Atualização sobre o novo Coronavírus e as tentativas de estimar sua letalidade
07 de março de 2020
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(Localização dos casos confirmados de COVID-19 até o dia 6 de Março de 2020; dados da OMS)

Por Dinler Antunes, Bacharel em Biomedicina pela UFRGS, Mestrado e Doutorado pelo PPGBM/UFRGS e pós-doutorado pela Rice University (Texas/EUA).

O dia 20 de Janeiro de 2020 marcou a confirmação, pelo CDC, do primeiro caso do novo coronavirus (SARS-CoV-2) nos EUA. O paciente havia viajado para a região de Wuhan na China (origem da epidemia de COVID-19), e começou a perceber sintomas após retornar a cidade de Seattle (estado de Washington, EUA) no dia 15 de Janeiro. Conforme relatado pelo Daily (New York Times podcast), o individuo procurou atendimento e as devidas medidas foram tomadas para tentar conter a disseminação do vírus. Ele foi colocado em quarentena em um hospital, suas amostras foram enviadas ao CDC para diagnóstico (que confirmaram a presença do vírus), e as autoridades começaram a rastrear as pessoas potencialmente expostas ao vírus (semelhante com o que foi feito no Brasil, após a confirmação do primeiro caso). Eles identificaram mais de 60 de pessoas que ficaram em observação, mas nenhuma delas apresentou sintomas nas duas semanas seguintes. De fato, as autoridades também estavam controlando todas as pessoas vindas da China, e nenhum novo caso foi reportado nas seis semanas após a confirmação do primeiro caso. Em uma nota no dia 27 de Fevereiro as autoridades tranquilizaram o público, dizendo que o risco de infecção pelo vírus era baixa para os moradores do estado de Washington.

No entanto, um dia depois, as coisas começaram a mudar. Dois outros casos foram confirmados, incluindo uma adolescente que não havia viajado e nem tido contato com alguém que tivesse trazido a doença de fora. E depois disso foi uma escalada, incluindo a primeira morte por COVID-19 nos EUA. No momento em que escrevo este texto, são 102 casos confirmados e 16 mortes, apenas no estado de Washington. Além disso, no dia 1 de Março o New York Times relatou que pesquisadores de Seattle determinaram que os novos casos estavam ligados ao caso detectado inicialmente. Ou seja, a análise genômica determinou que o vírus nestes novos pacientes era derivado do vírus do primeiro paciente, embora nenhum contato direto ou indireto entre eles tenha sido determinado. Isso significa que muitas outras pessoas na região foram infectadas durante este período de 6 semanas (estimativas sugerem entre 150 e 1500 pessoas), mas elas não apresentaram sintomas e não foram rastreadas.

O exemplo de Seattle reflete o que está acontecendo na maioria dos países, com exceção da China. Embora as informações não sejam muito claras sobre o começo da epidemia e sobre a atuação inicial das autoridades locais, o que sabemos é que durante o mês de Janeiro o governo Chinês atuou de forma contundente para bloquear o tráfego de pessoas e controlar a epidemia. Estas medidas certamente contribuíram para limitar a "velocidade" da epidemia dentro da China, que agora progride de maneira estável. No entanto, a expectativa de restringir a disseminação do vírus ao local de origem da epidemia, falhou. Segundo dados atuais da OMS, casos do vírus foram reportados em 89 países (mapa acima), totalizando até o presente momento 21.114 casos e 413 mortes fora da China. Na China foram 80.813 casos e 3.073 mortes até o momento.

Progressão dos casos confirmados de COVID-19 fora da China, até dia 7 de Março de 2020. Fonte: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200307-sitrep-47-covid-19.pdf?sfvrsn=27c364a4_2

Além disso, o modelo Chinês de resposta não poderia ser replicado na maioria dos demais países, incluindo Brasil e EUA. Mesmo que houvesse recursos financeiros para tanto, não seria possível colocar cidades inteiras em quarentena. Finalmente, mesmo quando a resposta adotada pelas autoridades parecia ter sido adequada, como no caso de Seattle, visivelmente não foi o suficiente. Em outras palavras, a COVID-19 se espalhou pelo mundo e o número de casos vai continuar a crescer nos próximos meses a medida que mais pessoas são testadas nos diferentes países.

A notícia boa, como salientado por diversos especialistas, é que não há motivo para pânico. Embora seja impossível prever exatamente o padrão de disseminação e a taxa de letalidade do vírus nos diferentes países, os dados disponíveis sugerem uma taxa de letalidade mais baixa do que havia sido inicialmente relatado. Uma parte da dificuldade em se estimar a letalidade desta doença deriva justamente do fato de não termos como saber o número total de infectados. Quantas pessoas se infectaram mas não apresentaram sintomas? Quantas pessoas tiveram sintomas tão brandos que ninguém ficou sabendo? Outra incógnita nesta equação diz respeito ao padrão do sistema de saúde de cada país, e a facilidade com as pessoas que tiverem complicações vão ter acesso ao tratamento necessário. Por exemplo, a Alemanha já tem 639 casos confirmados, mas nenhuma morte.

Uma estimativa inicial dos pesquisadores Chineses, considerando 72 mil casos, reportou uma letalidade de 2,3%. Este valor é muito superior a letalidade de 0,1% da gripe comum, mas é bem mais baixo que a letalidade de algumas epidemias anteriores de coronavirus, como SARS (~10%) e MERS (~34%). Os dados mais recentes da OMS, considerando todos os países, apontam para uma letalidade mais alta, de 3,4%. Mas pelos motivos citados acima, esta taxa esta provavelmente inflada, e deverá cair a medida que mais pessoas são testadas e mais casos são confirmados (o que poderia confirmar o "hunch" do presidente Trump). Jeffery Taubenberger, virologista do NIAID (National Institute of Allergy and Infectious Diseases) e especialista em pandemias de gripe, estima que a letalidade nos EUA deva ficar em torno de 1,1%. É importante salientar que a maior parte da letalidade antecipada se refere a indivíduos idosos, ou com outros problemas de saúde, sobretudo respiratórios.

https://www.reddit.com/r/comics/comments/fdy9m0/ a_guide_to_proper_handwashing_for_coronavirus_oc/

No Brasil já são 19 casos confirmados. Assim como em Seattle, a situação deve mudar rapidamente nas próximas semanas. O Ministério da Saúde anunciou que vai reforçar a capacidade de atendimento das unidades de saúde da família, e ampliar o número de leitos de UTI. Enquanto isso, lembre-se de limpar as mãos constantemente e evite tocar no rosto a qualquer custo. E não se preocupe em comprar máscaras, a menos que você seja um trabalhador da área da saúde. Se você é saudável, a máscara não vai ajudar muito e pode até aumentar o risco de infecção (se te fizer tocar no rosto com mais frequência ou deixar seu rosto suado). Se você está com sintomas de resfriado, a máscara pode sim ajudar a proteger os outros. Mas a forma ainda mais eficiente de proteger os outros é ficar em casa, onde você não precisa de máscara. Outra dica: não adianta lavar as mãos constantemente e não limpar o celular que acumula toda a sujeira das suas mãos ao longo do dia.

Para saber mais:

Cartilha com informações básicas sobre a COVID-19:
https://mailchi.mp/ca1cb3c43f75/informaes-sobre-o-coronavrus-covid-19

Coronavírus: saiba o que é, como tratar, se prevenir e últimas notícias (Ministério da Saúde):
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/coronavirus

SBI EXPLICA: NOVO CORONAVÍRUS - Detalhes Científicos:
https://sbi.org.br/2020/02/27/sbi-explica-novo-coronavirus-detalhes-cientificos/

Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) Situation Summary (CDC):
https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/summary.html

Coronavirus disease (COVID-2019) situation reports (OMS):
https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/situation-reports/

PUBLICADO POR
Repórter colaborador SBI/NcgCE
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