A natureza do problema
10 de setembro de 2020
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A natureza do problema
Nelson Vaz
Na imunologia, são sabemos sequer quais são as perguntas relevantes.
# O sistema linfocitário é um aspecto dominante da atividade imunológica, principalmente no esclarecimento da imunidade específica, por exemplo, seu papel na imunidade anti-infecciosa e como alterá-la, por exemplo, com vacinas. Mas isto levanta várias questões. A “imunidade inata”, é obviamente importante mas o conceito de processos “inatos” (herdados) na imunologia é obsoleto e mal colocado. Atualmente, há um campo de conhecimentos conhecido como “tolerância a doenças” (ver Yeager, 2019) que ajuda a esclarecer o que se passa.

# Apenas vertebrados possuem linfócitos; apenas 6% das espécies animais são de vertebrados e quanto ao número de indivíduos esta porcentagem se reduz a um fiapo; e apenas os seres humanos (8 bilhões) e espécies domesticadas (galinhas, 20 bilhões), bois, 10 bilhões) atingem proporções maiores. Ou seja, a imensa maioria dos animais (94% das linhagens) vive sem linfócitos e interage de outras maneiras com proteínas de micróbios, vírus e parasitas e proteínas de seus alimentos.

# O problema da atividade imunológica entendida como predominantemente linfocitária precisa ser descolado da ideia de doenças infecciosas (que seriam acidentes de percurso; no caso das doenças epidêmicas, com uma origem cultural recente, nos últimos 10 mil anos). Após este descolamento perguntar: (a) quais são e como descrever as relações do organismo com proteínas de micróbios, vírus e parasitas e proteínas de seus alimentos; e só então, perguntar (b) como os linfócitos interferem nestas relações.

# Um grande complicador recente é a caracterização da imunidade “adaptativa”, isto é, dependentes de “memória” imunológica específica, em camundongos Rag-KO, que não possuem linfócitos; ou seja, a possibilidade de que toda a problemática atribuída até o presente a linfócitos, seja agora compartilhada por macrófagos, células dendríticas células NK. Isto torna o problema acima muito mais complexo e também reforça muito a questão de processos “inatos” (herdados). (Dai et al., 2020)

# A abordagem histórico-sistêmica que adotamos gravita em torno de duas premissas, baseadas nas duas “condições de existência” da Biologia do Conhecer: (a) a conservação da organização autopoiética e (b) a conservação da adaptação ao meio. O “meio” em que os linfócitos operam é o organismo do qual eles fazem parte. O sistema linfocitário tem um “fechamento” (Vaz, 1981) e, portanto, tem referenciais, parâmetros nos quais o sistema conserva certos valores, para os quais os sistema volta quando é perturbado. As únicas informações que abordarei nesta direção são os blots de Alberto Nóbrega e os protein-arrays de Irun Cohen.

# Um ponto adicional pouco valorizado é a atividade linfocitária “inespecífica”, por exemplo, a formação de imunoglobulinas inespecíficas após a imunização, que pode ser substancialmente maior que a específica. André Vale et al. (UFRJ) usando proteína do zika-vírus como antígeno detecta 1% ou menos de imunoglobulinas específicas em respostas de camundongos (medido in vitro em clones B isolados de centros germinaticos dos linfonodos de drenagem). Ou seja, os linfócitos específicos ativados são a parte mais importante da observação apenas pelo viés observacional do imunologista que insiste em estudar um processo específico.

# A “tolerância oral” e o problema das alterações (inibição de processos específicos; mudanças na matriz extracelular) desencadeada pela imunização (em adjuvante) com antígenos tolerados, é uma ampla fronteira inexplorada de problemas importantes (Costa et al., 2016: Vaz and Carvalho, 2015) . É crucial também averiguar se há uma expansão inespecífica de linfócitos durante estas reações.

# Há ainda o problema levantado por Christine Benn et al. sobre os efeitos inespecíficos de vacinas (ver bibliografia; vários artigos recentes).

Bibliografia
Aaby, P., Benn, C. S., Flanagan, K. L., Klein, S. L., Kollmann, T. R., Lynn, D. J., & Shann, F. (2020). The non-specific and sex-differential effects of vaccines. Nat Rev Immunol, 20(8), 464-470. doi:10.1038/s41577-020-0338-x
Aaby, P., & Benn, C. S. (2019). Developing the concept of beneficial non-specific effect of live vaccines with epidemiological studies. Clin Microbiol Infect, 25(12), 1459-1467. doi:10.1016/j.cmi.2019.08.011
Aaby, P., Ravn, H., Fisker, A. B., Rodrigues, A., & Benn, C. S. (2016). Is diphtheria-tetanus-pertussis (DTP) associated with increased female mortality? A meta-analysis testing the hypotheses of sex-differential non-specific effects of DTP vaccine. Trans R Soc Trop Med Hyg, 110(10), 570-581. doi:10.1093/trstmh/trw073
Benn, C. S., Fisker, A. B., Rieckmann, A., Sorup, S., & Aaby, P. (2020). Vaccinology: time to change the paradigm? Lancet Infect Dis. doi:10.1016/S1473-3099(19)30742-X
Costa, R. A., Matosa, L. B. O., Cantaruti, T. A., de Souza, K.S., Vaz, N. M., & Carvalho, C. R. (2016). Systemic effects of oral tolerance reduce the cutaneous scarring. Immunobiology, 221, 475–485.
Dai, H., Lan, P., Zhao, D., Abou-Daya, K., Liu, W., Chen, W., . . . Lakkis, F. G. (2020). PIRs mediate innate myeloid cell memory to nonself MHC molecules. Science, 368(6495), 1122-1127. doi:10.1126/science.aax4040
Vaz, N. M., & Carvalho, C. R. (2015). On the origin of immunopathology. J Theor Biol, 375, 61-70. doi:10.1016/j.jtbi.2014.06.006

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