fisiológica, logo após os primeiros dias de nascimento e se sustenta até a vida adulta dos camundongos. O grande problema é que esse ambiente pulmonar com mais macrófagos de um perfil alternativo (M2) deixam os camundongos mais suscetíveis à infecções futuras por bactérias como o S. pneumoniae, que causam pneumonia.

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Fig. 1. Esquema mostra a ativação do eixo AEC2/IL-33/ILC2/IL-13/Macrofagos M2 após a primeira respiração, favorecendo a infeção bacteriana (Saluzzo et al., 2017).

 

Referência Bibliográfica

  1. Hussell, T. and T.J. Bell, Alveolar macrophages: plasticity in a tissue-specific context. Nat Rev Immunol, 2014. 14(2): p. 81-93.
  2. Monticelli, L.A., et al., Innate lymphoid cells promote lung-tissue homeostasis after infection with influenza virus. Nat Immunol, 2011. 12(11): p. 1045-54.
  3. Molofsky, A.B., A.K. Savage, and R.M. Locksley, Interleukin-33 in Tissue Homeostasis, Injury, and Inflammation. Immunity, 2015. 42(6): p. 1005-19.
  4. Whitsett, J.A. and T. Alenghat, Respiratory epithelial cells orchestrate pulmonary innate immunity. Nat Immunol, 2015. 16(1): p. 27-35.
  5. Saluzzo, S., et al., First-Breath-Induced Type 2 Pathways Shape the Lung Immune Environment. Cell Rep, 2017. 18(8): p. 1893-1905.

Zika vírus tira vantagem da autofagia para atravessar a placenta humana

Por: Bruna Bertol e Sandra Palma (Doutorandas IBA – FMRP/USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

A placenta humana funciona como uma barreira de proteção ao feto contra agentes patogênicos e tóxicos. No entanto, quando uma mulher grávida é infectada por Zika vírus, o mesmo consegue atravessar a barreira placentária e causar lesão ao feto, levando a problemas neuronais, microcefalia e algumas vezes até morte do feto.

No entanto, têm-se demonstrado que a placenta usa estratégias físicas e imunológicas para proteger ao feto e, um desses mecanismos de defesa é a autofagia. Autofagia é um processo de degradação e reciclagem de componentes do citosol, organelas envelhecidas, patógenos intracelulares e resíduos tóxicos promovendo a manutenção da homeostase celular. Embora esse mecanismo de autofagia seja capaz de inibir a replicação de alguns vírus e patógenos intracelulares, alguns vírus, como o da dengue, por exemplo, usa autofagia para a sua própria sobrevivência. Neste contexto, pesquisas anteriores já mostraram o papel de autofagia em favorecer a replicação do Zika na pele e células neuronais humanas, mas ainda não havia trabalhos mostrando a sua função durante a transmissão do Zika materno-fetal. Assim, o estudo de Cao e colaboradores publicado na Journal of Experimental Medicine em 2017 teve por objetivo investigar o papel da autofagia no estabelecimento da infecção pelo Zika vírus em trofoblastos (humanos e murinos) e o seu impacto na transmissão materno-fetal.

Inicialmente o estudo demonstra que o vírus tem a capacidade de induzir atividade autofágica em trofoblastos humanos e que a supressão de tal atividade por meio do tratamento das células com inibidores de autofagia foi capaz de reduzir a replicação viral. Houve também a indução de autofagia placentária pelo Zika em camundongos fêmeas grávidas que foram inoculadas com o vírus por via subcutânea. A manipulação da atividade autofágica nesses animais também foi realizada, por meio do estudo em fêmeas com deficiência do gene atg16l1, cujo produto participa no processo de maturação dos autofagossomos (fusão dos autofagossomos com lisossomos). Estas fêmeas grávidas infectadas com Zika apresentaram redução significativa da carga viral placentária e lesão na placenta, em comparação às fêmeas normais infectadas. Além disso, foi observado menor carga viral na cabeça dos fetos e redução da restrição do crescimento fetal induzida pelo vírus. Entretanto, a deficiência de atg16l1 não influenciou o desenvolvimento da infecção pelo Zika nas próprias fêmeas, indicando que a autofagia tem um papel importante na patogênese placentária e fetal do Zika vírus. Em outras palavras, a autofagia, que teoricamente deveria proteger a placenta e o feto contra patógenos, no contexto de Zika favorece a infecção. Sabendo do impacto benéfico que a deficiência genética da autofagia promoveu nas fêmeas grávidas infectadas com Zika (redução da replicação viral e lesões placentáriss/fetais), os autores questionaram se a inibição farmacológica da autofagia também não promoveria os mesmos resultados benéficos. Assim, fêmeas grávidas normais infectadas foram tratadas com uma droga inibidora de atividade autofágica – Hidroxicloroquina – liberada e aprovada pela Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de mulheres grávidas que sofrem de malária. O tratamento das fêmeas com a droga promoveu diminuição significativa da carga viral e danos na placenta e nos fetos (Figura 1), sem afetar o estabelecimento da infecção das próprias fêmeas, conforme foi observado com a deficiência de atg16l1 (deficiência genética de autofagia).

Mediante tais resultados, o presente estudo é o primeiro a demonstrar um mecanismo placentário que governa a suscetibilidade à transmissão materno-fetal do Zika vírus. Além disso, o trabalho propõe uma possível opção terapêutica para mulheres grávidas infectadas com o vírus, a partir do tratamento com hidroxicloroquina, que inibe atividade autofágica. Esse resultado é particularmente importante quando se leva em consideração que tal droga é liberada para o tratamento de gestantes. No entanto, apesar dos dados promissores, mais estudos serão necessários futuramente para garantir a eficácia e segurança da droga no tratamento contra o Zika em seres humanos, particularmente no contexto de gestação.

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Figura 1. O tratamento com hidroxicloroquina (HCQ) de fêmeas grávidas infectadas com Zika vírus reduz a transmissão materno-fetal do vírus. (A) Esquema de tratamento de fêmeas grávidas com HCQ. (B) Marcação para p62, indicativo de redução da atividade autofágica, na placenta murina.(C) RNA ZIKV de placenta infectada tratada ou não com HCQ. Carga viral de ZIKV no soro (D) e baço (E) de fêmeas prenhas infectadas tratadas ou não com HCQ. (F) Marcação de ZIKV na decídua materna de animais tratados ou não com HCQ. (G) Por análises histopatológicas (H&E) observa-se numerosos trofoblastos placentários de fêmeas não tratadas infectados com Zika (a esquerda) e poucos trofoblastos placentários infectados de fêmeas submetidas ao tratamento com HCQ.

 

Referências bibliográficas

Cao et al. 2017. Inhibition of autophagy limits vertical transmission of Zika virus in pregnant mice. J Exp Med. 214 (8): 1-11

Aagaard et al. 2017. Primary human placental trophoblasts are permissive for Zika virus (ZIKV) replication. Sci Rep 7:41389.

Mateo et al. 2013. Inhibition of cellular autopaghy deranges dengue virion maturation. J Virol 87:1312-1321

 

 

 

 

Enchained growth: estratégia de crescimento bacteriano induzida por vacina contra Salmonella enterica serovar Typhimurium

Por: Paulin Sonon e Mariana Soares Pena Ribeiro (doutorandos IBA-FMRP-USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Salmonellae são bactérias gram-negativas, móveis e que causam doenças entéricas em uma gama ampla de animais. A espécie Salmonella enterica inclui as cepas de Salmonella tifoidal e não tifóidal (NTS). A cepa tifoidal (Salmonella enterica serovars Typhi e Paratyphi) é restrita para seres humanos e causa a febre tifóide, caracterizada por febre, dor abdominal e vômito. As cepas NTS (S. enterica serovar Enteritidis e S. enterica serovar Typhimurium), são bacterias patogênicas que podem infectar diversos hospedeiros (1). Salmonelas são geralmente adquiridas por ingestão oral de alimentos ou água contaminados e sobrevivem à acidez gástrica para ter acesso ao epitélio intestinal. As cepas de NTS provocam alterações inflamatórias no epitélio intestinal, incluindo a infiltração de neutrófilos e fluidos no lúmen intestinal, resultando em diarréia inflamatória (2). Um dos primeiros testes de detecção de Salmonella foi desenhado por Widal, que observou a aglutinação de soros de pacientes em presença da bactéria (3). Posteriormente, o teste foi refinado para detectar anticorpos contra o antígeno O de lipopolisacarídeo (LPS) e antígeno H de flagelina de Salmonela. Estudos demonstraram, no entanto, que o teste é mais indicativo da infecção aguda e não é espécifico para detectar os portadores assintomáticos (3). Essa limitação é atribuida a uma carga bacteriana baixa e insuficiente para ser detectada no diagnóstico. O perigo é que esses portadores assintomáticos são reservatórios de transmissão da doença. Por exemplo, foi demonstrado que os camundongos e seres humanos assintomáticos podem eliminar bactéria pelas fezes durante 125 dias (4) e 40 anos (5) respectivamente. Portanto, é necessário uma vacina eficiente capaz de desarmar e eliminar do intestino a S. enterica serovar Typhimurium independente da carag bacteriana.

A vacina oral (PA-S.Tm) é a cepa SL1344 de S. Typhimurium inativada com ácido paracético (PA) (6). A salmonella tratada com PA aumenta a avidez de IgA intestinal. Para avaliar a eficiência dessa vacina, Moor K e colaboradores vacinaram os camundongos com PA-S.Tm e depois infectaram com uma carga intermediária (105; conhecida insuficiente para que ocorra aglutinação) de cepa selvagem de S. Typhimurium.Foi observado que a vacina, apesar de não causar a inflamação intestinal, impede a migração das bactérias para o linfonodo mesentérico (mLd), impede a multiplicação bacteriana no ceco e além disso gerou imunoglobulina A (IgA) específica para S. Typhimurium. Foi demonstrado também que a vacina é capaz de induzir a formação dos “clumps” via aglutinação. Por outros experimentos, foi observado que a proteção induzida pela vacina é independente dos antígenos (O do LPS ou H da flagelina de S. Typhimurium), da densidade bacteriana e que a mesma foi capaz de reconhecer S. Typhimurium inteira, além de ser eficaz contra outras bactérias gram-negativas (Escherichia coli). Visto que a quantificação de bactérias num determinado tecido não apresentou diferença entre a bactéria que migrou e as que estão multiplicando, os autores utilizaram um modelo matemático para distinguí-las (7). Camundongos vacinados apresentaram uma taxa baixa de migração bacteriana para o linfonodo mesentérico (LNm) mas alta taxa de replicação no LNm, mesmo comparado com os controles. Para verificar esse aumento de bactérias, apesar da baixa densidade de S. Typhimurium presentes nesse órgão, Moor K e colaboradores pensaram no “enchaining growing” (8). “Enchaining growing” , diferente de divisão planktonica (divisão binária), é um processo durante o qual as bactérias realizam a ligação cruzada com a IgA e agrupam-se formando “clumps”. Por sua vez, a IgA agrupa (algema) as células filhas todas vezes que elas se formam impedindo-as de se replicar. Nesse processo, apenas as células mães conseguem se dividir. A partir daí, comprovaram pelos vários experimentos que é essa, a estratégia usada pela vacina para desarmar e eliminar as bactérias do intestino do camundongo. Além disso, mostraram que a proteção concedida pela vacina é ainda potencializada em presença de microbiota, quando comparada aos controles tratados com estreptomicina ou ampicilina. Assim, a vacina de alta avidez de IgA (PA-S.Tm) induz: (i) a multiplicação bacteriana via “enchained growth” independente da densidade dos patógenos, (ii) a formação de “clumps”, (iii) a redução do quadro inflamatório e a eliminação de forma total das bactérias do intestino. Com isso, a vacina oral que aumenta a avidez de IgA pode ser um caminho para o tratamento dos casos de resistência antimicrobiana.

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Referências:

  • Doris L. LaRock1, Anu Chaudhary1 and Samuel I. Miller. Salmonellae interactions with host processes. Nature Reviews Microbiology 13, 191–205 (2015)
  • Harris, J. C., Dupont, H. L. & Hornick, R. B. Fecal leukocytes in diarrheal illness. Intern. Med. 76, 697–703 (1972).
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  • Lawley, T.D. et al. (2007) Host Transmission of Salmonella enterica Serovar Typhimurium is controlled by virulence factors and indigenous intestinal microbiota. Infect. Immun. 76, 403–416
  • Merselis, J.G. et al. (1964) Quantitative bacteriology of the typhoid carrier state. J. Trop. Med. Hyg. 13, 425–429
  • Moor, K. et al. Peracetic acid treatment generates potent inactivated oral vaccines from a broad range of culturable bacterial species. Front. Immunol. 7, 34 (2016).
  • Kaiser, P., Slack, E., Grant, A. J., Hardt, W. D. & Regoes, R. R. Lymph node colonization dynamics after oral Salmonella typhimurium infection in mice. PLoS Pathog. 9, e1003532 (2013).
  • (Moor K et al., 2017) Nature 544, 498–502 (27 April 2017) doi:10.1038/nature22058

 

Papel da Microbiota na Resistência a Quimioterapicos em Cancêr Colorretal

Por: Cesar Speck e Robson K. Loterio, doutorandos IBA/FMRP-USP

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Estimativas indicam que cerca de 10% da população mundial possui câncer colorretal, sendo que este é o quarto câncer com a maior mortalidade no mundo. Sua ocorrência é ao longo de todo o intestino grosso e suas causas são desde fatores genéticos quanto maus hábitos alimentares, sedentarismo e uso demasiado de álcool. O tratamento mais eficaz é a retirada física do tumor juntamente com tratamento químico pós cirurgia. As duas drogas mais utilizadas para o tratamento do câncer colorretal são o fluorouracil (5-FU) e a oxaliplatina, que levam à citotoxicidade e a inibição do crescimento tumoral, respectivamente. Porém, inúmeros são os casos em que os pacientes apresentam quadros avançados desse câncer e por isso, o risco de recorrência após a remoção do tumor chega a aproximadamente 30%. Além disso, alguns dos pacientes com recorrência deixam de responder às drogas utilizadas nas quimioterapias. Sabendo que a regulação gênica e o ambiente podem favorecer o desenvolvimento do fenótipo de resistência à quimioterapia em cânceres, o foco desse estudo foi avaliar a possível influência da microbiota no desenvolvimento da resistência aos quimioterápicos em pacientes com câncer colorretal recorrente.

Trabalhos posteriores demonstraram que a bactéria Fusobacterium nucleatum era a mais abundante no microambiente tumoral, porém não está claro qual seu papel no desenvolvimento deste tipo de câncer. Yu e colaboradores (2017) analisaram a microbiota de amostras de biopsias de pacientes com câncer colorretal que não conseguiam responder à quimioterapia em comparação aos pacientes que respondiam. Foi encontrado que a bactéria F. nucleatum estava principalmente enriquecida em pacientes resistentes e que este fenômeno foi associado com o pior prognóstico da doença, indicando que existia uma forte relação entre a bactéria e a resistência ao tratamento do câncer.

Contudo, não se sabia o papel da F. nucleatum sobre tal fenômeno. Para provar a hipótese de que F. nucleatum influencia diretamente na quimioterapia, foi realizado uma co-cultura de células tumorais de linhagem com F. nucleatum e por RNA-seq determinaram que a via da autofagia foi diferencialmente expressa quando a bactéria estava presente, indicando que F. nucleatum regula a autofagia em células tumorais. Ao analisar a expressão de proteínas associadas a via de autofagia, foi encontrado que F. nucleatum induz uma maior expressão de ULK1 e ATG7, duas proteínas essenciais na formação de autofagossomas e que esse aumento correlacionava com uma menor indução de apoptose por parte dos medicamentos Oxaliplatina e 5-FU. Entretanto, os autores encontraram que o aumento das proteínas da autofagia em células tumorais na presença de F. nucleatum não ocorria de maneira direta, sugerindo que havia mecanismo anterior favorecendo tal fenômeno. Nesse sentido, levantou-se a hipótese de que F. nucleatum poderia inibir a expressão de microRNAs, e estes teriam a função de regular a expressão de ULK1 e ATG7. Essa hipótese foi comprovada a partir de uma análise detalhada dos microRNAs diferencialmente expressos na presença de F. nucleatum, sendo estes específicos para ULK1 (miRNA-18ª) e ATG7 (miRNA-4802) respectivamente. Deste modo, F. nucleatum induz a formação de autofagossomas através da inibição destes microRNAs favorecendo, assim, que as células tumorais não entrem em apoptose. Foi visto ainda que F. nucleatum induz essa inibição através da via de TLR4-Myd88.

A importância deste trabalho está no fato de que existe uma relação direta entre a microbiota e os processos biológicos que favorecem que células tumorais sejam resistentes aos diferentes medicamentos. Tratamentos direcionados deverão ser desenvolvidos para o combate definitivo desse câncer. Além disso, há a possibilidade da microbiota ter influência sobre outros tipos de cânceres e estudos mais detalhados sobre essa possibilidade precisam ser considerados.

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Referência Bibliográfica

Yu et al. (2017). Fusobacterium nucleatum promotes chemoresistance to colorectal cancer by modulating autophagy. Cell 170, 548–563.

Obesity is the new cancer

Por: Mouzarllem B. dos Reis e David-F Colón (Doutorandos IBA –FMRP/USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

A relação do sistema imunológico com o surgimento de tumores e os eventos de metástase já são conhecidos na ciência há muito tempo. De fato, o “pai da patologia” Rudolf Virchow já havia demonstrado em suas observações médicas em 1850 que “um tecido que tem infiltrado de células imunes reflete o lugar onde as lesões de câncer aparecerão”. A relação do sistema imune na prevenção do tumor é clássica, porém, novas descobertas nas últimas décadas tem revelado um papel de vilão da imunidade na iniciação do processo metastático.

A obesidade também já é bastante conhecida da imunologia: deixa o individo em um estado inflamatório sistêmico permanente. O indivíduo obeso sofre diversas complicações imunológicas como gota, artrite, não-responsividade à vacinação, inflamação de vasos, dentre inumeras outras imunopatologias. Ou seja, se a inflamação pode contribuir para a promoção metástatica e o indivíduo obeso é naturalmente inflamado, certamente existe uma associação entre o evento de metástase relacionado à obesidade, principalmente à câncer de mama. Esta associação vem sendo alvo de estudos, os quais afirmam que “a obesidade rivaliza com o cigarro como fator de desenvolvimento do câncer”. A contribuição da inflamação crônica na metástase apresenta alguns mecanismos já elucidados. Os neutrófilos em particular, parecem exercer papel essencial na formação de um nicho metastático. Locais de estabelicmento de tumores em sítios distantes geralmente estão associados à neutrofilia. Se os neutrófilos são depletados, há a diminuição de eventos metastáticos (1).

Foi neste contexto que o grupo liderado por Johanna Joyce, da Universidade de Rockefeller, levantou o questionamento se a inflamação associada à obesidade promove a progressão metastática, e quais os mediadores inflamátorios e células envolvidos neste evento (2). Assim, de forma ao estudar o efeito da obesidade na inflamação pulmonar, foram usados camundongos submetidos ao modelo de obesidade induzida pela dieta (10% kcal ou 60% kcal/15 semanas, DIO model). Utilizando esse modelo, os autores demostraram o aumento de células CD11b+Gr1+Ly6Ghi (neutrófilos) no pulmão de animais obesos, assim como em animais submetidos ao modelo genético de obesidade (animais B6.Cg-Lepob Ob/ob), sugerindo que o celular é independente do conteúdo da dieta dada ao animais. Ainda, a redução do peso dos animais foi associada com a redução da neutrofilia pulmonar. De maneira interessante, os autores demostraram que o recrutamento das CD11b+Gr1+Ly6Ghi no pulmão foi associado com o incremento na expressão marcadores moleculares relacionados a mobilização (Cxcr4, Cxcr2), ativação (Alox5, Nlrp3) e perfil pro-metastático (S100a9/8) dos neutrófilos isolados do pulmão de animais obesos. Ainda, animais obesos apresentaram maior progressão tumoral (tumor primário) assim como o aumento significativo da metástase pulmonar, associada com a neutrofilia sistêmica. A depleção de neutrófilos propiciou redução da metástase pulmonar, sugerindo que a neutrofilia associada à obesidade promove a metástase pulmonar.

Os autores também avaliaram os fatores envolvidos na neutrofilia pulmonar e sistêmica no contexto da obesidade. Assim, foi demostrado aumento na expressão do GM-CSF (Csf2) no pulmão e em células CD11b+Gr1+ e CD11b+Ly6Chi isoladas do pulmão de animais obesos. A neutralização do GM-CSF preveniu a metástase pulmonar, indicando que o GM-CSF é crítico para a manutenção da neutrofilia e na progressão metastática no contexto da obesidade. Com o intuito de identificar o papel da obesidade na liberação de GM-CSF, os autores identificaram aumento na  expressão da IL-5 (II5) na gordura visceral e subcutânea de animais obesos. Além do mais, células IL5rα+ (Neutrófilos, Monócitos e Eosinófilos) isoladas do pulmão de animais obesos apresentaram aumento na expressão do receptor do GM-CSF (Csf2ra) e da IL5 (IL5ra), assim como nos monócitos IL5rα+ e nos níveis do GM-CSF no sangue e no pulmão. Mais importante ainda, a transferência adotiva de neutrófilos isolados de animais obesos para animais normais promoveu o homing pulmonar de maneira IL-5-dependente, sugerindo a importância do eixo GM-CSF/IL5 no estabelecimento da neutrofilia pulmonar associada à obesidade.

Interessante que a perda de peso em animais obesos foi suficiente para a redução da metástase pulmonar, assim como das células IL5rα+ no pulmão, marcadores de mobilização e ativação neutrofílica e os níveis séricos da IL-5 e o GM-CSF. Ainda, a perda de 10% do peso corporal em voluntários sadios promoveu redução nos níveis séricos da IL-5 e o GM-CSF, indicando que perda de peso poderia ser uma terapia potencial não invasiva útil na melhora dos pacientes com câncer de mama. 

Post 3

Fig. 1. Esquema mostra as células IL5rα+ orquestrando a neutrofilia pulmonar associada à obesidade via GM-CSF, favorecendo a metástase pulmonar (Quail et al., 2017).

 

Referências Bibliográficas

  1. Wculek SK & Malanchi I. Neutrophils support lung colonization of metastasis-initiating breast cancer Nature. 2015 Dec 17;528(7582):413-7.
  2. Quail DF, Olson OC, Bhardwaj Pet al., Obesity alters the lung myeloid cell landscape to enhance breast cancer metastasis through IL5 and GM-CSF.Nat Cell Biol. 2017 Aug;19(8):974-987.

Microambiente imunossupressor após infecção primária induz suscetibilidade à infecções secundárias

Por: Isabel Guerra e João Paulo (Doutorandos IBA/FMRP-USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Post 2

Reprodução: http://www.cell.com/immunity/abstract/S1074-7613(17)30281-9

Pneumonia é umas das principais causas de morte por doenças infecciosas, e o risco do seu desenvolvimento mais grave em 30-50% dos pacientes aumenta após uma infecção primária. Sabe-se, atualmente, que a suscetibilidade a uma infecção secundária aumenta devido à aquisição de defeitos da imunidade, conhecido como imunossupressão induzida por sepse. No presente artigo, Roquilly et al. (2017) utilizam um modelo de pneumonia bacteriana em camundongos para demonstrar os mecanismos reguladores que diminuem a resposta imune local. A infecção primária foi realizada através de uma infecção com E. coli ou vírus da Influenza A. Após a resolução da infecção primária, os camundongos foram re-infectados com a E.coli para a avaliação da resposta imune durante a infecção secundária através do perfil de citocinas e fenótipo de células no local da infecção. Inicialmente foi observado aumento nos níveis de TGFβ e de células T reguladoras no tecido do pulmão pós-infecção. O tratamento com anticorpos anti-TGFβ, durante a resolução da infecção primária, diminuiu a carga bacteriana, melhorando a resposta de células T ao desafio secundário, além de diminuição da acumulação de células Treg nos tecidos. Demonstra-se assim o papel central do TGFβ na indução de células T reguladoras e consequentemente, na suscetibilidade da infecção secundária. Esse microambiente imunossupressordeterminado por TGFβ e Treg foi responsável pelo desenvolvimento de macrófagos e células dendríticas (DC) “paralizadas”, com capacidade reduzida de apresentação de antígeno e secreção de citocinas pró-inflamatórias. A expressão de IRF-4 , fator de transcrição associado à capacidade de apresentação de antígeno esteve reduzida nessas células, porém Blimp1, fator de transcrição associado às funções tolerogênicas, aumentada . Corroborando os dados observados em modelo animal, foram avaliadas em humanos a expressão de Blimp1 e número e frequência de células T reguladoras em uma segunda infecção, tanto por sepse como por trauma, correlacionando com a gravidade da doença e complicações e demonstrando a relevância desses dados em humanos. Coletivamente, essas respostas demonstram uma base para o desenvolvimento de um estado de imunossupressão que no modelo experimental usado por Roquilly et al. (2017) foi prolongado, podendo estender-se além de 30 dias após um desafio primário.

 

 

Referência

 

Roquilly, A., McWilliam, H.E.G., Jacqueline, C.,Tian, Z., Cinotti, R., Rimbert, M., Wakim, L., Caminschi, I., Lahoud, M., Belz, G., et al. (2017). Immunity 47, this issue, 135–147.

 

Sua iNKT é o que você come…..

Por: Michelangelo B. Gonzatti (Mestrando; Microbiologia e Imunologia – EPM – UNIFESP)

Editor Chefe: Alexandre C. Keller

Linfócitos T invariantes Natural Killer na resistência à insulina: a obesidade de um ponto de vista não convencional.

Uma dieta desbalanceada, hábitos sedentários e estresse são fatores que contribuem para o desenvolvimento de obesidade, uma doença que atinge adultos e crianças e cuja incidência dobrou desde a década de 80. Caracterizada pelo aumento de lipídeos em adipócitos, a obesidade também é considerada uma desordem inflamatória. Alterações metabólicas decorrentes do estado nutricional do indivíduo influenciam de maneira importante as células imunes presentes no tecido adiposo contribuindo para o desenvolvimento de uma série de co-morbidades em pacientes obesos. Nesses indivíduos, a inflamação crônica do tecido adiposo é um fator de risco associado com resistência à insulina e desenvolvimento de diabetes mellitus do tipo 2. Além da contribuição das células do sistema imunológico para a manutenção do estado inflamatório, um outro grupo de células vêm chamando a atenção nos últimos anos, os adipócitos.

Os adipócitos representam o tipo celular mais abundante do tecido conjuntivo adiposo, sendo classicamente reconhecidos pela sua capacidade de armazenar a energia em excesso, proteger órgãos vitais e amenizar a perda de calor do organismo. No entanto, a descoberta de que eles podem influenciar, pela secreção de hormônios (adipocinas) e citocinas, a homeostasia tanto do sistema metabólico quanto do sistema imunológico colocou essas células no centro do processo inflamatório no tecido adiposo e do desenvolvimento da resistência à insulina. Além da secreção de moléculas com impacto direto ou indireto sobre o sistema metabólico e imunológico, essas células também possuem a capacidade da apresentar antígenos para linfócitos T CD4 e CD8 convencionais e linfócitos T invariantes Natural Killer (iNKT), os quais reconhecem antígenos lipídicos associados à molécula do tipo MHC-I, CD1d [1].

Uma característica dos adipócitos, que chama a atenção, é a alta expressão da molécula CD1d em comparação com as demais células apresentadoras de antígenos (APC) presentes no tecido adiposo [2]. Isso, e o fato de que desordens metabólicas levam à alterações no metabolismo de lipídeos nessas células, levantou a possibilidade de que a interação entre adipócitos e linfócitos iNKT estaria relacionada com a doença inflamatória do tecido adiposo e suas consequências. Essa ideia foi reforçada pelo fato de que apesar da alta frequência dos linfócitos iNKT no tecido adiposo magro, seu número diminui de maneira expressiva em pacientes obesos[3].

Os linfócitos iNKT representam um grupo de células caracterizadas pela expressão de um receptor de célula T (TCR) invariante (Vα24Jα18Vβ11 em humanos e Vα14Jα18 pareados com cadeias Vβ diversas) e seletividade principalmente por glicolipídeos. Uma vez ativadas, essas células produzem rapidamente uma série de citocinas, com atividade pró e anti-inflamatórias, conferindo a esses linfócitos a capacidade de influenciar diversas respostas imunológicas[4].

Com o objetivo de determinar o papel dos linfócitos iNKT na resistência à insulina associada com a obesidade, uma série de estudos utilizaram animais deficientes em linfócitos iNKT (Ja18-/-) ou na molécula CD1d (CD1d-/-) em modelo de dieta com alto teor de gordura (high fat diet – HFD). De maneira geral, a ausência dessas células foi associada com aumento da inflamação do tecido adiposo, maior ganho de peso, hiperglicemia e resistência à insulina [5]. No entanto, a interação específica entre os adipócitos e os linfócitos iNKT ainda não havia sido caracterizada, visto que nesses animais a ausência dessas células ocorre já na seleção tímica. Para resolver esse problema, Huh e cols cruzaram animais adiponectinCre com CD1dflox (CD1df/f), obtendo camundongos deficientes na molécula CD1d-/- apenas nos adipócitos (CD1dADKO).

Os animais CD1dADKO, quando comparados com os camundongos controle (CD1df/f), apresentaram uma redução importante nos níveis absolutos e relativos de células iNKT apenas no tecido adiposo. Como não foi observada indução de apoptose em células iNKT, nem alteração significativa em outras populações que expressam CD1d (e.g. Macrófagos), essa foi a primeira evidência de que a apresentação de antígenos por adipócitos, via CD1d, tem um papel importante na manutenção de linfócitos iNKT do tecido adiposo. Mais ainda, após a injeção de α-Galactosiceramida, um agonista específico para iNKT, tanto a expressão do marcador de ativação precoce CD69 quanto a produção de citocinas inflamatórias por linfócitos iNKT do tecido adiposo estavam reduzidas, em comparação ao observado nos camundongos CD1df/f. Portanto, além da manutenção dos linfócitos iNKT no tecido adiposo, os adipócitos são os principais responsáveis pela ativação dessas células nessa região.

Em resposta à HFD, os animais CD1dADKO apresentaram maior aumento do nível de glicose e ácidos graxos livres no sangue, maior tolerância em testes de sensibilidade à insulina e tolerância à glicose e desenvolveram uma resposta inflamatória mais robusta no tecido adiposo, com a prevalência de macrófagos M1 e citocinas como IL-1β e IL-6. Apesar do mecanismo exato que leva à polarização da resposta inflamatória não estar claro, foi observado que a ausência de CD1d nos adipócitos reduz a expressão de IL-4 nos linfócitos iNKT do tecido adiposo. Como a suplementação desses camundongos com IL-4 reduziu tanto a inflamação do tecido adiposo quanto a resistência à insulina os autores sugerem que a produção de IL-4 pelos linfócitos iNKT, em resposta à HFD, seria responsável pela atenuação da resposta inflamatória e das alterações metabólicas associadas com a obesidade.

Além de demonstrar a importância da relação entre os adipócitos e os linfócitos iNKT, o trabalho de Huh e cols sugere que alterações metabólicas decorrentes de HFD induz a expressão de antígenos lipídicos capazes de modular o perfil de citocinas secretado pelas células iNKT. Resta ainda esclarecer se esses antígenos são provenientes da dieta per se ou de modificações na cascata metabólica dos lipídeos endógenos.

Ou seja, sua iNKT é o que você come…..

 

Referências:

  1. Huh, J.Y., et al., Crosstalk between adipocytes and immune cells in adipose tissue inflammation and metabolic dysregulation in obesity. Mol Cells, 2014. 37(5): p. 365-71.
  2. Huh, J.Y., et al., A novel function of adipocytes in lipid antigen presentation to iNKT cells. Mol Cell Biol, 2013. 33(2): p. 328-39.
  3. van Eijkeren, R.J., et al., Endogenous lipid antigens for invariant Natural Killer T cells hold the reins in adipose tissue homeostasis. Immunology, 2017.
  4. Kronenberg, M., Toward an understanding of NKT cell biology: progress and paradoxes. Annu Rev Immunol, 2005. 23: p. 877-900.
  5. Lynch, L., et al., Adipose tissue invariant NKT cells protect against diet-induced obesity and metabolic disorder through regulatory cytokine production. Immunity, 2012. 37(3): p. 574-87.

 

Quantidade ou qualidade do repertório de TCR?

Por: Ana Salina e Paula Viacava (doutorandas IBA/FMRP-USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Linfócitos T reguladores (Tregs) possuem um papel importante na supressão da reposta imunológica, agindo de forma direta, através da secreção de citocinas anti-inflamatórias, ou indireta, competindo por nutrientes e moléculas importantes para a sobrevivência de células T CD4+ efetoras (1). Além disso, animais que não possuem Tregs desenvolvem, de forma espontânea, quadros linfoproliferativos com inflamação generalizada (2, 3).

Durante o desenvolvimento dos linfócitos T no timo ocorre a seleção negativa e positiva mediante a responsividade dos diferentes TCRs (receptores de células T). TCRs que reconhecem antígenos com baixa avidez são selecionados a se diferenciarem em células T maduras, enquanto o reconhecimento TCR-antígeno de alta avidez promove a morte desses linfócitos por apoptose ou, então, levam a geração de Tregs. Dessa forma, fica claro o papel de TCR no desenvolvimento e função dos linfócitos Tregs.

Estudos mostram que o reconhecimento TCR-antígeno é importante para a expressão de Foxp3 em células T reguladoras (4), manutenção do fenótipo supressor e ativação de genes relacionados a esse subtipo celular (5). Entretanto, outros sinais como a sinalização via CD28 e receptores para IL-2 e TGF-β também colaboram com o perfil supressor (6). Somado a isso, Rudensky e colaboradores, em 2015 demonstraram que animais deficientes em CNS3, região não codificadora do Foxp3, apresentam um menor repertorio de TCRs nas Tregs (7).

Nessa linha de pesquisa, o mesmo grupo tenta desvendar se animais possuindo um único repertório de TCR nos linfócitos Tregs são capazes de controlar os quadros linfoproliferativos (8). Os autores comprovaram que animais expressando apenas um TCR trangênico G113tg em Treg apresentam quadros menores de linfoproliferação comparado a animais que não apresentam TCR nessas células. Além disso, é observado um aumento da porcentagem de células Foxp3+ no linfonodo, bem como a proliferação de células Tregs mas redução de células T efetoras produtoras de citocinas características do perfil Th2 (IL-4, IL-13) e Th17 (IL-17), sem alterar a porcentagem de células produtoras de citocinas Th1 (IFN-Υ, IL-2). No entanto, esse perfil foi observado apenas nos linfonodos drenantes da pele e não em outros linfonodos, como o mesentérico ou baço.

Com a confirmação de que Tregs com um único TCR apresentam uma atividade supressora parcial, os autores investigaram se isso ocorria por ausência completa dos diferentes genes relacionados à ativação via TCR ou se essa resposta estaria relacionada com problemas no reconhecimento antígenos-TCR. Utilizando-se da técnica de RNA-seq, foi demonstrado que o TCR trangênico G113tg é capaz de expressar a maioria dos genes relacionados com a via de ativação do TCR de forma semelhante à ativação derivada de uma gama de TCRs. Esse único TCR transgênico apresenta uma especificidade para um antígeno não identificado, aparentemente expresso de forma predominante na pele.

Os autores demonstram ainda que, embora seja necessário um repertório diverso de TCR em células Tregs maduras para controlar as respostas imunes Th1 e restringir completamente a inflamação do tecido, um TCR único tem capacidade de suprimir em partes a linfoproliferação diminuindo as resposta Th2.

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Figure 1: Representação esquemática da conclusão do artigo

Referências

  1. Caridade M, Graca L, Ribeiro RM. Mechanisms underlying CD4+ Treg immune regulation in the adult: from experiments to models. Frontiers in immunology. 2013;4.
  2. Hadaschik EN, Wei X, Leiss H, Heckmann B, Niederreiter B, Steiner G, et al. Regulatory T cell-deficient scurfy mice develop systemic autoimmune features resembling lupus-like disease. Arthritis research & therapy. 2015;17(1):35.
  3. Lin W, Haribhai D, Relland LM, Truong N, Carlson MR, Williams CB, et al. Regulatory T cell development in the absence of functional Foxp3. Nature immunology. 2007;8(4):359.
  4. Lee H-M, Bautista JL, Scott-Browne J, Mohan JF, Hsieh C-S. A broad range of self-reactivity drives thymic regulatory T cell selection to limit responses to self. Immunity. 2012;37(3):475-86.
  5. Vahl JC, Drees C, Heger K, Heink S, Fischer JC, Nedjic J, et al. Continuous T cell receptor signals maintain a functional regulatory T cell pool. Immunity. 2014;41(5):722-36.
  6. Kim JK, Klinger M, Benjamin J, Xiao Y, Erle DJ, Littman DR, et al. Impact of the TCR signal on regulatory T cell homeostasis, function, and trafficking. PloS one. 2009;4(8):e6580.
  7. Feng Y, Van Der Veeken J, Shugay M, Putintseva EV, Osmanbeyoglu HU, Dikiy S, et al. A mechanism for expansion of regulatory T cell repertoire and its role in self tolerance. Nature. 2015;528(7580):132.
  8. Levine AG, Hemmers S, Baptista AP, Schizas M, Faire MB, Moltedo B, et al. Suppression of lethal autoimmunity by regulatory T cells with a single TCR specificity. Journal of Experimental Medicine. 2017:jem. 20161318.