Imunologista conquista prêmio L’oréal-UNESCO For Women in Science
24 de agosto de 2018
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Pesquisadora estuda os efeitos da fibra no combate às superbactérias

Com uma pesquisa que busca descobrir os efeitos da alimentação saudável e equilibrada para vencer as superbactérias causadoras de doenças, a cientista Angélica Vieira, professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), conquistou o prêmio “Para Mulheres na Ciência”, na categoria “Ciências da Vida”. A premiação é realizada pela L’Oréal Brasil em parceria com a UNESCO e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Em 2017, a imunologista também recebeu o prêmio Women in Science SBI durante o Congresso Anual da Sociedade em Salvador.

A cientista estuda como os alimentos ricos em fibras podem fortalecer a flora intestinal, especialmente nas bactérias que vivem em nosso intestino, utilizando probióticos e uma dieta equilibrada em modelos animais experimentais. Na fase de testes em laboratório, a pesquisadora já vem alcançando resultados em diversas doenças inflamatórias como colite, asma, gota e artrite.

“Agora vamos testar essas estratégias em um modelo de infecções por bactérias resistentes a antibióticos, que têm o tratamento muito difícil, como as superbactérias que causam a pneumonia e que fazem muitas vítimas na área hospitalar. Os antibióticos de última geração já não são tão eficientes contra elas”, explica. O objetivo é tratar ou até mesmo utilizar a dieta rica em fibras como uma estratégia de modular a microbiota a voltar ao seu equilíbrio. “Assim vamos restaurar o equilíbrio dessa microbiota para evitar a disseminação dessas bactérias em uma população, por exemplo. Isso se dá porque as fibras, consumidas na alimentação, servem de substrato para as bactérias benéficas que vão produzir metabólitos, que são substâncias que ajudam no combate às bactérias invasoras, fortalecendo o sistema imune do indivíduo”, completa a pesquisadora.

 

A ação da fibra no organismo

Quando as bactérias benéficas consomem a fibra ingerida, elas produzem alguns metabólitos, os ácidos graxos de cadeia curta, e eles se conectam a receptores específicos que os reconhecem. Esses receptores estão muito presentes nas células do sistema imune, que ficam mais potentes com a ingestão das fibras. “Nossa hipótese é que se o indivíduo que ingere essas fibras tem alguma infecção, algum contato com agente infeccioso - uma bactéria patogênica, ele já tem essas células do sistema imune fortalecidas. Assim elas são capazes de lidar com os agentes de uma maneira mais eficiente”, explica a pesquisadora.

Durante os testes em laboratório, a cientista utiliza uma fibra sintetizada, que é a pectina - uma fibra solúvel muito rica e encontrada em alimentos como frutas cítricas, principalmente na casca da maçã. Além da maçã, essa fibra também é encontrada na polpa da beterraba, do limão e da pêra. São alimentos simples, de fácil consumo e com de baixo custo. A pesquisadora ressalta a importância de se ter uma alimentação saudável. “Acredito que hoje o problema da alimentação é mais cultural do que econômico. Atualmente, o estilo de vida das pessoas, devido a correria, faz com que elas gastem mais dinheiro com comida do tipo fast-food, o que acaba levando ao desequilíbrio da microbiota e que pode até estar relacionado com os aumentos das doenças nos países mais desenvolvidos, onde o fast-food é predominante. Se você aumentar um pouco do consumo de fibras na sua alimentação, você já consegue ajudar a manter o equilíbrio, inclua aveia e consuma mais frutas cítricas”, afirma a cientista.

 

A paixão pela ciência

Angélica sempre foi apaixonada pela ciência, mas foi durante um trabalho escolar no ensino médio que decidiu seguir nesta área. “Precisei ir até uma universidade para fazer um trabalho do colégio e foi onde tive meu primeiro contato com laboratórios e com alguns professores. Achei aquilo sensacional! Só confirmou algo que eu já queria: ser cientista”, conta.

Desde então ela decidiu que iria trabalhar com algo que estivesse relacionado ao tratamento para doenças. Foi assim que iniciou-se a sua história com a Imunologia. “Ao buscar o estágio de iniciação científica, ainda no começo da graduação, eu bati de porta em porta e fui aceita no Laboratório de ImunoFarmacologia, que trabalhava com farmacologia da inflamação, coordenado pelo professor Mauro Martins, fiquei lá quase 10 anos trabalhando junto ao grupo. Fiquei cada vez mais encantada pela Imunologia e o interesse ia crescendo cada vez mais. É um amor que não sei explicar”, relata a pesquisadora.

 

Desafios da profissão

Existem várias dificuldades enfrentadas por quem decide seguir o caminho da ciência no Brasil. Para as mulheres a maternidade é uma delas e não foi diferente com a pesquisadora Angélica Vieira. Ela conta os desafios de ser mãe e cientista, pois precisou enfrentam muitos preconceitos ao tomar essa decisão e a falta de apoio das instituições.

“As pessoas acham que você não vai dar conta, já ouvi comentários do tipo: ‘você vai virar mãe agora?’. É como se eu tivesse que deixar de ser cientista para poder ser mãe. As instituições não têm estrutura para as mulheres cientistas que são mães, infelizmente não tem apoio, principalmente no Brasil. As agências financiadoras quando analisam um projeto, elas não levam em consideração o seu tempo de licença maternidade, óbvio que você não está no mesmo ritmo, a produtividade diminui nesse período”, comenta.

 

Inspiração para mulheres cientistas

De acordo com a pesquisadora, o prêmio “Para Mulheres na Ciência” é um reconhecimento do trabalho desenvolvido e uma fonte de inspiração para as mulheres que estão iniciando a carreira ou já estão com projetos em desenvolvimento. “O prêmio procura transformar essa desigualdade de gênero que ainda existe, não só na ciência, mas na sociedade também. Nos últimos dias, tenho vivenciado que ele está servindo de inspiração para outras jovens mulheres que como eu estão na mesma carreira. Isso é muito gratificante”, afirma.

Além do prêmio “Para Mulheres na Ciência”, a cientista Angélica Vieira já conquistou as premiações: Thereza Kipnis e Mulheres na Ciência, ambos da Sociedade Brasileira de Imunologia; Pemberton, promovido pela Coca-Cola.

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