O estresse e suas marcas no folículo piloso: uma resposta neuroimune
06 de abril de 2026
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Autores: Christian Alves e Maísa Leandro
Editora: Profa Vanessa Carregaro

Seminário apresentado na disciplina Tópicos Avançados de Imunologia do Programa de Pós-Graduação em Imunologia Básica e Aplicada da FMRP-USP.

 

O estresse e queda de cabelo são frequentemente associados no senso comum, mas a relação entre ambos nem sempre é explicada com precisão biológica. Em um estudo publicado na Cell em janeiro de 2026, intitulado "Stress-induced sympathetic hyperactivation drives hair follicle necrosis to trigger autoimmunity", Emily Scott-Solomon e colaboradores1 propuseram um mecanismo convincente para essa associação ao mostrar que o estresse pode provocar lesão no folículo piloso e, em determinadas condições, favorecer o surgimento posterior de uma resposta autoimune.

O trabalho sugere que o estresse pode induzir alterações locais bastante definidas. Em um modelo experimental em camundongos, os autores observaram que a indução de estresse leva à perda de pelos acompanhada de lesão em células proliferativas do folículo piloso, especialmente aquelas responsáveis pela formação do pelo durante a fase de crescimento. Em contraste, as células-tronco mais quiescentes do folículo permaneceram relativamente preservadas, sugerindo que o estresse não afeta o tecido de forma homogênea, mas atinge preferencialmente populações celulares metabolicamente ativas. Esse efeito foi dependente da hiperativação simpática, já que o bloqueio experimental dessa via preveniu os efeitos de perda de pelo e lesão folicular.

A natureza da lesão também mostrou ser relevante. Em vez de um processo silencioso de morte celular, os autores identificaram sinais compatíveis com necrose, um tipo de morte celular que favorece inflamação e exposição de conteúdo intracelular ao sistema imune. Essa observação ajuda a explicar por que o impacto do estresse sobre o folículo pode ir além da perda estrutural imediata e adquirir relevância imunológica. A análise molecular do tecido mostrou ainda que as células mais vulneráveis ao estresse apresentavam aumento de genes relacionados à captação de cálcio, um dado relevante porque o desequilíbrio desse íon pode comprometer o metabolismo celular e propiciar morte tecidual.

A necrose inicial foi acompanhada por uma resposta inflamatória transitória na pele, com recrutamento precoce de células mieloides. Embora essa fase aguda parecesse se resolver rapidamente, os autores mostraram que ela não era biologicamente inócua. Houve aumento de células dendríticas nos linfonodos drenantes e ativação de linfócitos TCD8+, sugerindo que a lesão do folículo piloso poderia criar um ambiente favorável à apresentação de autoantígenos e à sensibilização do sistema imune adaptativo.

Para analisar a consequência funcional dessa ativação, foi realizado um experimento de transferência de linfócitos TCD8+ de animais previamente submetidos ao estresse para camundongos imunodeficientes. Os autores observaram o aparecimento de lesões na região do folículo piloso, indicando que a resposta gerada nesse contexto tinha, de fato, potencial patogênico.

Ainda assim, o trabalho mostra que o estresse, isoladamente, não parece ser suficiente para sustentar uma resposta autoimune espontânea. Foi necessário um segundo estímulo inflamatório para que surgissem nova lesão tecidual e infiltração de células T nos folículos. Esse resultado sustenta um modelo em duas etapas: primeiro, o estresse induz lesão e sensibilização imunológica; depois, um novo sinal inflamatório fornece as condições necessárias para a manifestação efetiva da resposta autoimune.

O estudo amplia a compreensão sobre como experiências fisiológicas sistêmicas, como o estresse, podem repercutir de forma concreta sobre tecidos periféricos e, a partir deles, influenciar a imunidade. Mais do que reforçar uma percepção popular, ele oferece uma contribuição conceitual importante ao mostrar que a quebra de tolerância pode começar não apenas por disfunções intrínsecas do sistema imune, mas também por alterações teciduais induzidas por circuitos neurobiológicos.

Isso não significa, evidentemente, que episódios cotidianos de estresse expliquem, por si só, doenças autoimunes ou toda forma de queda de cabelo. Mas o trabalho ajuda a compreender por que, em certos contextos, o estresse pode deixar marcas mais profundas do que se imaginava: marcas que começam no tecido, atravessam o sistema nervoso e podem, sob circunstâncias específicas, repercutir na imunidade.

Fig. 1: O estresse induz queda de pelo por um mecanismo em duas etapas. Inicialmente, a hiperativação simpática promove necrose das células proliferativas do folículo piloso, levando à liberação de autoantígenos e à inflamação local. Esse ambiente favorece a ativação de linfócitos T CD8+ autorreativos que, na presença de um segundo sinal inflamatório, promovem a manifestação efetiva da resposta autoimune.

Referências

  1. Scott-Solomon E, Brielle S, Mann AO, et al. Stress-induced sympathetic hyperactivation drives hair follicle necrosis to trigger autoimmunity. Cell. 2026;189(1):252-271.e19. doi:10.1016/j.cell.2025.10.042
PUBLICADO POR
SBI Comunicação
Colunista Colaborador
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