Autores: Carolina Bifano e João Vitor Damacena
Editora: Profª. Drª. Vânia Deperon Bonato
Seminário apresentado na disciplina Tópicos Avançados de Imunologia do Programa de Pós-Graduação em Imunologia Básica e Aplicada da FMRP-USP.
Como as células B contribuem para a manutenção da resposta de células T CD8+ durante infecções virais crônicas? O estudo intitulado “B cell-derived type I interferon sustains T cell functionality upon strong TCR stimulation during chronic infection”, publicado em agosto na revista Immunity, por Catarina Gago da Graça e colaboradores1 mostra que a interface dos linfócitos B e a produção de interferon do tipo I (IFN-I) afeta a função e a exaustão dos linfócitos T CD8+ antígeno-específicos.
Em um contexto de infecção viral, os linfócitos T CD8+ são os principais responsáveis pelo controle e eliminação do patógeno. Mas a persistência de antígenos ao longo do tempo, que caracteriza as infecções crônicas, induz o processo de exaustão das células T CD8+, formando células progenitoras exaustas (Tpex) e, posteriormente, terminalmente exaustas (Tex). Usando o vírus da coriomeningite linfocítica (LCMV) e modelo de infecção crônica, os pesquisadores descobriram que, sem a presença de células B, as células T CD8+ exaustas param de se expandir e diminuem a produção de interferon-gama (IFN-γ) e de fator de necrose tumoral (TNF). Curiosamente, esse efeito aparecia somente em infecções crônicas; a ausência de células B não demonstrou grande influência em infecções agudas.
Para entender melhor essa dinâmica, os autores observaram que as células T CD8+, sem a participação das células B, não ficavam apenas "mais exaustas": elas desenvolviam um estado semelhante ao de tolerância imunológica. Essas células perdiam a capacidade metabólica, com menor funcionamento de mitocôndrias. Um ponto importante é que esse estado não era definitivo; quando as células T CD8+ eram re-expostas a um ambiente rico em células B, recuperavam a sua função.
Mas afinal, como as células B estão modulando a resposta das células T CD8+? Gago da Graça e colaboradores mostraram que elas agem como uma espécie de sensor de perigo, por meio da ativação dos fatores de transcrição IRF3/7, produzem IFN-I logo no início da infecção. Posteriormente, adquirem um perfil mais tolerizado na ausência de células B. Os autores encontraram um padrão similar em pacientes com hepatite B crônica, confirmando os resultados em modelo experimental. O efeito do IFN-I depende do fator regulador de interferon 1 (IRF1), que promove ativação das células T CD8+ quando há forte estimulação do receptor de células T (TCR) e elevada expressão antigênica, mas não quando há fraca expressão do antígeno.
Este estudo mostra que a função das células B ultrapassa a produção de anticorpos e a apresentação de antígenos, contribuindo para a manutenção do funcionamento de células T CD8+ durante a persistência de elevadas concentrações de antígenos virais. Os resultados encontrados abrem perspectivas para a investigação de novas estratégias terapêuticas em infecções crônicas e no tratamento do câncer.
Fig. 1: Em uma infecção com alta carga de antígenos, o IFN-I produzido pelas células B favorece o processo de exaustão em linfócitos T CD8+, enquanto a ausência de células B induz um perfil parecido ao de células tolerizadas, diminuindo a produção de citocinas. Contudo, em baixa carga de antígenos, a presença ou não de células B não interfere no perfil dos linfócitos T CD8+ e nem em sua produção de citocinas.
Referências
- Gago da Graça, C., Cao, Y., Li, S., Lindemann, A. F. et al. B cell-derived type I interferon sustains T cell functionality upon strong TCR stimulation during chronic infection. Immunity 59, 2199–2214.e7 (2026). https://doi.org/10.1016/j.immuni.2026.06.003.
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