Treg Rules

Por: Ana Salina e Mikhael Haruo (doutorandos IBA-FMRP/USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Estudos envolvendo a timectomia de camundongos neonatos revelaram que, além do timo ser um órgão responsável pela gênese de células T, este também possui um papel central na prevenção da autoimunidade [1]. Estudos posteriores demonstraram que, dentre o repertório de células T, as que possuíam a característica de expressar CD25 em sua membrana, e FOXP3 em seu núcleo, tinham a função de regular a resposta imunológica por diferentes mecanismos [2]. Dentre eles, vale destacar a produção de mediadores anti-inflamatórios, bem como exibição de diversas proteínas de membrana que, em contato com células T efetoras ou apresentadoras de antígeno atuam na manutenção de uma resposta inflamatória não prejudicial ao organismo [2]. A partir de 2009, com o estudo mais aprofundado dessas células T reguladoras, foi observado que estas apresentam diversas características em comum com células T efetoras. Tais células também são capazes de se diferenciar em subpopulações efetoras, além de, também, possuírem a capacidade de gerar células de memória [3].

De maneira intrigante e, ao mesmo tempo lógica, foi demonstrado que células T reguladoras (Tregs) que suprimem respostas do perfil Th1 necessitam da expressão de T-bet (marcador clássico de células T efetoras produtoras de IFN-γ). Seguindo a mesma linha de raciocínio, evidenciou-se que respostas do perfil Th2 são reguladas por Tregs GATA3+, bem como respostas do perfil Th17 são reguladas por Tregs STAT3+[4]. Dentre os fatores que regem tal aptidão na supressão dos subtipos específicos, tais estudos demonstraram que, basicamente, os “fatores de transcrição efetores” favoreceram a migração das Tregs para o local periférico onde subtipo T helper estava ocorrendo.

No entanto, embora tal peculiaridade de células Treg seja conhecida hoje, ainda permanecem pouco elucidado os mediadores responsáveis por tal diferenciação efetora de células Tregs. Nesse sentido, Konkel e colaboradores [5] investigaram os sinais e estímulos que reforçam o perfil supressor de células Tregs. Utilizando animais nocautes condicionais de forma que apenas as células Tregs desses animais não possuíam o receptor I de TGF-β, que animais que possuem Tregs deficientes da sinalização são eficientes na supressão da população de células Th1 por expressarem T-bet, no entanto são incapazes de suprimir células Th17 por apresentarem uma baixa expressão de RORγt. Além disso, na ausência de sinais oriundos do TGF-β, essas células expressam baixas quantidades da integrina CD103 e altas quantidades do receptor acoplado a proteína G de lisofosfatidilserina GPR174 que limita a retenção das Tregs no intestino do animal, favorecendo, assim, a expansão da população celular Th17 podendo desencadear em quadros inflamatórios graves no trato gastrointestinal. Os experimentos deixam claro que essa perda de supressão pelas células Tregs ocorrem apenas do colón, não interferindo em outras regiões do corpo dos animais. Por outro lado, animais controles nos quais as células Tregs apresentam a via de sinalização de TGF-β normal, foi observado alta expressão de CD103 e baixa expressão de GPR174 que, somada a expressão normal de RORgt nas células Tregs, permite com que estas células atuem suprimindo tanto a população de Th1 quanto Th17.

Fig 13

Figura 1. Figura adaptada Chaudhry A. et al., Science 2009 vol 326. Linfócitos T reguladores na ausência da sinalização de TGF-b apresentam um aumento na expressão de GPR174 e diminuição na expressão de RORgt e CD103 que atrapalham as funções reguladoras dessas células e favorecem a proliferação de células Th17 no cólon dos animais testados.

 

Referência Bibliográficas:

[1] Y. Nishizuka, and T. Sakakura, Thymus and reproduction: sex-linked dysgenesia of the gonad after neonatal thymectomy in mice. Science 166 (1969) 753-5.

[2] S. Sakaguchi, M. Ono, R. Setoguchi, H. Yagi, S. Hori, Z. Fehervari, J. Shimizu, T. Takahashi, and T. Nomura, Foxp3+ CD25+ CD4+ natural regulatory T cells in dominant self-tolerance and autoimmune disease. Immunol Rev 212 (2006) 8-27.

[3] M.D. Rosenblum, S.S. Way, and A.K. Abbas, Regulatory T cell memory. Nat Rev Immunol 16 (2016) 90-101.

[4] A. Liston, and D. Gray, Homeostatic Control of Regulatory T Cell Diversity. Nat Rev Immunol 14 (2014) 154-65

[5] Joanne E. Konkel et al, Transforming Growth Factor-b Signaling in Regulatory T Cells Controls T Helper-17 Cells and Tissue-Specific Immune Responses. Immunity. April 2017.

 

Para os neutrófilos tamanho é documento sim!

Por: Gabriela Pessenda e Paula Viacava

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Um ponto ainda desconhecido na resposta contra patógenos é como o número de células imunes é ajustado durante uma infecção. Já é conhecido que neutrófilos podem produzir IL-1β, através da ativação de inflamassomas, e que essa citocina também auxilia no recrutamento destes fagócitos. Em 2014 foi demonstrado pelo grupo de Papayannopoulos que os neutrófilos possuem a capacidade de distinguir o tamanhos de patógenos e liberar NETs (neutrophils extracelular traps) apenas contra patógenos grandes que não são fagocitados [1]. Em um novo trabalho realizado pelo mesmo grupo, e publicado em março na revista Immunity, foi descoberto o papel das espécies reativas de oxigênio (ROS) como sensores do tamanho de patógenos [2]. A localização diferencial de ROS, produzida por neutrófilos em resposta a fungos de tamanhos diferentes, regula a expressão da interleucina IL-1β, através da oxidação seletiva de NF-kB, induzindo diferentes processos inflamatórios. Patógenos pequenos, exemplificado por leveduras, desencadeiam a produção de ROS intracelular, resultando na oxidação de NF-kB e redução na produção de IL-1β, o que limita o recrutamento de neutrófilos, visto que cada fagócito é capaz de eliminar inúmeras leveduras. Por outro lado, patógenos maiores como fungos na forma de hifas, desencadeiam a produção de ROS extracelular, permitindo a ativação de NF-kB intracelular e aumento da produção de IL-1β. Essa citocina atua no recrutamento de grandes quantidades de neutrófilos, resultando na formação de clusters cooperativos. O bloqueio da produção de ROS resulta em grandes infiltrados e aglomerados de neutrófilos, mesmo em resposta a patógenos pequenos. Os achados enfatizam o impacto da localização de ROS na sinalização e resposta de neutrófilos, indicando que a localização diferencial da sua produção permite com que os neutrófilos regulem a resposta inflamatória modulando o recrutamento de outros neutrófilos e cooperando efetivamente para eliminar patógenos com diferentes tamanhos.

Post 12

Figura 1: A produzção de ROS por neutrófilos permite a detecção dos diferentes tamanhos de patógenos e regulação da resposta inflamatória. Patógenos pequenos e que são fagocitados pelos neutrófilos induzem a produção de ROS intracelular, resultando na oxidação de NF-kB e menor produção de IL-1β. Patógenos grandes e que não podem ser fagocitados induzem a produção de ROS extracelular permitindo a ativação de NF-kB e produção de altos níveis de IL-1β, que atua no recrutamento de mais neutrófilos, contribuindo com a eliminação do patógeno.

 

Referências

  1. Branzk, N., et al., Neutrophils sense microbe size and selectively release neutrophil extracellular traps in response to large pathogens. Nat Immunol, 2014. 15(11): p. 1017-25.
  2. Warnatsch, A., et al., Reactive Oxygen Species Localization Programs Inflammation to Clear Microbes of Different Size. Immunity, 2017. 46(3): p. 421-432.

 

Piroptose e expulsão de células intestinais: papel do inflamassoma de NAIP-NLRC4 no controle de infecções

 

Por: Ester Cristina Borges Araujo, Marisol Patrícia Pallete Briceño, Natália Carnevalli de Miranda e Yusmaris Josefina Cariaco Sifontes (Doutorandas – PPIPA/UFU), Neide Maria Silva (Orientadora).

Editor Chefe: Tiago Mineo

 

Os inflamassomas são complexos citosólicos multiprotéicos que iniciam uma resposta imune inata contra patógenos e marcadores de dano celular, através da ativação de Caspases (MARTINON; BURNS; TSCHOPP, 2002; LAMKANFI; DIXIT, 2014). O recrutamento e ativação de Caspases, especificamente de pró-Caspase-1, ao inflamassoma é uma consequência da ativação da via de sinalização por um subgrupo de NLRs (“nucleotide-binding oligomerization domain protein-like receptors”) (MARTINON; BURNS; TSCHOPP, 2002). Apesar de serem amplamente expressos, os inflamassomas e seus mecanismos são mais bem estudados em células hematopoiéticas.

Contudo, estudos anteriores demonstraram que os inflamassomas tem participação na resposta imune intestinal. A depleção dos componentes genéticos do inflamassoma de NLRP6 leva a mudanças na microbiota intestinal, aumentado a produção de citocinas pró-inflamatórias, desencadeando uma colite espontânea (ELINAV et al., 2011). Ainda, a ausência do complexo proteico NLRP12 foi relacionado com uma alta susceptibilidade à inflamação e tumorigênese no cólon, o que está associado a um aumento de citocinas inflamatórias, quimiocinas e fatores tumorigênicos (ZAKI et al., 2011).

As células epiteliais intestinais (IECs) também expressam o inflamassoma NAIP-NLRC4 (Sellin et al., 2014). Esse inflamassoma é ativado especificamente por bactérias intracelulares, em que os PAMPs (“pathogen-associated molecular patterns”) são translocados para o citosol da célula hospedeira e reconhecidos pela proteína inibitória de apoptose neuronal (NAIP) (VANCE, 2015). Ao ser detectado por ligantes bacterianos, NAIP passa por hetero-oligomerização juntamente com NLRC4, gerando um inflammasoma NAIP-NLRC4 que recruta e ativa a pró-caspase-1 (HU et al., 2015; ZHANG et al., 2015). Em macrófagos, a ativação NAIP-NLRC4 induz um processo de morte celular lítica dependente de Caspase-1, conhecido como piroptose (MIAO et al., 2010b). Sabe-se que tal inflamassoma é ativado em resposta a duas proteínas de Salmonella typhimurium: flagelina e PrgJ (MIAO et al., 2010) e foi demonstrada a importância da ativação de NAIP-NLRC4 no controle da replicação dessa bactéria, bem como na expulsão das IECs infectadas (SELLIN et al., 2014).

Tem sido sugerido que pacientes com alta expressão de NLCR4 apresentariam patologia intestinal grave. Porém, ainda não tinha sido elucidado a origem celular do aumento dessa expressão anômala e se é relevante durante a infecção de patógenos intestinais. Neste contexto, Rauch e colaboradores (2017) desenvolveram um estudo recentemente publicado na revista Immunity no qual demostraram que existe uma resposta coordenada entre o inflamasoma de NAIP-NLRC4 ativado em IECs via Caspase-1 e Caspase-8. Nesse estudo, os autores utilizaram modelos in vitro e in vivo nos quais apenas as IECs são deficientes para diferentes moléculas envolvidas no processo de ativação do inflamassoma. Tais modelos foram expostos a Salmonella typhimurium ou tratados com FlaTox, um reagente conhecido por ativar especificamente o inflamassoma de NLRC4 via NAIP-5.

Assim, no estudo mencionado, os autores observaram que a ativação seletiva do inflamassoma de NAIP-NLRC4 apenas em IECs é suficiente para a proteção frente à invasão por Salmonella. Ainda, contrariamente do que foi demonstrado por Sellin e colaboradores (2014), antes da expulsão, as IECs passam por um processo de morte celular semelhante a piroptose (piroptose-“like”), caracterizado pela perda da integridade da membrana plasmática. Para não comprometer a integridade da barreira epitelial, ocorrem rápidos rearranjos no citoesqueleto de actina das células adjacentes. Essa morte celular é dependente tanto de Caspase-1 quanto de Gasdermina D, embora essas duas proteínas não sejam necessárias para a expulsão das IECs.

Além da expulsão e morte celular das IECs, no estudo de Rauch e colaboradores (2017) foi observada uma elevada produção sistêmica de IL-18 em modelo in vivo. A expulsão de células foi também acompanhada pela liberação da Prostaglandina E2, um eicosanoide que induz extravasamento vascular que leva a perda de fluidos e diarreia.

De forma inovadora, os autores do trabalho demonstraram que esses efeitos decorrentes da ativação do inflamassoma de NAIP-NLRC4 podem ser desencadeados tanto por Caspase-1 quanto por Caspase-8. Esse mecanismo de proteção via Caspase-8 pode ser importante durante infecções intestinais por bactérias capazes de inibir Caspase-1.

Embora ocorra um quadro patológico quando esses mecanismos são ativados de maneira exacerbada, os resultados mostrados por Rauch e colaboradores (2017) e representados no esquema por nós proposto, esclarecem o mecanismo de defesa baseado na expulsão de IECs infectadas, cujo fluxo é facilitado pela perda de fluidos induzida por eicosanoides. Por outro lado, os autores propõem que a produção sistêmica de IL-18 cumpre um papel importante para a ativação e recrutamento de células imunes para o local, com o consequente controle da infecção, limitando a invasão de bactérias patogênicas no intestino.

 

Figura 1

Figura 1. Mecanismo de expulsão de células epiteliais intestinais mediada pelo inflamassoma NAIP-NLRC4. Em infecções intestinais por Salmonella Typhimurium ou após tratamento com FlaTox, que permite a internalização da proteína bacteriana flagelina, existe o reconhecimento pelo NAIP que promove a ativação do NLRC4 e o recrutamento de caspase-1 ou 8. Durante esse processo ocorrem rápidos desarranjos no citoesqueleto de actina que auxiliam a expulsão da célula num processo dependente de caspase-8, com liberação de prostaglandina E2 que levam à perda de fluidos. Por outro lado, a ativação de caspase-1 e a expressão de gasdermina D levam à morte celular de tipo piroptose com produção sistêmica de IL-18. A produção dessa citocina possivelmente induz o recrutamento de células imunes para controlar o crescimento bacteriano no local (Adaptado de Rauch e colaboradores, 2017).

 

Referências

Martinon, F., Burns, K., Tschopp, J. (2002). The Inflammasome: A Molecular Platform Triggering Activation of Inflammatory Caspases and Processing of proIL-1b. Molecular Cell 417-426.

Lamkanfi, M., Dixit, V. M. (2014). Mechanisms and Functions of Inflammasomes. Cell 157, 1013-1022.

Elinav, E., Strowig, T., Kau, A.L., Henao-Mejia, J., Thaiss, C.A., Booth, C.J., Peaper, D.R., Bertin, J., Eisenbarth, S.C., Gordon, J.I., Flavell, R.A. (2011). NLRP6 Inflammasome Regulates Colonic Microbial Ecology and Risk for Colitis. Cell 145, 5, 745-757.

Vance, R.E. (2015). The NAIP/NLRC4 inflammasomes. Current Opinion in Immunology 32,.84–89.

Hu, Z., Zhou, Q., Zhang, C., Fan, S., Cheng, W., Zhao, Y., Shao, F., Wang, H.W., Sui, S.F., Chai, J. (2015). Structural and biochemical basis for induced self-propagation of NLRC4. Science 350, 399–404.

Zhang, L., Chen, S., Ruan, J., Wu, J., Tong, A. B., Yin, Q., Li, Y., David, L., Lu, A., Wang, W. L., Marks, C., Ouyang, Q., Zhang, X., Mao, Y., Wu, H. (2015). Cryo-EM structure of the activated NAIP2-NLRC4 inflammasome reveals nucleated polymerization. Science 350, 404–409.

Miao, E. A., Mao, D. P., Yudkovsky, N., Bonneau, R., Lorang, C. G., Warren, S. E., Leaf, I. A., Aderem, A. (2010). Innate immune detection of the type III secretion apparatus through the NLRC4 inflammasome. PNAS 107, 7, 3076–3080.

Miao, E.A.; Leaf, I.A.; Treuting, P.M.; Mao, D.P.; Dors, M.; Sarkar, A.; Warren, S.E.; Wewers, M.D.; Aderem A. (2010). Caspase-1-induced pyroptosis is an innate immune effector mechanism against intracellular bacteria. Nature Immunology, 11, 12, 1136-42.

Sellin, M. E., Muller, A. A., Felmy, B., Dolowschiak, T., Diard, M., Tardivel, A., Maslowski, K. M., Hardt, W-D. (2014). Epithelium-Intrinsic NAIP/NLRC4 Inflammasome Drives Infected Enterocyte Expulsion to Restrict Salmonella Replication in the Intestinal Mucosa. Cell Host & Microbe 16, 2, 237-248.

Rauch, I., Deets, K. A., Ji, D. X, Moltke, J. V, Tenthorey, J. L., Lee, A. Y., Philip, N. H., Ayres, J. S., Brodsky, I. E., Gronert, K., Vance, R. E. (2017). NAIP-NLRC4 Inflammasomes Coordinate Intestinal Epithelial Cell Expulsion with Eicosanoid and IL-18 Release via Activation of Caspase-1 and -8. Immunity 46, 649-659.

Caracterização de subpopulações de células dendríticas convencionais em diferentes tecidos humanos

Por: Sandra Palma e Taline Monteiro Klein (doutorandas IBA/FMRP-USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro Pereira

As células dendríticas (CDs) conhecidas como as verdadeiras sentinelas de nosso sistema imune são elementos-chave na captura e apresentação de antígenos para os linfócitos T. Diversos estudos em modelo murino demonstraram que as CDs estão distribuídas nos diferentes tecidos linfoides e não linfoides apresentando diferentes tipos de marcadores de ativação, migração e maturação. Devido a essa diversidade de fenótipos, as CDs convencionais (CDcs) foram subdivididas em CDs clássicas do tipo 1 (CDc1) e CDs clássicas do tipo 2 (CDc2). As CDc1 caracterizam-se por expressar CD8α ou CD103 e preferencialmente especializadas na apresentação cruzada de antígenos via MHC-I para células T CD8+. Já as CDc2 caracterizam-se por expressar CD11b, dentre outros marcadores, e promovem a diferenciação das células T CD4+. Devido a suas homologias ontológicas e funcionais a essas CDcs murinas , CDcs humanas foram caracterizadas e classificadas também como CDc1 (expressando o marcador CD141) e CDc2 (expressando o marcador CD1c+) originalmente identificadas em sangue periférico e depois em tecidos humanos. Contudo, o número reduzido de amostras teciduais disponíveis e a grande maioria desses tecidos serem provenientes de algum tumor ou trauma, pouco é sabido a cerca da caracterização dessas células, os fenótipos de maturação e migração entre os tecidos periféricos para os órgãos linfoides. Neste sentido, o trabalho de Tomer Granot e colaboradores caracterizou a distribuição, maturação e migração das populações de células dendríticas convencionais (CDcs) em diferentes tecidos humanos de 78 doadores. Os tecidos estudados foram medula óssea, sangue, órgãos linfoides secundários – baço, linfonodo pulmonar (LP), linfonodo traqueal (LT), linfonodo pancreático (LP), linfonodo mesentérico (LM) e placa de Peyer (PP) – tecidos de mucosa como o pulmão e intestino (jejuno, íleo e cólon) e o apêndice. Os resultados obtidos demonstraram que duas populações de cDCs estavam distribuídas em todos os tecidos analisados. A subpopulação cDc1 expressou marcadores característicos como CD8α+ CD141+ Clec9A+ CD26+ e um novo marcador CD13. A subpopulação CDc2 expressou marcadores como CD4+ Sirp-α+ e CD1c+. Contudo, CDc2 apresentou uma maior proporção de células em todos os tecidos, com maiores números nos LPs e no pulmão e maior capacidade migratória e de maturação, representadas pela alta expressão dos marcadores CCR7 e HLA-DR) respectivamente. De maneira interessante, os autores observaram que a caracterização das subpopulações de CDcs era mantida ao longo da vida humana, com exceção das regiões intestinais do jejuno e do apêndice, que apresentaram um maior número de CDc1 nos estágios iniciais da vida. Ainda, nos linfonodos mesentéricos a subpopulação de CDc2 teve seu número aumentado ao longo dos anos de vida, equiparando-se ao observado nos linfonodos pulmonares. Esses dados indicam que a distribuição das subpopulações de CDcs é uma característica sítio-específica dos tecidos mantendo-se constante em diferentes indivíduos analisados. As pequenas alterações nessa caracterização observadas nos extremos da vida (crianças – idosos) indicam mudanças teciduais específicas que influenciam a composição de CDcs nos tecidos. A caracterização das subpopulações de CDcs realizada por Granot tem um papel importante no esclarecimento da biologia dessas células em tecidos humanos. Dessa forma, têm-se subsídios para o desenvolvimento de novas terapias baseadas em células dendríticas, que seriam importantes em várias doenças, incluindo o câncer e doenças infecciosas.

Fig 11

Figura -1. Figura esquemática da caracterização das subpopulações de células dendríticas humanas convencionais nos tecidos pulmonares e intestinais e seus linfonodos drenantes, nos estágios iniciais da vida e em adultos. Em crianças e adultos as características de distribuição, maturação e migração das CDcs é semelhante, com maior número de CDc2 nos tecidos e nos linfonodos, sendo CDc2 com maior fenótipo de maturação (indicado pela coloração azul escura). O tecido intestinal nos estágios inicias da vida humana apresenta uma alteração, com números quase que equivalentes de CDc1 e CDc2, e com o passar dos anos CDc2 se torna mais predominante.

Referências bibliográficas

1- Granot et al. Dendritic Cells Display Subset and Tissue-Specific Maturation Dynamics over Human Life. Immunity 46, 504–515, 2017. http://dx.doi.org/10.1016/j.immuni.2017.02.019

2- Bachem et al. Superior cross-presentation and XCR1 expression define human CD11c+CD141+ cells as homologues of mouse CD8 dendritic cells. 6, 1273- 1281, 2010.

3- Haniffa et al. Human tissue contain CD141hi cross-presenting dendritic cells with functional homology to mouse CD103+ nonlymphoid dendritic cells. 37, 60-73, 2012.

4- Guilliams et al. Dendritic cells, monocytes and macrophages: a unified nomenclature based on ontogeny. Nature Reviews Immunology 1-8, 2014

Uma resposta imune adaptativa que salva indivíduos com defeito genético na resposta imune inata em infecções estafilocócicas graves

Por: Bruna C. Bertol e Isabel Guerra (Doutorandas IBA – FMRP/USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Staphylococcus aureus é uma bactéria gram-positiva que pode ter um papel comensal ou patogênica em humanos, com o potencial de causar doenças estafilocócicas invasivas, como pneumonia e sepse. Sua parede celular é formada por diversos compostos microbianos, como o ácido lipoteicóico (LTA), que ativam principalmente a resposta imune inata de neutrófilos e monócitos, assim como resposta imune adaptativa (linfócitos TH17 e produção de anticorpos). A literatura descreve diversos exemplos de imunodeficiências adquiridas e genéticas em humanos que aumentam as probabilidades de infecções graves causadas por S. aureus. Mutações em genes envolvidos com a sinalização dos Toll-likereceptors (TLR), i.e. MYD88 e IRAK4, tem recebido particular atenção uma vez que esta via, principalmente de TLR2/6 e TLR2/1, é importante para a resposta imune inata contra a bactéria. No entanto, as imunodeficiências genéticas conhecidas até o momento não explicavam os casos de doenças estafilocócicas graves, já que alguns pacientes não apresentam tais defeitos imunes. Foi então que Israel e colaboradores (2017) descreveram o caso de uma família detentora de deficiência autossômica recessiva de TIRAP, nunca descrita anteriormente. TIRAP é uma molécula adaptadora que tem como função servir de ponte para a interação entre TLR2 com MYD88 no momento em que TLR2 reconhece seu ligante (i.e. LTA), permitindo ativação de células imunes (i.e. neutrófilos e monócitos). Dentre os oito membros homozigotos dessa mutação rara (R121W) do geneTIRAP, apenas uma jovem paciente (P1) apresentou doença estafilocócica grave na infância. O grupo demonstrou que o alelo R121W do geneTIRAP leva a perda de função da proteína tanto em fibroblastos como em leucócitos de indivíduos deficientes de TIRAP. Esse efeito foi em decorrência do defeito funcional da sinalização upstream, mediada via TLR1/2, TLR2/6, e TLR4, e downstream com MyD88. Ademais, o grupo demonstrou a razão de P1 ter maior penetrância da doença em comparação aos outros membros familiares. Ao avaliar a resposta ao LTA, em sangue total, apenas P1 foi incapaz de responder ao antígeno, uma vez que não apresentava anticorpos específicos para LTA na circulação plasmática. Previamente, Bunket et al (2010) demonstraram que anticorpos anti-LTA são capazes de potencializar a resposta de leucócitos ao LTA por meio do reconhecimento do seu domínio IgG via CD32 (receptor de porção Fc de anticorpo do tipo II). Nesse sentido, foi sugerido que a presença de anticorpos específicos para LTA são responsáveis pelo resgate da deficiência de TIRAP nos membros da família, mas não de P1, demonstrando que a combinação das deficiências de TIRAP e anticorpos anti-LTA determinaram a ocorrência da doença estafilocócica grave nesta paciente (Figura 1). Portanto, o presente trabalho explica a penetrância incompleta da doença nesta família, onde a resposta adaptativa é responsável pelo resgate de um erro congênito da imunidade inata.

Fig 10

Figura 1. A resposta adaptativa anti-LTA compensa a deficiência da via de sinalização de TLR2 ao LTA em indivíduos com deficiência de TIRAP (R121W/R121W). Em indivíduos TIRAP WT/WT (esquerda), a resposta ao LTA pode ocorrer tanto via TLR2/6 em leucócitos (em cima) quanto pela presença de anticorpos anti-LTA no plasma (embaixo). Já indivíduos TIRAPR121W/R121W (direita) possuem respostas deficientes de TLR2/6 em leucócitos(em cima) que pode ser recuperadas pela presença de anti-LTA no plasma (embaixo), o que evita o surgimento de infecções graves causadas por S. aureus. Caso haja ausência de anticorpos específicos para LTA (embaixo) em indivíduos TIRAP R121W/R121W (P1), não há resgate da sinalização via TLR2 em leucócitos (em cima) tornando a paciente susceptível a infecção estafilocócica grave(centro).

REFERÊNCIAS

Israel, L., Wang, Y., Bulek, K., Della Mina, E., Zhang, Z., Pedergnagna, V., Chrabieh, M., Lemmens, N.A., Sancho-Shimizu, V., Descatoire, M., et al. (2017).Human Adaptive Immunity Rescues an Inborn Error of Innate Immunity Cell 168, 789–800.e10.

Bunk, S., Sigel, S., Metzdorf, D., Sharif, O., Triantafilou, K., Triantafilou, M.,Hartung, T., Knapp, S., and von Aulock, S. (2010). Internalization and coreceptor expression are critical for TLR2-mediated recognition of lipoteichoicacid in human peripheral blood. J. Immunol. 185, 3708–3717.

 

Gravidez tardia: o lado da mãe

Por: Mouzarllem Barros e Paula Viacava, doutorandos IBA/FMRP-USP

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

 

A gravidez tardia (especialmente após os 40 anos) implica em uma série de riscos quando comparada com uma primeira gravidez antes dos 22 anos, por exemplo. Após os 40 anos, de início, os ovócitos secundários que estão na mulher desde a sua fase fetal podem ter sofrido mutações, desorganizações cromossômicas, entre outros fatores, que geralmente estão associados com incidência aumentada de síndromes gênicas na prole, como por exemplo, Síndrome de Down. A gravidez tardia também tem uma série de implicações na mulher, visto que em um período pré-menopausa, há desregulação hormonal que na juventude preparava o útero para implantação de um embrião. Em outras palavras, o corpo da mulher não se prepara fisiologicamente como antes para uma gestação. Pior ainda, a situação se agrava. Estudos epidemiológicos realizados por diversos grupos desde a década de 70 demonstram que gravidez antes dos 22 anos reduz de maneira significativa chances de desenvolver câncer de mama. Porém, a gravidez após os 35 anos é estimuladora de tal evento. Em outras palavras, se a primeira gravidez de uma mulher ocorre antes dos 22 anos de idade, as chances de desenvolver câncer de mama encontram-se reduzidas. Por outro lado, se a primeira gravidez ocorre após os 35 anos de idade, há um aumento da chance de desenvolver tumores mamários. Diante de uma estatística tão assustadora, muitos estudos buscam entender os mecanismos moleculares envolvidos no eixo gravidez tardia – predisposição ao câncer de mama, levando em consideração, na organização social atual, que as mulheres tem esperado cada vez mais para ter filhos (especialmente após os 30 anos). Durante a gravidez, a mama sofre diversas alterações. Essa preparação para a lactação ocorre com o desenvolvimento de glândulas pré-existentes, o que torna este tecido menos provável de se multiplicar e, consequentemente, de desenvolver tumores. Mas porque uma mulher que engravida após os 35 anos pela primeira vez não tem os mesmos benefícios? A principal hipótese investigada no trabalho de Haricharan e colaboradores[1] é a de que mães de primeira viagem que engravidam tardiamente já carreiam mutações potenciais para desencadear câncer, ou até mesmo células neoplásicas em início de espalhamento e que, um mecanismo molecular influenciado pelos hormônios da gravidez promove uma evasão da apoptose por estas células, aumentando o risco de desenvolvimento de uma neoplasia. Em suma, o autor demonstra em seu trabalho de 2013 que, de início, a gravidez promove a sobrevivência e carcinogênese de células mamárias que já tinham o oncogene ErbB2 ativado (também conhecido como HER2 ou CD340, um oncogene expresso em cerca de 25% a 30% dos de câncer de mama). O mesmo resultado se repetiu em relação às células que já expressavam outro oncogene, o Wnt1. Ou seja, o desenvolvimento de tumores em células que superexpressavam os oncogenes após a gravidez tardia tinha maior desenvolvimento tumoral do que animais que não tinham células pré-lesionadas. O surgimento destas lesões em animais que passaram por uma gestação foi concomitante com uma superativação de STAT5. E a ativação de STAT5 nestas células pré-neoplásicas foi diretamente relacionada com a progressão tumoral. Animais virgens que foram induzidos a superexpressar STAT5 em células da glândula mamaria mimetizavam a progressão tumoral observada em animais que tiveram gestação. A inibição indireta de STAT5, tendo como alvo JAK, também foi capaz de recuperar esses animais do desenvolvimento de tumores mamários após a gravidez. Em resumo, na gravidez tardia, animais que possuem células da glândula mamária com superexpressão de oncogenes após da gravidez, tem um aumento de prolactina. A prolactina, ao se ligar ao receptor, promove fosforilação de JAK2 e consequentemente ativação de STAT5, e a inibição da apoptose destas células lesadas, levando ao desenvolvimento e evolução neoplásica. Amplificando ainda mais este processo, há o papel do oncogene que bloqueia GSK3β, uma enzima que promove a down regulação de PRLR, interrompendo o processo de superfosforilação de STAT5 induzido pela prolactina. Lembrando que a utilização de células que superexpressam os oncogenes neste estudo tem a função de mimetizar o que ocorre em mulheres que engravidam mais tardiamente, ou seja, mulheres mais velhas têm mais chances de acumular mutações ao longo da vida e que, sobre a influência da gravidez nesse período, podem vir a desenvolver a doença.

Fig 9

Progressão do câncer de mama induzido pela gravidez. Células mamárias com ativação de oncogenes (em vermelho) progridem lentamente para desenvolvimento de neoplasias avançadas devido à indução de apoptose em um contexto que ocorre naturalmente. Entretanto, com a gestação, células pré-cancerosas preexistentes ativam a via PRLR-JAK2-STAT5 (tornando-se rosas na ilustração). Esta via que seria bloqueada pela ação de enzima GSK3β não ocorre, pois este tem sua ação bloqueada pelo oncogene. A fosforilação de STAT5 após a gestação sobrepõe esta “barreira anti-câncer” que é gerada pela apoptose de células pré-cancerosas, consequentemente acelerando a progressão para malignidade. (Adaptado de Haricharan e colaboradores, 2013).

Referência:

[1] Haricharan S et al. Mechanism and preclinical prevention of increased breast câncer risk caused by pregnancy. eLife 2013;2:e00996.

 

Another hit for autoimmunity

Por: Ana Carolina G. Salina e David-F Colón M. (Doutorandos IBA/FMRP-USP)

A Doença Celíaca (CeD, inglês celiac disease) é uma complexa doença autoimune caracterizada por atrofia vilosa intestinal e intensa proliferação das células intraepitelias [1]. A CeD afeta globalmente 1 a cada 100 pessoas e é caracterizada por uma intensa resposta inflamatória Th1 contra o glúten presente no trigo em indivíduos que apresentam o heterotrímero HLA-DQ2 ou DQ8 [2, 3].

Embora evidências populacionais tenham mostrado que a susceptibilidade genética (HLA-DQ2/8) e o consumo do glúten estão relacionadas positivamente com o desenvolvimento da CeD, observações epidemiológicas e imunológicas sugerem a presença de outros fatores determinantes da doença. Ainda, níveis similares no consumo de glúten e a presença do HLA-DQ2/8 são relacionadas com diferenças na prevalência da CeD [2].

Desta forma, estudos recentes epidemiológicos usando Adenovirus, Virus da Hepatitis C e o Rotavirus, têm sugerido o possível papel das infeções virais como fatores desencadeantes finais para o desenvolvimento da CeD [4-6], porém até o momento há poucas evidencias experimentais. Assim, Bouziat e colaboradores [7], na tentativa de explicar os mecanismos pelos quais vírus poderiam induzir a quebra da tolerância a antígenos da dieta, utilizaram duas cepas de Reovírus, T1L e T3D-RV, que provocam diferentes estados imunopatológicos.

Ambas as cepas são avirulentas e geram uma imunidade protetora nos sítios primários de infecção, epitélio e placas de Peyer. Entranto, o T1L é capaz de perturbar a homeostase imunológica intestinal em locais indutores e efetores da tolerância oral, como a lâmina própria e linfonodos mesentéricos, suprimindo a conversão de células T reguladoras periféricas (pTreg) e promovendo a imunidade Th1 contra antígenos alimentares via a produção de citocinas como IL-12 e IL-27 por células dendríticas CD103+CD11bCD8a+.

O início das respostas Th1 a antígenos da dieta são dependentes do fator de transcrição IRF-1, enquanto, a supressão da geração das pTreg são mediadas por interferons do tipo 1 (IFN-I). Além disso, os autores demonstraram por estudos de correlação em humanos que a infecção com reovírus, um vírus aparentemente inócuo, pode desencadear o desenvolvimento de CeD.

Fig 8

Figura: Em condições de homeostase, células T reguladoras são induzidas, no intestino delgado, contra antígenos da dieta (Tolerância oral). Os Reovírus T1L e T3D-RV induzem uma resposta protetiva nas placas de Peyer. Entretanto, no linfonodo mesentérico (sítios de indução de tolerância oral) o reovírus T1L, não o T3D-RV, ativa células dendríticas a um perfil pró-inflamatório com a liberação de IL-12 e IL-27. Dessa forma, T1L é capaz de inibir a geração de células Fop3+ e promover uma resposta Th1 contra antígeno da dieta.

 

Referencias

  1. Meresse, B., et al., Celiac disease: from oral tolerance to intestinal inflammation, autoimmunity and lymphomagenesis. Mucosal Immunol, 2009. 2(1): p. 8-23.
  2. Abadie, V., et al., Integration of genetic and immunological insights into a model of celiac disease pathogenesis. Annu Rev Immunol, 2011. 29: p. 493-525.
  3. Shan, L., et al., Structural basis for gluten intolerance in celiac sprue. Science, 2002. 297(5590): p. 2275-9.
  4. Kagnoff, M.F., et al., Possible role for a human adenovirus in the pathogenesis of celiac disease. J Exp Med, 1984. 160(5): p. 1544-57.
  5. Ruggeri, C., et al., Celiac disease and non-organ-specific autoantibodies in patients with chronic hepatitis C virus infection. Dig Dis Sci, 2008. 53(8): p. 2151-5.
  6. Stene, L.C., et al., Rotavirus infection frequency and risk of celiac disease autoimmunity in early childhood: a longitudinal study. Am J Gastroenterol, 2006. 101(10): p. 2333-40.
  7. Bouziat R, et al., Reovirus infection triggers inflammatory responses to dietary antigens and development ofceliac disease. Science, 2017. 356, p44–50

 

Animais de estimação peludos melhorando a microbiota do bebê

Mais um pedido de grávida que deve ser prontamente atendido pelo marido: um animal de estimação peludo.

 

Sim. Agora há argumentos científicos que sugerem que ter um animal peludo na casa pode alterar a microbiota do bebê e favorecer bactérias do grupo, Ruminococcus e Oscillospira, que estão ligadas a um risco menor de alergia e obesidade em crianças.

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Um artigo publicado recentemente na Microbiome analisou as fezes de mais de 700 bebês com 3 meses de idade de mães que tinham ou não animais de estimação. Eles primeiro separaram as mães de acordo com 4 cenários de parto: vaginal com antibiótico durante o parto, vaginal sem antibiótico, cesariana agendada ou cesariana de urgência. O que eles notaram é que ter animais de estimação impactava a microbiota de forma diferente nestes 4 cenários. Dentre os bebês que nasceram de parto vaginal, por exemplo, os que foram expostos à animais de estimação depois do parto possuíam menos Proteobacteria do que os que foram expostos antes do parto. E os bebês que nasceram por cesariana de urgência possuem menor riqueza de certas espécies de bactérias e mais abundância de Enterobacteriaceae e de Citrobacter. Mas independente do cenário, ter animais de estimação estava ligada a uma maior riqueza de bactérias Oscillospira e/ou Ruminococcus. Justamente as bactérias associadas a um menor risco de alergia e obesidade em crianças.

 

Porém, não compre seu cachorrinho ainda. Os autores não seguiram os bebês ou checaram se os mesmos teriam de fato menos alergia ou seriam menos obesos. Isso ainda deve ser estudado e comprovado.

 

E note que não pode ser qualquer animal, como iguanas, tartarugas ou um peixe dourado. Tem que ser um animalzinho peludo! Ou em inglês, “furry”. Então, você pode chegar e pedir um “furry pet” pro seu amor e ele não terá como negar. Não será como as mensagens do casal abaixo.

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Artigo:
Exposure to household furry pets influences the gut microbiota of infants at 3–4 months following various birth scenarios
Hein M. Tun, Theodore Konya, Tim K. Takaro, Jeffrey R. Brook, Radha Chari, Catherine J. Field, David S. Guttman, Allan B. Becker, Piush J. Mandhane, Stuart E. Turvey, Padmaja Subbarao, Malcolm R. Sears, James A. Scott, Anita L. KozyrskyjEmail author and the CHILD Study Investigators
Microbiome 2017, 5:40. April 2017

IMUNOPATOGÊNESE DO VÍRUS DA HEPATITE DELTA

Por: Luan Felipo Botelho (Doutorando em Biologia Experimental), Larissa Deadame Nicolete (Doutora em Biologia Experimental), Alcione de Oliveira dos Santos (Doutora em Biologia Experimental), Juan Miguel Villalobos-Salcedo e Deusilene Souza Vieira (Docentes do PPG em Biologia Experimental)

Editor chefe: Juliana Pavan Zuliani (Vice-Coordenador PPGBIOEXP/UNIR-RO)

 

O vírus da hepatite Delta ou D (HDV) foi descoberto em 1977 por Rizzetto e colaboradores, sendo classificado popularmente como vírus satélite do vírus da hepatite B (HBV), baseando-se nos princípios biológicos de que o HDV compõe-se de um RNA incapaz de infectar na ausência do HBV, necessitando do antígeno superfície HBsAg (RIZZETTO et al., 1977; TAYLOR, 2006). O genoma viral deste vírus é constituido por um RNA de fita simples (ssRNA) circular de polaridade negativade aproximadamente 1,7kb pertence ao gênero Deltavirus (LAI, 2005; TAYLOR, 2006). Estima-se que dos 400 milhões de portadores crônicos do HBV em todo o mundo, entre 15 a 20 milhões possuem evidências sorológica de exposição ao HDV (FARCI, 2003; HUGHES et al., 2010). Tradicionalmente, as regiões com altos índices de endêmicidade são o centro e o norte da África, a Bacia Amazônica, o leste Europeu e Mediterrâneo, o Oriente Médio e partes da Ásia (RIZZETTO et al., 1990).

 

Em relação a imunopatogênese, estudos iniciais mostraram que as células NK, tem um papel importante para impedir o desenvolvimento do HDV e das lesões hepáticas, sugerindo que esta célula estaria atuando na resposta inata contra o vírus. Além disso, a presença de IFN-α, proveniente da terapia, mais um ambiente com IFN-γ e IL-15, IL-2 e IL-12 é capaz de alterar positivamente as características da célula NK, como por exemplo, sua taxa de desgranulação. Com relação a resposta imune adaptativa, acredita-se que ela contribua pouco na infecção (GIJERSCH; DANDRI, 2015). Porém, diversos estudos que investigaram citocinas e interleucinas, como marcadores da imunopatogênese, demonstram que o sistema imunológico do hospedeiro participa ativamente para o prognóstico da doença. O aparecimento de um padrão de resposta TH2 e também a produção excessiva de IL-10 são indicativos de mau prognóstico, uma vez que este perfil está diretamente relacionado com pacientes que não respondem ao tratamento (GRABOWSKI et al., 2011). No mesmo artigo, Grabowski e colaboradores (2011) sugerem que a presença de IFN-γ e IL-2 são indicativos de um bom prognóstico. Nicolete e colaboradores (2016) corroboraram que a presença de IL-2 pode significar uma boa resposta à terapia, além da presença de citocinas secretadas por células monocíticas, a IL-12. Especula-se que a presença desta IL-12 provavelmente seja um terceiro sinal para que os linfócitos TCD4+ eTCD8+ sejam resgatados de um estado de exaustão celular (SCHIRDEWAHN et al., 2017).

 

Figura 1. Representação dos possíveis mecanismos envolvidos em pacientes que responderam à terapia com IFN-PEG.

Hepatite delta

As células Natural Killer (NK) e as Células Apresentadoras de Antígeno (APCs) começam a produzir IFN-g e IL-12, respectivamente após o estímulo externo do IFN-PEG, que mimetiza o IFN-α.

 

Apesar de serem dados iniciais, infere-se que o vírus é capaz de gerar uma resposta contrária ao padrão TH1, levando à exaustão celular, a qual seria necessária para eliminação do mesmo e geração de células TCD4+ e TCD8+ de memória (HUGHES; WEDEMEYER; HARRISON, 2011a). Apesar de todos esses possíveis efeitos imunomoduladores, o HDV isoladamente não é um vírus citopático e assume-se que os mecanismos envolvidos, para a severidade desta hepatite viral, precisa considerar as proteínas produzidas pelo HBV e mais dados sobre o sistema imunológico do hospedeiro (LUNEMANN et al., 2015)Fazendo um paralelo com outros vírus, o dano hepático nas infecções pelo HBV e HCV são imunomediados, causado pelas células T citotóxicas que matam os hepatócitos infectados, refletindo que o balanço da resposta celular é a chave para o controle da infecção e o clearance viral. No caso do HDV, estudos realizados em camundongos indicam a presença de Linfócitos TCD8+ para controlar a replicação viral. Outro estudo conduzido por Aslan e colaboradores (2006) mostrou que a presença de Linfócitos TCD4+  aumentavam os níveis de AST em pacientes com HDV. Somando o que há disponível na literatura sobre a imunofisiopatologia desta doença, Grabowski e colaboradores (2011) sugerem em sua revisão que a resposta imune desejável seria aquela com presença de TCD4+ auxiliadores, secretando citocinas que estimulem a presença de Linfóctios TCD8+ e Linfócitos B para controle efetivo da infecção sem causar danos colaterais. Apesar de vários estudos a imunopatogênese da doença ainda não é bem esclarecida e o conhecimento na área é muito limitado.

 

Referências

ASLAN, N. et al. Cytotoxic CD4 T cells in viral hepatitis. Journal of viral hepatitis, v. 13, n. 8, p. 505–14, ago. 2006.

GIJERSCH, K.; DANDRI, M. Hepatitis B and Delta Virus: Advances on Studies about Interactions between the Two Viruses and the Infected Hepatocyte. Journal of Clinical and Translational Hepatology, v. 3, n. 3, p. 220–229, 15 set. 2015.

GRABOWSKI, J. et al. Hepatitis D virus-specific cytokine responses in patients with chronic hepatitis delta before and during interferon alfa-treatment. Liver international : official journal of the International Association for the Study of the Liver, v. 31, n. 9, p. 1395–405, out. 2011.

HUGHES, S. A.; WEDEMEYER, H.; HARRISON, P. M. Hepatitis delta virus. The Lancet, v. 378, n. 9785, p. 73–85, 2011.

KUO, M. Y.; CHAO, M.; TAYLOR, J. Initiation of replication of the human hepatitis delta virus genome from cloned DNA: role of delta antigen. Journal of virology, v. 63, n. 5, p. 1945–50, maio 1989.

LAI, M. M. C. RNA replication without RNA-dependent RNA polymerase: surprises from hepatitis delta virus. Journal of virology, v. 79, n. 13, p. 7951–8, jul. 2005.

LUNEMANN, S. et al. Effects of HDV infection and pegylated interferon α treatment on the natural killer cell compartment in chronically infected individuals. Gut, v. 64, n. 3, p. 469–482, mar. 2015.

NICOLETE, L. D. DE F. et al. Correlation between TH1 response standard cytokines as biomarkers in patients with the delta virus in the western Brazilian Amazon. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 111, n. 4, p. 275–6, abr. 2016.

RIZZETTO, M. et al. Immunofluorescence detection of new antigen-antibody system (delta/anti-delta) associated to hepatitis B virus in liver and in serum of HBsAg carriers. Gut, v. 18, n. 12, p. 997–1003, dez. 1977.

SCHIRDEWAHN, T. et al. The Third Signal Cytokine Interleukin 12 Rather Than Immune Checkpoint Inhibitors Contributes to the Functional Restoration of Hepatitis D Virus-Specific T Cells. The Journal of infectious diseases, v. 215, n. 1, p. 139–149, 1 jan. 2017.

TAYLOR, J. M. Hepatitis delta virus. Virology, v. 344, n. 1, p. 71–6, 5 jan. 2006.

WANG, K. S. et al. Structure, sequence and expression of the hepatitis delta (delta) viral genome. Nature, v. 323, n. 6088, p. 508–14, 1986.

Feed a cold, starve a fever? Not so fast!

Por: João Paulo Mesquita e Gustavo F S Quirino (Doutorandos IBA/FMRP-USP)

Editora Chefe: Vanessa Carregaro

Fig 7

O ditado popular “feed a cold, starve a fever” recomenda que devemos comer quando resfriados, mas não quando estamos com febre. É natural perder a vontade de comer – anorexia – quando estamos doentes, e algumas vezes essa perda de apetite pode promover uma recuperação mais rápida. Entretanto, a perda de apetite também pode ser fatal, principalmente entre pacientes com câncer em sua forma mais grave.

A perda de apetite causada por doença, envelhecimento, inflamação ou intervenção medicamentosa faz parte de uma série de mudanças comportamentais, também conhecidas como “comportamento de doença”, que inclui febre, sonolência, letargia, depressão, dor, entre outros. Essas características foram propostas como mecanismos adaptativos para aumentar a chance de sobrevivência, uma maneira de criar um ambiente menos hospitaleiro para o patógeno através da deprivação de nutrientes essenciais para a replicação.

Estudos com animais sugerem que os benefícios proporcionados pela anorexia causada pela infecção são dependentes do contexto, e em algumas situações podem também apresentar efeitos negativos para o hospedeiro, diminuindo a resistência contra o patógeno. Estudos prévios mostram que a resposta do hospedeiro contra uma infecção é largamente dependente de como a virulência é afetada pelo status energético do hospedeiro e da capacidade adaptativa de certos patógenos sob condições de restrição de nutrientes.

Por causa de inúmeras práticas biomédicas que interferem com o comportamento de doença, é importante entender os mecanismos que levam a indução da mudança comportamental e o contexto nos quais eles são benéficos ou maléficos para o hospedeiro.

O trabalho de Rauch e colaboradores (aqui) descreve de maneira elegante um modelo e os mecanismos associados à modulação da anorexia e transmissão da infecção por Salmonella (ST). Primeiramente, foi visto que a infecção oral de camundongos C57BL/6 com ST WT e mutante para o efetor SlrP (DslrP) culmina em elevada mortalidade dos animais infectados com a cepa DslrP, assim como maior perda de peso ao longo da infecção. Ao avaliar o consumo alimentar, foi observado que os animais infectados com ST WT apresentam redução moderada do consumo de ração (anorexia), porém os animais infectados com DslrP apresentaram intensa anorexia após 24 e 48h de infecção.

Para avaliar se o estado nutricional está diretamente envolvido com a maior virulência de Salmonella, os animais foram submetidos à restrição alimentar. Os dados demonstram que a restrição alimentar foi suficiente para aumentar a virulência da bactéria WT aos mesmos níveis que a DslrP. De outra maneira, a alimentação forçada ao longo da infecção culminou em redução da patogenicidade da bactéria DslrP.

As variáveis microbiota, disseminação bacteriana, escore histopatológico, os infiltrados celulares e citocinas foram alterados pela infecção com Salmonella tanto WT quanto DslrP, descartando seus papéis na indução de anorexia. O único fator que se encontra elevado na infecção por DslrP em comparação com WT foram os níveis de IL-1b no intestino delgado. Para confirmar o papel de IL-1 b, animais C57BL/6 WT e deficientes para IL-1b (Il1b-/-) foram infectados e foi visto que na ausência desta citocina, os animais não apresentam anorexia, sendo protegidos da infecção em relação aos animais WT. De maneira oposta, a administração de IL-1b recombinante para animais infectados com ST WT culmina em anorexia, perda de peso e mortalidade acentuada, demonstrando o papel crítico de IL-1b na indução de anorexia e virulência bacteriana. A produção reduzida de IL-1b durante a infecção com Salmonella ocorreu pela modulação negativa da ativação de Caspase-1 pelo sítio efetor SlrP.

Sabe-se que os centros de controle da fome e saciedade se encontram sistema nervoso central, mais especificamente, no hipotálamo. Poderia então a IL-1b induzir alterações hipotalâmicas através do nervo vago? Para testar essa hipótese, animais vagotomizados foram infectados com DslrP e os parâmetros de anorexia, perda de peso e mortalidade foram avaliados. Os dados demonstram que na ausência de comunicação vagal, a indução de anorexia pela infecção não é observada. Em geral, podemos concluir que a infecção com Salmonella WT culmina em modulação negativa da ativação de Caspase-1 e produção de IL-1b no intestino delgado pelo efetor SlrP. Os baixos níveis de IL-1b não são capazes de induzir, via nervo vago, a ativação hipotalâmica para supressão da alimentação. Na ausência do efetor SlrP, entretanto, tem-se a indução de anorexia, que leva à maior virulência da bactéria.

Qual seria o impacto dessa virulência na transmissão bacteriana? Foi visto que as bactérias DslrP são encontradas em maior número no fígado, baço, mLN, demonstrando sua maior capacidade de disseminação. Por outro lado, foram observados baixos números de bactérias DslrP nas fezes em comparação com a bactéria WT. Ou seja, quando se tem maior disseminação, tem-se em contrapartida menor transmissão para outros hospedeiros. Estes dados foram confirmados em um modelo de transmissão horizontal.

Sendo assim, este trabalho demonstra que durante a infecção pela bactéria Salmonella, tem-se a modulação da fisiologia do hospedeiro, mantendo seu estado nutricional e o estado geral de saúde. Estes hospedeiros são capazes de transmitir a bactéria para outros indivíduos. Entretanto, quando ocorre infecção por uma bactéria mais virulenta, tem-se a anorexia, disseminação bacteriana e mortalidade do hospedeiro, ao custo da redução da sua transmissão para outros indivíduos.