As novas vozes da divulgação científica
18 de março de 2019
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Por Dinler Antunes, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA).

Durante minha graduação na UFRGS eu andei muito de ônibus. Além de ter aulas em múltiplos campi pela cidade, a maior parte das atividades na minha graduação e da minha pós-graduação foram realizadas no Campus do Vale, que fica a mais de 40 minutos do centro de Porto Alegre. As vezes eu dormia, as vezes eu lia, mas logo descobri que a coisa mais prática era resgatar uma tecnologia do passado: o rádio. Adepto da televisão, eu nunca tinha sido ouvinte de rádio. Mas o fato de poder ficar escutando notícias enquanto fazia outras atividades me ajudou a aproveitar um tempo significativo do meu dia que estava sendo desperdiçado. No ônibus, na academia, realizando tarefas domésticas, cada vez eu descobria novas atividades que podiam ser combinadas com o rádio.

Embora eu ainda goste de escutar rádio em alguns momentos do dia, em grande parte eu substitui o rádio por outro veículo que me permite controlar a pauta: o podcast! Os principais smartphones tem aplicativos que permitem assinar canais específicos e receber conteúdo de qualquer tópico de interesse, incluindo notícias, opinião, cultura pop, e até ciência. No meu caso, a introdução a este universo se deu pelo nerdcast, o podcast do Jovem Nerd. O nerdcast foi um dos primeiros canais a se popularizar no Brasil, combinando cultura pop com conteúdo científico. Mas aos poucos vários outros canais mais específicos de divulgação científica foram surgindo, em muitos casos preparados e apresentados voluntariamente por pesquisadores e acadêmicos.

Sarah Azoubel e Beatriz Guimarães do podcast 37 Graus. Imagem publicada pela Revista Pesquisa FAPESP.

Este tema foi abordado em uma reportagem recente na revista Pesquisa FAPESP (Microfones abertos para a ciência). A reportagem destaca o Alô, Ciência?, um podcast produzido e apresentado por quatro Biólogos formados pela USP. Quatro pesquisadores e um podcast também descreve um outro canal bem mais antigo, o Fronteiras da Ciência (nove temporadas e mais de 350 programas!!). Neste caso, produzido e apresentado por quatro físicos da UFRGS. A reportagem destaca ainda alguns campeões de audiência, incluindo o SciCast, produzido por 90 voluntários (média de 90 mil downloads por episódio!!), e o Naruhodo!, apresentado por um estatístico e psicólogo, e um publicitário.

A reportagem da Pesquisa FAPESP também traz algumas estatísticas sobre o público que escuta podcasts no Brasil. Segundo dados de um levantamento realizado com 22 mil ouvintes pela Associação Brasileira de Podcasters (PodPesquisa 2018), 84% do público de podcasts no Brasil é masculino. Mas pelo menos na parte de produção de conteúdo o quadro está começando a mudar. Um exemplo é o 37 Graus, produzido e apresentado pela bióloga Sarah Azoubel e a jornalista Beatriz Guimarães. A proposta do 37 graus é um pouco diferente. Cada episódio conta uma história, a qual aborda temas científicos. Os episódios são bem elaborados e demandam um trabalho ainda maior do que outros podcasts de divulgação. Mas a dupla já confirmou pelo menos duas novas temporadas, viabilizadas por um financiamento do Instituto Serrapilheira para iniciativas de divulgação científica.

Outro podcast com uma equipe bem diversa (18 pesquisadores e estudantes, no Brasil e no exterior), e um dos meus favoritos na atualidade, é o Dragões de Garagem. Eu recomendo muito um episódio sobre Evolução, com a Dra. Gabriela Sobral, e o episódio mais recente sobre Mulheres na Ciência, com a participação da Dra. Márcia Barbosa. Professora do Instituto de Física da UFRGS e Diretora da Academia Brasileira de Ciências, Márcia Barbosa explica neste episódio que todos os pesquisadores “têm que ser capazes de explicar o que fazem, para uma pessoa com qualquer formação, em um nível que ela possa entender”.

Para mim, este é um ponto chave para o momento em que vivemos, e para as aspirações que temos como civilização. Eu frequentemente cito as palavras “proféticas” de Carl Sagan, em sua última entrevista, dizendo que “nós criamos uma sociedade baseada em ciência e tecnologia, na qual ninguém entende nada sobre ciência e tecnologia”. E o grande problema é que assim nós criamos um abismo entre os acadêmicos e todo o restante da população, frequentemente tomando decisões (enquanto sociedade) que ignoram tudo que descobrimos em décadas de pesquisas científicas. Assim, todos os esforços no sentido de fazer divulgação científica para leigos e de reduzir este distanciamento entre a academia e a sociedade em geral, são tão importantes quanto os esforços “formais” de ensino, pesquisa e publicação científica. Fazer divulgação científica para leigos deveria ser visto como parte das atribuições de qualquer pesquisador, e o tempo dedicado para este tipo de trabalho deveria ser propriamente reconhecido e valorizado.

Este universo de podcasts voltados a divulgação científica representa um ótimo instrumento neste sentido e os pesquisadores desenvolvendo este trabalho estão começando a receber algum reconhecimento. Mas ainda há muito trabalho pela frente. A PodPesquisa 2018, citada na reportagem da Pesquisa FAPESP, também revela que aproximadamente 60% dos ouvintes de podcast no Brasil estão fazendo ou concluíram um curso superior, enquanto outros 20% têm pós-graduação. Ou seja, estes ótimos esforços de divulgação científica ainda estão em grande parte restritos à própria academia.

Neste sentido os canais de divulgação científica no YouTube tem conseguido alcançar um público bem mais abrangente. Canais estabelecidos como o Nerdologia e o Canal do Pirula tem episódios que alcançam quase um milhão de visualizações. Este público está atraindo inclusive alguns veteranos da divulgação científica para leigos, como o físico Marcelo Gleiser, que apresentou a série Poeira das Estrelas (uma das poucas séries de divulgação científica produzida pela televisão nacional). Gleiser recentemente criou seu próprio canal no YouTube, no qual irá apresentar o curso “O Caminho da Boa Vida”. Em artigo da Socientífica, ele explica que irá explorar “como nossa conexão com o planeta e universo, inspirado pela ciência de ponta, pode nos ensinar a viver melhor, garantindo o futuro da humanidade”. Mas o youtube, assim como a podosfera, também está criando espaço para muitas novas vozes na divulgação científica, uma diversidade que motivou a criação do selo de qualidade Science Vlogs Brasil. E novas vozes surgem a cada dia, como o Canal das Ciências de Vinicius Schvartz (9 anos). 

Mas certamente não devemos nos restringir aos podcasts e vlogs. Devemos utilizar todas as mídias disponíveis, do Twitter `a tirinha do jornal. Obviamente não estou defendendo que todas as nossas atividades devam ter um cunho científico, mas que os temas científicos sejam popularizados até se tornarem tópicos corriqueiros, pois são um componente integral da nossa cultura e da nossa sociedade.


* A imagem de capa foi obtida do episódio 100 do Dragões de Garagem, mostrando algumas das pesquisadoras que contribuem para o canal. 

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Repórter colaborador SBI/NcgCE
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