Deus ex machina
19 de agosto de 2020
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Nelson Vaz
Deus ex machina é uma expressão usada por Aristóteles sobre o teatro grego-latino; um recurso dramatúrgico que consistia originariamente no uso de uma grua para baixar ao palco um deus cuja missão era dar uma solução arbitrária a um impasse vivido pelos personagens. Em latim, a expressão significa: “Deus que surge da máquina” e se refere usualmente a “uma solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra ficcional” (Wikipedia).

Em um comentário de Carlos Hee: “… no teatro que se faz no século 21 – e mesmo no que se fez no século passado – recorrer ao deus ex machina revela apenas que o dramaturgo que lançou mão de tal artifício não resolveu sua trama a contento, mas chegou a um ponto em que diante do emaranhado de sua criação não conseguiu resolver o que sua imaginação criou. Ou apenas denota uma carência de talento dramatúrgico. Nesse caso, é melhor reler e reescrever o texto. Hoje em dia, utilizar um deus ex machina para descer a cortina não convence.”
(Texto: Carlos Hee, em <https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/ponto-afinal-o-que-e-o-deus-ex-machina/>)

Desde suas origens no estudo de doenças infecciosas, a imunologia foi afetada por discussões complicadas e acabou adotando soluções simplificadoras como a de um “deus ex machina”.
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O sistema imune descrito na imunologia atual é uma solução improvisada para problemas muito difíceis da imunopatologia. Os cursos e livros-texto atuais de imunologia são como dramatis personae — outro termo do teatro que define os personagens de uma peça e seu desempenho. Os componentes moleculares e celulares da atividade imunológica são tantos e tão diversos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) publica um glossário com dezenas de páginas, um labirinto capaz de confundir o especialista e desanimar o iniciante.

Mas na visão simplificada do público o deus ex machina da imunologia é nitidamente delineado. Na “batalha” entre um vírus invasor e o corpo humano, surge o anticorpo neutralizante, algo que a ciência já compreende e pode reforçar por meio de vacinas que nos tornam imunes. Este deus ex machina é o fantasma salvador, o super-homem que vai livrar o corpo de uma praga, como quem remove piolhos ou carrapatos. Na verdade, o primeiro agente infeccioso identificado não foi um micróbio invisível, mas sim o Sarcoptes scabei, o ácaro da sarna, que está no limite da visibilidade humana.

Assim como no teatro, o deus ex machina na imunologia é um recurso extremo que busca fechar um drama que se tornou complicado demais. No terceiro ato, algo transcendente desce ao palco e resolve o problema descrito pela peça teatral. É exatamente assim que o público e grande parte dos especialistas também, enxerga a atividade imunológica e os anticorpos específicos que nos tornam imunes, isentos, livres de uma dada doença.
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O conhecer
A vacina contra o sarampo não imuniza contra a poliomielite, e vice-versa: na imunologia, as soluções são específicas para cada doença. Haveria, portanto, um estranhamento, um corpo que reconhece (detecta, identifica) algo estranho, um invasor; e, então, traça estratégias, aciona mecanismos e reage sob medida ao invasor. Ainda mais, guarda uma memória deste evento, aprende com o que se passa e reage melhor se a mesma invasão se repetir. Seria assim que funcionariam as vacinas.
Este modo de ver cognitivo da imunologia nos faz pensar e agir baseados naquilo que entendemos como o conhecer. Mas este reconhecimento do desconhecido é um deus ex machina, uma solução improvisada para resolver um drama que ficou complicado demais.

O corpo faz a si próprio
O corpo não improvisa um mecanismo — um anticorpo —guiado por algo que vem de fora — um antígeno. Não é isso o que o corpo faz: o corpo faz a si próprio, se auto-constrói e auto-mantém, é uma entidade autônoma que muda continuamente de componentes (celulares, moleculares) e precisa mudar para continuar vivo. Os pontos de referência requeridos para estas mudanças são internos ao organismo e estes referenciais se refletem na constância de um “meio interno”, como propunha Claude Bernard, no século 19; ou, na conservação de uma organização auto-criadora, como propôs Humberto Maturana, no século 20. Nenhum sistema vivo está “pronto”, terminado, está em contínua construção e modificação até que de desintegra e morre. Sabemos mais a respeito destas mudanças e de maneiras de mudar, do que sobre aquilo que se conserva naquilo que muda — sobre uma identidade que se conserva, como se fosse uma assinatura do ser vivo.

Estrutura e organização
Em A árvore do conhecimento. As bases biológicas do entendimento humano (Santiago, 1984) Humberto Maturana e Francisco Varela definiram estrutura e organização de uma forma que se aplica de forma clara sobre a variação e a constância dos seres vivos.

Um “sistema” é toda entidade na qual optamos por distinguir componentes; sistemas diferem de entidades simples, que distinguimos por suas propriedades; sistemas são unidades compostas. A organização de um sistema é o conjunto de relações que se mantém invariante enquanto sistema pertence a uma da classe de sistemas; a organização define a identidade de classe de um sistema. O encosto, o assento e os pés de uma cadeira precisam manter certas relações invariantes entre si, para que a cadeira permaneça como “cadeira”.

A organização é um aspecto relacional da estrutura, daquilo que efetivamente compõe a entidade que distingirmos. A estrutura pode variar sem perda da identidade classe: há cadeiras de madeira, de ferros, de plástico…, velhas, novas…mancas e estáveis…todas são cadeiras. Mas remova o encosto de um cadeira e ela passa a ser outra coisa; perde sua organização.

Os seres vivos mantêm uma organização vivente, auto-criadora, autônoma, auto-mantenedora, que Maturana chamou de autopoiética. Durante todos os momentos de seu viver, todos os seres vivos mantêm invariante sua organização autopoiética — e se desintegram, morrem quando a perdem.

As doenças e a autopoiese
Nas doenças infecciosas, quando o corpo é lesado por vírus, micróbios e parasitas, a imunidade e os anticorpos são aspectos da conservação da organização autopoiética dos seres vivos. A defesa contra estas doenças resulta de mecanismos da continuidade do viver— da respiração, da digestão, dos movimentos musculares e da condução elétrica nos nervos, da permeabilidade dos vasos; da migração de células de um ponto a outro no organismo etc. A ideia de um “sistema dedicado” voltado para nossa proteção contra doenças infecciosas — um sistema imune — é um deus ex machina que a ciência inventou. É um adiamento compreensível da explicação do que se passa nas doenças infecciosas, porque este drama é muitíssimo complicado.

Na visão do público e de muitos especialistas, a imunologia propõe uma solução espantosa, transcendente a problemas que, em grande parte, não compreendemos ainda.
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Adoecer
Não sabemos ao certo como se dá o adoecer. Na covid-19, a maioria das pessoas contagiadas, não adoece. Mesmo naquelas que depois adoecem gravemente, há um estado inicial de vários dias em que não há sintomas, durante o qual a pessoa infecta outras pessoas. Isto torna a doença furtiva, difícil de controlar. Mas há pessoas que não adoecem de todo, ou têm sintomas muito leves.

Há também pessoas que convivem em harmonia por muitos anos ou por toda a vida com vírus, micróbios e parasitas patogênicos. A maior parte da população humana convive sem problemas a maior parte do tempo, com o vírus herpes simplex-1 (HSV-1) e só eventualmente sofre com vesículas nos lábios (embora possa também produzir lesões muito mais graves). A pergunta mais interessante é entender o que muda quando este estado de “portador são” dá lugar a lesões. Como se passa de um estado de convivência harmônica com um vírus para um outro estado no qual o vírus é visivelmente patogênico e pode ser letal? Isto sim, seria entender o adoecer.

Epidemias
Não espanta, portanto, que não se saiba como funcionam as vacinas anti-infecciosas. Ainda inventamos vacinas por tentativa e erro, como Pasteur fazia no século dezenove. A enorme sofisticação tecnológica manifesta nos múltiplos projetos em andamento para inventar a vacina para a covid-19, mostra que não sabemos exatamente o que fazer. Se o soubéssemos, já teríamos feito, rapidamente, uma única vacina.

A dificuldade na imunologia não é tecnológica, é conceitual. Não conhecemos a natureza das doenças que nos afligem desde o período neolítico. Há 10 mil anos atrás, quando começamos a domesticar animais antes silvestres e seus vírus e micróbios “transbordaram” para a especie humana, surgiram epidemias que quase extinguiram a espécie humana. Milênios mais tarde, nas populações que colonizaram a Europa. estes vírus e micróbios tinham se tornado endêmicos, mas as epidemias ressurgiram quando os europeus entraram em contato com as populações indígenas das Américas. E elas foram praticamente dizimadas.

Pandemias
Nos dias atuais, com a explosão populacional e a forma de cultura adotada planetariamente, estamos novamente importunando animais silvestres, queimando e desmatando florestas. Agora são morcegos, macacos e pequenos roedores, que têm seus nichos ecológicos destruídos, e os vírus que vivem em harmonia em seus corpos “transbordam” para os humanos e geram zoonoses, algumas das quais se tornam pandêmicas.

Assim como não conhecemos as doenças, não conhecemos também as formas de convivência harmônica com vírus e micróbios, que são a regra no viver e não a exceção. As doenças infecciosas são acidentes de percurso. O corpo tem muitas maneiras de contornar estes desvios, às vezes eliminando o agente invasor (como na imunidade por anticorpos e linfócitos), outra vezes encontrando formas de conviver sem eliminar o invasor.

Mas a ideia dominante da defesa imunológica como um estranhamento movido por um sistema imune que improvisa anticorpos específicos como antídotos especiais ad hoc é um deus ex machina que não se sustenta como solução definitiva para nosso drama. A médio e longo prazo
as vacinas não resolverão nossos problemas.
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Minhas declarações não pretendem reforçar“movimento anti-vacina” atuante nos Estados Unidos e na Europa, e ainda incipiente no Brasil. Quero distinguir a grande ênfase dada à indústria farmacêutica em sua busca por uma vacina eficaz para a covid-19, que contribuiria para resolver os problemas atuais, e a visão ultra-simplificadora do público, adotada pela indústria. Admitir nosso desconhecimento de áreas importantes é um passo necessário para fazer novas perguntas. A pesquisa básica em imunologia, inclusive sobre a imunidade anti-viral, é uma área importante inclusive na ciência nacional. Mas o Governo corta drasticamente as verbas das universidades brasileiras e investe fortunas na compra de vacinas estrangeiras cuja eficácia ainda está em estágio de comprovação. A curto, médio e longo prazo esta é uma decisão equivocada.

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Nelson Vaz
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