A imunidade e a leitura de imersão
16 de setembro de 2020
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Nelson Vaz

Como professor de imunologia, estou muito ligado a estes dois assuntos. O primeiro por motivos óbvios, mas o segundo requer definição.

O termo cérebro leitor (the reading brain) foi usado como subtítulo por Maryanne Wolf, educadora com experiência em neurobiologia cognitiva experimental, interessada em manifestações de dislexias na atividade cerebral, em seu livro Proust and the Squid: The Story and Science of the Reading Brain, Wolf, M. (2010).Cambridge: Icon Books. Neste livro ela relata que se deu conta de um problema mais amplo e mais atual e escreveu  Reader, come home. The reading brain in a digital world, Wolf, M. (2014).New York: Harper Collins; traduzido como  O cérebro no mundo digital. Os desafios da leitura na nossa era.” Contexto, São Paulo, 2019.  Neste livro ela discute a perda de empatia e da capacidade para aceitar e adotar a perspectiva de outros que a leitura de imersão promove. A comunicação estabelecida na utilização de artefatos digitais é de outra natureza. Há algum inconveniente no termo “cérebro digital” — um equívoco mereológico; uma confusão de partes e todos; o que se perde é o hábito da leitura, isto é, uma conduta habitual, que depende de muito mais coisas que o cérebro. Mas o problema levantado por Wolf é importante.

Cheguei ao problema da leitura no mundo digital através de um livro impressionante do antropólogo político (anarquista) James Scott sobre a invenção da agricultura de cereais em campo fixo — “Against the Grain. A deep history of the earliest states” (New Haven, Yale, 2017). Este livro mudou o que eu pensava sobre a imunidade, que é o outro tema deste texto, mas mudou também o que eu pensava sobre o viver na linguagem humana. Quando eu li a frase de Scott: “A prior invenção humana foi a escrita”, pensei eu: Como pode isto ser sequer imaginado? A escrita foi a maior invenção humana! Mas, a escrita não foi inventada como literatura, mas sim como uma prática cartorial, ligada à agricultura. Através da surpresa que esta frase me criou, cheguei ao texto clássico de Walter Ong (1982) Oralidade e literalidade. A tecnologização da palavra. London: Routledge, que é denso e difícil, mas imperdível e ainda atual. Ong descreve enormes diferenças entre a linguagem oral/aural (falada/ouvida) e a linguagem escrita. Ele escreve antes da revolução digital começar plenamente, mas, mesmo assim, sua crítica é muito pertinente aos dias de hoje. Depois achei o artigo de Nicholas Carr (2011) Como o Google está nos tornando estúpidos e  seu livro A Geração Superficial: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros” — e fui levado a rever coisas que conhecia superficialmente sobre Marshall McLuhan (1964) “Understanding Media”; London, Sphere Books —e sua frase famosa “O meio é a mensagem”. Finalmente cheguei a Maryanne Wolf e a proposta da ameaça ao cérebro leitor.

A ideia do cérebro leitor se refere à capacidade habitual e entusiasmada de de ler prolongada e diuturnamente — a leitura de imersão — que costumava ser um de meus hábitos desde a infância. Aos 10 anos, minha madrinha me deu a coleção inteira dos livros Terra Mar e Ar, e, acreditem, eu li todos aqueles livros com prazer emocionado. A leitura de vários livros de Tarzan me fez imaginar nitidamente os habitantes da floresta e também as praias da A Ilha do Tesouro. Hoje me sinto afetado e me inquieto quando leio mais demoradamente um livro. Percebo a ocorrência de sintomas muito mais graves que os meus nas pessoas com quem convivo, principalmente nas mais jovens, como os estudantes universitários aos quais atendo. Certamente isto é ainda mais pronunciado em crianças que surpreendem os adultos pela facilidade com que usam seus tablets e celulares. Já sinto e me surpreendo com um certo desconforto ao inicial a leitura de um livro de 300 páginas. O entusiasmo ainda está presente: nesta avalanche de informação, nunca pensei que eu não soubesse tanta coisa importante! —mas já não consigo me concentrar por horas seguida em um mesmo livro; leio vários livros ao mesmo tempo e a maior parte deles na tela do computador.

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A ideia de imunidade a doenças infecciosas é mais popular que discussões sobre a leitura ,e atualmente é o assunto mais popular do mundo. Quando chegarão as vacinas para o novo coronavírus? Mas a ideia de vacinas e de imunidade, justificadamente, é muito mal compreendida, porque diz respeito ao mundo invisível de vírus e micróbios. Chamar de “miasma” ou de coronavírus aquilo que nos contagia é igualmente misterioso e amedrontador.

Para o público, estar imune a uma doença significa ser exposto ao agente infeccioso que causa esta doença e não adoecer. Mas há modos diferentes de não adoecer. O organismo pode disparar alarmes ao ser invadido e mobilizar mecanismos específicos — como anticorpos e linfócitos T — que detectam e desencadeiam processos que eliminam o vírus ou micróbio. Isto pode ocorrer depois de um período de sintomas dos quais se convalesce, ou, pode mesmo passar desapercebido e há mesmo organismos que estabelecem uma convivência harmônica com vírus ou micróbios patogênicos, convivência que pode ser curta ou permanente. Estes organismos que permanecem “assintomáticos” ou “portadores sãos” são um problema que a medicina simplesmente não entende. Eles organismos não estão “imunes”, pois não eliminaram o vírus; mas não o ignoram, porque formam anticorpos e ativam linfócitos que reagem com o mesmo. Os “portadores sãos” enfraquecem gravemente a forma usual de ver e entender a imunidade.

Antes, já era difícil entender os “portadores sãos”, mas, nas últimas décadas nos demos conta de um “mundo microbiano” centenas de vezes maior e mais diversificado e ubíquo, e também aprendemos mais sobre o papel dos vírus na dinâmica dos seres vivos. Uma frase de efeito em um artigo é: “Nunca fomos indivíduos!” (Gilbert, Sapp and Tauber, 2012). Parecemos mais com condomínios, tantos são os seres vivos que co-habitam nossos corpos — somos apenas “10% humanos” (Collen, 2020). Tão amplo e variado é este turbilhão de vírus e micróbios que confunde aquilo que consideramos doentio ou saudável! Isto confundiu ainda mais a história da imunidade anti-infecciosa.

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A história da imunidade anti-infecciosa é contada por um ângulo médico e, geralmente, começa com a história das vacinas no século 18, com Jenner e sua vacina contra a varíola, e segue com o trabalho de Pasteur, no século 19, o primeiro a inventar vacinas no laboratório, com germes atenuados. Depois a história descreve a invenção dos primeiros anticorpos — as anti-toxinas contra a tétano e a difteria — e a soroterapia de crianças com difteria por anticorpos produzidos em animais. As vacinas, os anticorpos, a soroterapia  e o laboratório de análises clínicas levaram à criação da imunologia como uma investigação sobre a natureza e o controle das doenças infecciosas.

Mas a história da imunidade a doenças começa há cerca de 10 mil anos antes disso, no período neolítico, quando o homem inventou o cultivo de cereais em campo fixo e domesticou uma variedade de mamíferos e aves. Vírus e micróbios “transbordaram”desses animais e desencadearam epidemias devastadoras, como relata James Scott em Against the Grain. Isto é muito significativo porque, em termos do tempo geológico, este é um período relativamente curto e recente: 10 mil anos representam um décimo da terça parte da idade do Homo sapiens no planeta, orçada em 300 mil anos. Como seria a imunidade humana nos 290 mil anos que antecederam este período; ou nos milhões de anos de vida de nosso ancestral, o Homo erectus? Scott, em “Against the Grain” sugere uma origem cultural para as doenças infecciosas agudas, que podem desenvolver um carácter epidêmico, ou, como a covid-19 nos atinge agora, pode adquirir um carácter pandêmico. As epidemias não são fenômenos naturais, não ocorreriam na natureza sem a interferência do ser humano.

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Meu tema, portanto, é muito complicado. Ao mesmo tempo, quero considerar o “hábito da leitura de imersão” porque dependemos desta atividade para entender a imunidade e para nos livrarmos deste desconhecimento geral de que vivemos imersos em uma enorme massa de pessoas que, basicamente, vivem em um mundo linguístico oral/aural. Se a diferença entre estes dois mundos for significativa — como certamente é — então convivemos com um problema muito grave e invisível. Do lado oposto aos habitantes da realidade oral/aural, e muito adiante do “cérebro leitor” e trabalhando contra ele, há desenvolvimentos assustadores, como o GPT-3: um aplicativo capaz de digitar textos por si mesmo, que passam no teste de Turing, isto é, parecem escritos e concebidos por um ser humano. Combine esta informação com o problema das  fake news e seu envolvimento na política, como o descrito na Inglaterra pelo The Guardian no filme “The Great Hack” (Netflix), que termina afirmando que atualmente a Inglaterra não está em condições de promover uma eleição democrática.

Além disso, há o outro problema com o invisível: a imunidade ao vírus da pandemia. Grande parte das pessoas infectadas pelo novo coronavírus e a enorme maioria das crianças, se comporta como “portadores sãos” e, como mencionei, o conhecimento sobre este estado de coisas ainda é extremamente precário. Entendê-lo melhor requer uma outra maneira de ver a imunologia inteira. E temos que fazer toda esta ginástica intelectual encharcados por tsunamis de notícias desvinculadas e provavelmente inúteis, muitas as quais são fake news.  Que os orixás da Bahia nos protejam.

Bibliografia original

Carr, N. (2011). A geração superficial: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro (tradução Mônica Gagliotti Fortunato Friaça): Agir.

Carr, N. (2010). "The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains.”. New York: W.W. Norton & Company.

Collen, A. (2016). 10% Humano. Como os micor-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente. Rio de Janeiro: Sextante.

Gilbert, S. F., Sapp, J., & Tauber, A. I. (2012). A Symbiotic View of Life: We Have Never Been Individuals. Quarterly Review of Biology, 87, 326-341. doi:http://dx.doi.org/10.1086/668166

McLuhan, M. (1964). Understanding media.

London: Sphere Books Ltd.

Ong, W. J. (1982). Orality and Literacy. The technologizing of the word.

London: Routledge.

Scott, J. C. (2017). Against the grain. A deep history of the earliest sates. New Haven: Yale University Press.

Wolf, M. (2018). O cérebro no mundo digital. Os desafios daleitura em nossa era. São Paulo; (tradução de Rodolfo Hilari e Mayumi Hilari): Editora Contexto.

Wolf, M. (2014). Reasder, come home. The reading brian in a digital world. New York: Harper Collins.

Wolf, M. (2010). Proust and the Squid: The Story and Science of the Reading Brain, . Cambridge: Icon Books.

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