Simplicidade
22 de julho de 2020
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Simplicidade
Nelson Vaz
Suponha que você fez o curso “Para entender a imunologia” e agora entende a imunologia de outra maneira. O que você imagina desse novo modo de ver?
algo sobre um melhor controle da atividade imunológica?
algo sobre a natureza do entendimento humano?
ambas as coisas?
Como saber que já explicamos aquilo que queremos de explicar? Como sabemos que sabemos o que pensamos saber? Como dar algo como explicado?

Nesta hora tão surreal, talvez o curso devesse se chamar: “Para entender o entendimento da imunologia”. A imunologia dos testes, das transfusões como último recurso, e das vacinas foi arrastada para o centro do palco, mas parece incapaz de responder às perguntas mais simples. Compartilho com todos a esperança de que as vacinas funcionem mas não vejo esta solução com simplicidade.

Esta pandemia foi prevista por vários cientistas que estudam vírus de animais silvestres e podem “transbordar” para os seres humanos e se envolver em pandemias. Mas os vírus sempre estiveram em harmonia não só com animais silvestres, mas com tudo o que vive, incluindo as plantas, os animais domesticados e nós mesmos, seres humanos. A formação da placenta humana depende de genes de vírus que foram importados para o genoma humano.

Os vírus são parte do viver de todos seres vivos, não são invasores inimigos. O novo coronavírus se tornou um perigo para nós e há perigos maiores no horizonte, mas estas são complicações que nós mesmos criamos. Pelo entendimento atual, as pandemias resultam da confluência de duas coisas gigantescamente complicadas: a abundância de vírus na natureza e a explosão populacional humana.

Calcula-se que há entre 500 mil e 800 mil diferentes vírus em animais silvestres; não há como interferir neste processo. A população humana levou 3 mil séculos para alcançar o primeiro bilhão de habitantes; no século seguinte fez mais 6 bilhões e meio, e vai chegar a 9 ou 12 bilhões até 2100. É importante descrever com (alguma) clareza estes problemas (quase) insolúveis para que o conhecimento científico não pareça cada vez mais reservado a uma elite que, afinal, não consegue resolver os problemas do povo e é cada vez mais desacreditada! Neste caminho, acabaremos todos acreditando em soluções curtas, simples e erradas. Como a terra plana.

O que mudou? A realidade.
As explicações são também formas de relacionamento humano. Se você aceita minhas explicações, podemos continuar conversando. Se não as aceita podemos nos separar no respeito mútuo; não é necessário negar as explicações que não aceitamos; não é preciso negar a legitimidade das explicações dos outros. Há um século e meio atrás acreditávamos que as doenças eram causadas por “miasmas”, coisas invisíveis, relacionadas a fedores e “maus ares” (“malárias”). Mas quando pensamos nas viroses como “invasões” de nosso corpo pensamos em algo muito parecido com “miasmas”.

Em certo sentido, o vírus é isso mesmo: algo invisível que nos invade. Mas esta é uma daquelas soluções curtas, simples e erradas. Como surgiu esta virose? Como podemos nos proteger dela e de outras mais que —dizem os cientistas — poderão surgir e ser pior que esta? Queremos explicar o que se passa para poder intervir nestes acontecimentos.

Quando o polimento de lentes tornou possível fabricar microscópios e telescópios o que mudou não foi nossa capacidade de ver coisas muito pequenas ou muito longe: foi a realidade. Galileu disse isso mesmo; virou seu telescópio para os planetas e para a lua e disse: “O céu mudou!” — a Igreja não podia deixar este homem livre. Que realidade é essa, então, que muda quando a gente põe lentes frente aos olhos?

Talvez possamos unir estas duas coisas que queremos. Queremos explicar o que se passa. E se passam coisas que interferem — gravemente — com o que consideramos real! O mundo mudou! Acabaram as torcidas de futebol e as olimpíadas., os concertos de rock! — talvez o Carnaval! E milhares de outros hábitos que considerávamos permanentes. Talvez tenhamos que explicar realidades, talvez haja mais de uma!

“Para entender o entendimento da imunologia” preciso entender algo sobre a natureza do entendimento humano. Certas coisas ficam em “pontos cegos conceituais”, coisas que não vemos que não vemos; somos cegos a algumas de nossa cegueiras e um pequeno olho aberto nessa direção pode ser muito importante.

Muito importante principalmente para a imunologia porque a gente imagina que o corpo “sabe” que foi invadido por algo “estranho”, “mobiliza defesas”, se livra da doença com “anticorpos” e, ainda por cima, guarda uma “memória” destes eventos e fica “imune” a este vírus, ou micróbio —e é exatamente isto o que queremos que uma vacina contra o coronavírus faça!Mas a gente não sabe muito bem o que é o corpo, quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

Para realmente “entender a imunologia” é preciso entender a origem de suas ideias, mas para fazer isso precisamos já saber o que é a imunologia — aquilo que queremos explicar. É como a história do biscoito que vende muito porque está sempre fresquinho e está sempre fresquinho porque vende muito! Um ciclo virtuoso, com aquele do ovo e da galinha — quem veio primeiro? Esta circularidade é característica de questões ditas “sistêmicas”, têm a ver com “sistemas”.

Há 50 anos atrás eu era um imunologista convencional, até bem sucedido. Tinha ido para New York e tinha tido sucesso em pesquisas sobre a genética das respostas imunes. Eu não tinha um interesse especial pela história e filosofia da ciência até 40 anos atrás quando, em Denver, a conjunção de dois acontecimentos mudaram meu modo de ver a imunologia e a própria natureza do viver.

O segundo acontecimento foi encontrar um jovem neurobiólogo/epistemólogo chileno que me fascinou com conversas parecidas com esta que descrevo acima, e eu nunca tinha escutado. Francisco Varela era budista e falava coisas incríveis sobre o cérebro humano, como podemos ver o mundo e falar sobre ele. E sem saber direito que ele era, eu o convidei para o pequeno laboratório que eu chefiava onde acabava de tropeçar no primeiro acontecimento que mudaria minha carreira até então: nós constatáramos que um camundongo forma mil vezes menos anticorpos para um proteína se antes ele a ingerir com um alimento!

Vocês nunca ouviram falar nisso! Que os animais “travam” sua reatividade aos antígenos que contactam por via digestiva — um fenômeno conservador, sistêmico. Isto deveria estar na primeira página dos livros de imunologia, mas não está. Não está porque contradiz e complica enormemente coisas que já sabemos e não queremos discutir: como a ideia simples de que o corpo “sabe” que foi invadido por algo estranho, “mobiliza defesas”, se livra da doença com “anticorpos” e, ainda por cima, guarda uma “memória” destes eventos e fica “imune” a este vírus, ou micróbio. E que a gente pode reforçar esta memória artificialmente, com vacinas.
Pois é. Só que, não.

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Nelson Vaz
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