O ambiente está mais seguro, mas nosso sistema imune nunca esteve tão despreparado
29 de março de 2019
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Artigo publicado pelo The New York Times evidencia que o contato com o ambiente natural pode ser crucial para a imunização

Matt Richtel, The New York Times

 

 

Será que você deveria cutucar o nariz?

Não ria. Do ponto de vista científico, essa é uma pergunta interessante. Será que seus filhos deveriam cutucar o nariz? Será que eles deveriam comer sujeira?

Talvez: seu corpo precisa saber quais os desafios imunológicos escondidos no ambiente mais imediato. Você precisa usar sabão bactericida ou antissépticos para as mãos? Não. Estamos tomando muito antibiótico? Sim.

"Digo às pessoas que, quando alguma comida cair no chão, por favor, peguem e comam. Livrem-se do sabonete bactericida. Imunizem-se! Se uma nova vacina é lançada, saiam correndo para tomá-la. Imunizo minhas crianças que nem louca. E não me importa que elas comam sujeira", declarou a dra. Meg Lemon, dermatologista de Denver que cuida de pessoas que possuem alergias e disfunções autoimunes.

A prescrição de Lemon para obtermos um sistema imunológico melhor não para por aí. "Não apenas você deveria cutucar o nariz como também comer a meleca", sugeriu. Ela está se referindo, com um toque brincalhão, ao fato de que nosso sistema imunológico pode ficar comprometido se não interagir regularmente com o ambiente natural. "Nosso sistema imunológico precisa trabalhar. No decorrer de milhares de anos, evoluímos para que ele pudesse existir sob constantes ataques. Agora, ele não tem mais o que fazer", alertou.

Ela não está sozinha. Médicos e imunologistas proeminentes estão reconsiderando a maneira antisséptica, por vezes histérica, como interagimos com o entorno. Por quê? Vamos nos voltar para a Londres do século 19.

O fator irmão nas alergias

O volume 29 do "British Journal of Homeopathy", publicado em 1872, trazia uma observação assustadoramente profética: "A rinite alérgica é considerada uma doença aristocrática, e não há dúvida de que, se não está quase totalmente confinada às classes mais altas da sociedade, é raramente encontrada, isso quando o é, fora do círculo dos mais educados."

A rinite alérgica é um termo genérico para alergias sazonais ao pólen e a outros fatores de irritação presentes no ar. Partindo do princípio de que ela era uma doença aristocrática, os cientistas britânicos estavam a caminho de uma grande descoberta.

Mais de um século depois, em novembro de 1989, outro trabalho influente foi publicado sobre o tema na "The BMJ". O artigo era curto, menos de duas páginas, intitulado "Rinite Alérgica, Higiene e o Tamanho da Casa".

O autor examinou a prevalência da rinite alérgica entre 17.414 crianças nascidas em março de 1958. Das 16 variáveis exploradas pelo cientista, ele descreveu como "a mais impactante" a associação entre a probabilidade de uma criança desenvolver rinite alérgica e o número de irmãos que tinha. Era uma relação inversa, ou seja, quanto mais irmãos, menor a possibilidade de ela ser acometida pela alergia. Não apenas isso: as crianças menos propensas foram aquelas com irmãos mais velhos.

O trabalho levantou a hipótese de que doenças alérgicas poderiam ser prevenidas na primeira infância por meio de infecções transmitidas pelo contato anti-higiênico com irmãos mais velhos ou adquiridas antes do nascimento pelo contato da mãe infectada com os filhos mais velhos.

O artigo segue: "No último século, a diminuição do tamanho das famílias, a evolução de artigos domésticos e os padrões mais elevados de limpeza pessoal diminuíram a oportunidade de infecção cruzada entre os jovens membros da família. Isso pode ter levado a uma expressão clínica mais abrangente de doenças tópicas em indivíduos mais abastados, como parece ter acontecido com a rinite alérgica."

Esse foi o nascimento da hipótese da higiene. As ideias por trás disso, desde então, têm evoluído e se expandido, mas oferecem maior clareza para um desafio que os seres humanos enfrentam na relação com o mundo moderno.

Nossos ancestrais evoluíram por milhares de anos para sobreviver ao ambiente em que se encontravam. E, na maior parte da existência humana, esse ambiente era caracterizado por desafios extremos, como escassez de comida, ou alimentos contaminados, assim como condições insalubres e água suja, temperaturas extremas e assim por diante. Era um lugar perigoso – uma façanha e tanto sobreviver a ele.

No centro estava o sistema imunológico, nossa defesa mais elegante. Ele é resultado de séculos de evolução, assim como a pedra de um rio é esculpida pela água que corre sobre ela e pelas quedas que experimenta na jornada correnteza abaixo.

Em seguida, os humanos aprenderam a tomar providências para aumentar as defesas, desenvolvendo todos os tipos de costumes e hábitos para garantir a sobrevivência. Dessa maneira, considere o cérebro – o órgão que nos ajuda a desenvolver hábitos e costumes – como mais uma faceta do sistema imunológico.

Usamos nossa mente coletiva para chegar a comportamentos eficazes. Começamos lavando as mãos e evitando certos alimentos, que a experiência tinha mostrado serem perigosos ou mortais. Em algumas culturas, passou-se a evitar a carne de porco, que sabemos ser altamente suscetível à triquinose; em outras, foram banidas as carnes vermelhas, que, mais adiante descobrimos, podem carregar quantidades tóxicas de E. coli e outras bactérias.

O ritual da limpeza é mencionado no Livro do Êxodo, um dos primeiros da Bíblia: "Então eles deverão lavar as mãos e os pés, para que não morram."

Nossas ideias evoluíram, mas o sistema imunológico, em grande parte, não. Isso não quer dizer que não mudou. Ele responde ao ambiente. Quando nos deparamos com uma variedade de ameaças, nossas defesas aprendem e, consequentemente, ficam muito mais aptas para lidar com ela no futuro. Visto dessa forma, nós nos adaptamos ao ambiente.

Sobrevivemos por dezenas de milhares de anos. Eventualmente, passamos a lavar as mãos, limpar o chão, cozinhar a comida, evitar certos alimentos. Cuidamos melhor da higiene dos animais que criamos e abatemos para obtenção de comida. Especialmente nas áreas mais ricas do mundo, purificamos a água e desenvolvemos sistemas de tratamento de esgoto e água; isolamos e eliminamos bactérias e outros germes.

A lista dos inimigos do sistema imunológico foi atenuada, em grande parte para o bem. Hoje em dia, no entanto, nosso corpo está provando ser incapaz de acompanhar essa mudança. Acabamos por criar uma incompatibilidade entre o sistema imunológico – um dos feitos mais longevos e que demonstrou maior refinamento de equilíbrio no mundo – e nosso meio ambiente.

Os germes não encontram seus pares

Graças a todo o conhecimento que desenvolvemos como espécie, minimizamos a interação regular não apenas com os germes, mas até mesmo com bactérias e parasitas amigáveis que ajudaram a ensinar e aperfeiçoar o sistema imunológico – responsáveis pelo seu "treinamento".

Eles não encontram mais tantos bichos como quando éramos bebês. E isso não apenas porque as casas estão mais limpas, mas também porque as famílias estão menores (há menos crianças mais velhas trazendo para casa os germes), os alimentos e a água, mais limpos, o leite, esterilizado. Alguns se referem à falta de interação com todos os tipos de micróbios que antes costumávamos encontrar como "o mecanismo dos velhos amigos".

O que acontece com o sistema imunológico quando não recebe treinamento apropriado?
Ele pode ter uma reação exagerada, sendo afetado por coisas como ácaros ou pólen. Desenvolve o que chamamos de alergias, ataques crônicos ao sistema imunológico – inflamação –, de uma maneira contraproducente, irritante e até mesmo perigosa.

A porcentagem de crianças nos Estados Unidos com alergia a alimentos cresceu 50 por cento entre 1997-99 e 2009-11, segundo o Centro de Controle de Prevenção de Doenças daquele país. O aumento das alergias cutâneas foi de 69 por cento durante o mesmo período, deixando 12,5 por cento das crianças americanas com eczema e outras irritações. Alergias respiratórias e causadas por alimentos cresceram na mesma proporção que a renda familiar. Mais dinheiro, que tipicamente está relacionado a maior nível educacional, tem significado mais riscos de alergias. Isso pode refletir diferenças em quem relata tais eventos, mas também é sugerido pelos distintos ambientes.

Essas tendências são vistas internacionalmente também. Alergias cutâneas "dobraram ou triplicaram em países industrializados durante as últimas três décadas, afetando de 15 a 30 por cento das crianças e de 2 a 10 por cento dos adultos", segundo um artigo que cita uma pesquisa do "Journal of Allergy and Clinical Immunology". O texto relata que a asma "está se tornando um fenômeno 'epidêmico'".

A hipótese da higiene se mantém

Até 2011, uma em cada quatro crianças europeias tinha um tipo de alergia, e os números seguiam curva crescente, de acordo com um relatório da Organização Mundial de Alergia. Reforçando a hipótese da higiene, o trabalho notou que estudos sobre migração mostravam que crianças nascidas fora do país apresentam níveis mais baixos de alguns tipos de alergia e autoimunidade que os migrantes cujas crianças nascem nos Estados Unidos.

Há tendências relacionadas na doença inflamatória intestinal, lúpus, condições reumáticas e, especialmente, doença celíaca. Esta é causada por uma reação exagerada do sistema imune ao glúten, uma proteína encontrada no trigo, no centeio e na cevada. O ataque, por sua vez, danifica as paredes do intestino delgado. Isso pode parecer uma alergia alimentar, mas é diferente, em parte, por causa dos sintomas. No caso de um transtorno autoimune como esse, o sistema imunológico ataca a proteína e as regiões associadas a ela.

Alergias, por outro lado, podem disparar uma resposta mais generalizada. Alergia a amendoim, por exemplo, pode levar a uma inflamação da traqueia, conhecida como anafilaxia, que pode causar sufocamento. Entretanto, tanto em casos de alergia quanto de distúrbios autoimunes, o sistema de defesa reage de maneira mais intensa do que o faria em condições normais e que seriam mais saudáveis para o portador (sim, estou falando de você).

Isso não quer dizer que todos esses índices aumentados sejam causados por melhora na higiene, queda de infecções na infância e suas associações com riqueza e educação. Houve também muitas mudanças em nosso ambiente, como o surgimento de novos poluentes. Além disso, não podemos descartar os fatores genéticos.

Mas a hipótese da higiene – e, quando o assunto é alergia, a relação inversa entre processos de industrialização e saúde – tem se mostrado assertiva. À medida que nosso corpo luta por equilíbrio, a Avenida Madison tem edificado uma fortaleza em favor de mais higiene, que pode, às vezes, nos prejudicar.

Temos sido bombardeados continuamente por um marketing da higiene que começou no fim dos anos 1800, segundo um estudo recente publicado em 2001 pela Associação de Profissionais de Controle Infeccioso e Epidemiológico. Cientistas da Universidade Columbia que lideraram a pesquisa tentavam entender como nos tornamos fãs tão incondicionais de produtos de limpeza.

Alguns destaques:

– O catálogo da Sears no começo dos anos 1900 trazia propaganda massiva de "amônia, bórax, sabão em pó e sabonetes para higiene pessoal".

– "Entre o início e a metade dos anos 1900, a produção de sabão nos Estados Unidos cresceu 44 por cento", coincidindo com "relevantes melhorias no fornecimento de água, descarte de detritos e sistemas de esgoto."

– Esse tipo de propaganda perdeu força nos anos 60 e 70, quando antibióticos e vacinas começaram a ser vistos como a resposta para agentes infecciosos, dando-se menos ênfase à "responsabilidade pessoal".

– Mas então, a partir do fim da década de 80, o mercado dos produtos de higiene – tanto para a casa quanto os de uso pessoal – cresceu 81 por cento. Os autores citam uma "volta da preocupação pública com a proteção contra doenças infecciosas", e é difícil não pensar na Aids como parte desse foco. Se você é marqueteiro, nunca deixa passar a oportunidade de uma crise. E as mensagens impactaram.

– O estudo cita uma pesquisa da Gallup de 1998 que descobriu que 66 por cento dos adultos se preocupavam com vírus e bactérias e 40 por cento acreditavam que esses micro-organismos estavam se alastrando cada vez mais. A Gallup também observou que 33 por cento dos adultos "expressaram a necessidade de higienizadores bactericidas para proteger o ambiente da casa" e 26 por cento acreditavam que esses tipos de produtos eram necessários para proteção do corpo e da pele.

Abordando o risco de maneira errada

Eles estavam errados. E até mesmo os médicos erraram. Estes receitavam indiscriminadamente antibióticos, os quais podem ser extremamente benéficos para um sistema imune enfrentando uma infecção que, sem eles, seria mortal. Porém, quando usados sem necessidade, as drogas podem acabar com micróbios saudáveis do nosso estômago e levar bactérias a desenvolver defesas que as tornam ainda mais letais.

Um cientista, que liderou esforços na Organização Mundial da Saúde para desenvolver uma política global que limite o uso de antibióticos, contou-me que, filosoficamente, esta é uma lição que bate de frente contra um século de marketing: não estamos mais seguros quando tentamos eliminar todos os riscos à nossa volta. "Precisamos nos livrar da ideia de aniquilar essas coisas do nosso ambiente local. É apenas uma maneira de explorar certo medo", argumentou o cientista, o dr. Keiji Fukuda.

Grande parte da nossa higiene é prática, valiosa e tem preservado vidas? Sim.

Exageramos na reparação? Às vezes. Você deve cutucar o nariz? Ou, colocando de outra maneira: será que aquela vontade de cutucar o nariz é parte de uma estratégia primitiva para informar seu sistema imune sobre um espectro de micróbios no ambiente, forçar esse vigilante a agir e treinar nossa mais elegante forma de defesa?

Sim. Talvez.

Em resumo: do ponto de vista cultural, provavelmente você não deve enfiar o dedo no nariz – pelo menos, não em público. Mas é uma questão científica surpreendentemente respeitável.

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