Terapia com células-tronco de tecido adiposo: uma nova alternativa para as manifestações vasculares na esclerose sistêmica
21 de dezembro de 2021
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Autores: Djúlio César Zanin, Maynara Santana, Maria Carolina Oliveira, Kelen C. R. Malmegrim de Farias

Grupo de Pesquisa em Terapias Celulares e Imunológicas da FCFRP/FMRP-USP

A esclerose sistêmica (ES) é uma doença autoimune marcada por fibrose da pele e de órgãos internos, desregulação imunológica e dano vascular difuso. Acredita-se que a vasculopatia seja o evento inicial na patogênese da doença, sendo uma das primeiras manifestações clínicas o fenômeno de Raynaud (RP), caracterizado por mudanças sequenciais de cor dos dedos das mãos e ocasionado por vasoespasmos das arteríolas musculares digitais. Nas mãos, a progressão do dano vascular também pode levar à isquemia tecidual, com o aparecimento de úlceras digitais (DU), que afetam a qualidade de vida e conferem pior prognóstico aos pacientes. De modo semelhante, lesões isquêmicas podem comprometer outros órgãos, como os rins e o coração. Idealmente, o tratamento das manifestações vasculares deve ser precoce para prevenir danos irreversíveis aos tecidos, porém muitas vezes o paciente apresenta lesões já ao diagnóstico de esclerose sistêmica. Nas últimas décadas, diferentes abordagens utilizando terapias celulares têm sido investigadas para tratar pacientes com ES. Uma delas é a aplicação local de tecido adiposo ou de células-tronco estromais mesenquimais derivadas de tecido adiposo (ADSCs), que apresentam grande potencial para remodelamento vascular e regeneração do tecido lesionado.

As ADSCs são células multipotentes que residem na chamada “porção estromal vascular” (SVF), um produto obtido a partir do tecido adiposo branco, contendo diferentes subpopulações de células estromais e imunológicas. Sugere-se o uso das ADSCs devido à sua facilidade de isolamento, abundância e rápida expansão. Além disso, estas células apresentam propriedades imunossupressoras e intensa atividade angiogênica, o que está principalmente relacionada à liberação do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). Diferentes estudos clínicos demonstram benefícios do transplante de tecido adiposo ou de tratamentos baseados no uso da SVF/ADSCs para pacientes com ES, em especial, para lesões em face e mãos.

A aplicação local de tecido adiposo autólogo na região perioral de pacientes com ES está relacionada a melhorias significativas na abertura da boca e evidências de neovascularização da pele. Além disso, este tipo de tratamento promove benefícios para alguns dos sintomas do RP, como a dor e os ataques de frio. Para as DU, a terapia local pode proporcionar cicatrização completa e aumento significativo da densidade de capilares, ainda possibilitando redução nas dosagens de analgésicos. Benefícios similares têm sido vistos com o uso de injeções locais de SVF: alívio no RP, na dor nas mãos e no edema nos dedos dos pacientes. Vale ressaltar que algumas abordagens têm sido utilizadas para melhorar a sobrevida e o troficidade do enxerto. Dentre elas, o plasma rico em plaquetas fornece nutrientes e aumenta a proliferação das ADSCs. Dessa forma, a combinação de SVF autólogo e plasma rico em plaquetas também demonstrou boa eficácia em aumentar a densidade dos vasos capilares em pacientes com ES.

Entretanto, alguns trabalhos têm demonstrado que ADSCs isoladas de pacientes com ES podem exibir distúrbios na proliferação, metabolismo e potencial de diferenciação, sugerindo que, apesar dos efeitos benéficos, as ADSCs autólogas podem não atingir seu potencial total no reparo tecidual. Para o futuro, mais esforços são necessários para investigar como esta abordagem interfere na patogênese da doença e seu potencial para uso sistêmico.

 

Figura 1. Representação esquemática do trabalho de Rosa e colaboradores (2021). A extração da fração vascular estromal do tecido adiposo branco e posterior isolamento das células-tronco  estromais mesenquimais envolve inicialmente a coleta de gordura por lipoaspiração, seguida de processos de lavagens e digestão enzimática, com o objetivo de liberar a “mistura” de células incorporadas na matriz extracelular entre os adipócitos. Logo após, centrifuga-se o material, assim separando a SVF dos adipócitos maduros. Para o tratamento das lesões cutâneas faciais e digitais de pacientes com esclerose sistêmica, tanto a SVF autóloga, quanto as ADSCs também autólogas, expandidas in vitro, podem ser injetadas localmente. ADSC: células-tronco estromais mesenquimais derivada do tecido adiposo; SVF: fração vascular estromal.

 

Referência:

ROSA, I. et al. Adipose-derived stem cells: Pathophysiologic implications vs therapeutic potential in systemic sclerosis. World J Stem Cells, v. 26, n. 1, p. 30-48, 2021. doi: 10.4252/wjsc.v13.i1.30

PUBLICADO POR
SBI Comunicação
Colunista Colaborador
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