Vacinas e autopoiese
03 de setembro de 2020
COMPARTILHAR Facebook Twiter Google Plus

As vacinas e a autopoiese
Nelson Vaz
A imunologia nasceu no final do século 19, como uma busca por novas vacinas, exatamente como agora na covid-19, como uma sub-área da bacteriologia médica que se desenvolveu na investigação de doenças infecto-contagiosas, principalmente doenças agudas de seres humanos e animais domesticados, com destaque para aquelas que podem se tornar epidêmicas. Em 2020, covid-19 fez da imunologia um assunto obrigatório na mídia, e a busca por uma vacina renasceu em todo o planeta. Nesta avalanche de afirmações e comentários, tornou-se evidente que a imunologia, seja na academia, seja na indústria de vacinas, não dispõe de respostas a perguntas elementares sobre as doenças humanas.

Estas discussões têm um aspecto cognitivo velado, há quem chegue a definir o sistema imune como nosso segundo cérebro. A atividade imunológica é vista como um estranhamento. A entidade reconhecedora e reativa é o próprio corpo, mas o corpo entendido meramente como o lugar ou dimensão onde ocorre este estranhamento e onde a invasão por materiais estranhos é detectada e combatida, principalmente através da produção de anticorpos específicos. Ao lado das vacinas, os anticorpos são o segundo ícone canônico da imunologia, os mediadores deste suposto estranhamento e responsáveis pela defesa.

Um terceiro ícone importante é a memória imunológica. As vacinas e a produção de anticorpos se tornam mais relevantes porque estabelecem no organismo vacinado (imunizado) uma capacidade aumentada de responder e formar anticorpos para um elemento estranho específico: as respostas imunes a uma invasão que se repete, ditas respostas secundárias, são mais fortes — mais sensíveis, mais rápidas, intensas e duradouras. Supostamente, este é o mecanismo da proteção conferida pelas vacinas.

O inverso da memória é um estado conhecido como “tolerância” imunológica, uma espécie de amnésia específica que o corpo demonstra para materiais potencialmente capazes de deflagar respostas imunes; um processo no qual o contato com um antígeno diminui, em vez de aumentar a reatividade imunológica. Parece uma complicação desnecessária.

Menos conhecida que a memória imunológica a tolerância está envolvida nos contatos antigênicos mais abundantes e frequentes com os quais o corpo lida diariamente desde a mais tenra idade. Isto foi identificado por Paul Ehrlich que, em 1900, ao demonstrar que embora possa fazer anticorpos para virtualmente tudo o que lhe é estranho — o estranhamento—, variando de proteínas de plantas a hemácias de outros animais da mesma espécie, o corpo não faz anticorpos para seus próprios componentes, mas eles são antígenos para outros organismos. Há, então, esta enorme lacuna, um grande ponto cego, na vigilância imunológica.

Quase na mesma época, notou-se que o corpo se torna também “tolerante” a proteínas ingeridas como alimentos, mas isso não despertou grande interesse nos imunologistas e nunca ocupou uma posição central, como um fenômeno importante. Finalmente, nas últimas décadas, com a drástica mudança em nosso modo de ver os micróbios e a constatação de que o corpo abriga uma “microbiota nativa” muito abundante e diversificada sobre as mucosas e a pele, fomos forçados a entender que o corpo não se “imuniza” contra estes micróbios, nem se torna propriamente “tolerante” aos mesmos. Pequenas quantidades de anticorpos específicos para a microbiota são formadas e há abundantes linfócitos ativados que reagem a peptídeos derivados dos mesmos.

Ainda menos percebido, existe também um estado semelhante de relação com os alimentos, isto é, o corpo sadio não se imuniza, não desenvolve uma memória dos alimentos, mas também não os ignora; ser “tolerante” aos mesmos não significa ignorá-los. A “tolerância” imunológica, tanto a alimentos quanto a microbiota e a auto-componentes é um processo ativo e não uma simples subtração de uma parte da reatividade do corpo. Eu diria que este processo é a própria atividade imunológica natural e tem semelhanças com o que Claude Bernard defendia no século dezenove como o “meio interno” que o organismo mantém invariante. O mesmo ocorre em relação aos componentes do corpo, os linfócitos não os ignoram, reagem a seus peptídeos e mantêm estável a formação de pequenas quantidades de “auto-anticorpos”.

Entre os alvos destes “auto-anticorpos” estão outros anticorpos, inclusive outros auto-anticorpos e, consequentemente, o sistema imune constitui uma rede complexa multiconectada. Esta não é uma coleção de elementos independentes (clones de linfócitos) que reagem isoladamente uns dos outros, ela exibe padrões de reatividade, como se fossem assinaturas, que são robustamente conservadas. A operação desta rede complexa multiconectada, que constitui a atividade imunológica, gradualmente substituirá a ideia mais popular de um “estranhamento”.

A grande importância desta mudança será nos livrar da tendência ver os fenômenos imunológicos como “cognitivos”, ligados ao “reconhecimento”. Uma mudança salutar porque, na imunologia, o corpo “re-conhece” o que lhe é “des-conhecido” (antígenos) e isto é o oposto do entendimento usual das palavras reconhecer e conhecer. Além de tratar de “estranhamentos” a atividade imunológica — ainda pouco estudada — tem um aspecto mais presente, fisiológico, que diz respeito às relações dos linfócitos uns com os outros e dos linfócitos com o corpo do qual são componentes; e também das relações de linfócitos e anticorpos com os “antígenos” mais abundantes e aos quais eles são mais frequentemente expostos, que são componentes da dieta e da microbiota nativa.

Salta aos olhos que precisamos entender a fisiologia, a operação sadia do corpo, para entender propriamente os estranhamentos, como as exceções que eles realmente são. Significativamente, esta constatação remete a uma disputa na própria origem da imunologia, na Paris do fim do século dezenove. Este debate entre Louis Pasteur, com a proposta de sua teoria dos germes, que apontava uma etiologia específica para as doenças infecciosas — um germe para cada doença — e Claude Bernard, o grande fisiologista criador da medicina experimental, com a proposta da invariância do “meio interno”. Bernard dizia que, se as propriedades deste “meio interno”, que hoje veríamos como o meio extracelular, fossem mantidas constantes, o organismo não adoeceria quando contagiado por um germe patogênico.

A disputa entre uma etiologia específica e a constância do meio interno, é a mesma disputa a que agora nos referimos como a escolha entre um “estranhamento” e a manutenção de uma atividade imunológica natural, evidentemente, mais difícil de descrever e explicar. A constância do meio interno apontada por Bernard é uma constatação que pode ser comprovada de várias maneiras, mas é o resultado de um processo ou processos conservadores muito complexos e a natureza destes processos é o que precisamos entender. Não se trata da homeostase, um conceito criado por Walter Cannon muito mais tarde, que é um processo local, que se confunde com a noção de feedback (retrocontrole) e com a própria ideia de funcionamento sistêmico, pois não há sistemas não-homeostáticos. A ideia de Bernard está mais próxima de uma homeostase da homeostase.
-x-
Um século depois de Bernard, Humberto Maturana, um neurobiólogo chileno interessado em mecanismos da percepção visual, concluiu que é impossível entender a percepção sem entender o organismo em seu viver, e passou a ver a percepção como uma questão de relações internas do organismo, mais do que uma referência a eventos externos a ele. E propôs um processo mais geral que a conservação do meio interno: a conservação do próprio viver, visto como um processo auto-criador, auto-mantenedor que ele chama de autopoiese molecular.
Para isso Maturana distingue entre estrutura e organização dos seres vivos, e define organização como as relações entre componentes que precisam ser mantidas invariantes para que a autopoiese prossiga; uma organização autopoiética que se mantém frente à mudança estrutural contínua de componentes celulares e moleculares.

Mas a imunologia, como vimos, é essencialmente médica e trabalha ligada à indústria farmacêutica, suas preocupações estão mais voltadas para a etiologia específica de doenças. E as semelhanças são ainda mais próximas ao trabalho de Pasteur, pois em 2020, ainda tentamos produzir vacinas por tentativa e erro e temos dúvidas importantes sobre sua eficácia e duração, exatamente porque conhecemos menos do que deveríamos sobre a conservação do meio interno de Claude Bernard e a autopoiese de Humberto Maturana.

Abandonar a opção limitada à etiologia específica e ao arcabouço estímulo-resposta-regulação que domina a imunologia envolve também considerar com mais atenção o carácter cognitivo velado dos termos tradicionais, como reconhecimento e memória. A alegação de que estes termos são meramente metáforas didáticas não é válida porque a imunologia não dispõe de outra linguagem além desta visão militar, de ataques e defesas. Um estranhamento, porém envolve uma entidade cognitiva, capaz de decisões que distinguam o normal do anormal. A visão dominante defende a geração ao acaso de uma enorme diversidade de linfócitos, tão ampla que seria capaz de reagir à invasão de virtualmente qualquer material estranho. Na ausência de qualquer invasão aatividade imunológica deveria cessar. Isto foi desmentido experimentalmente diversas vezes. Além disso, os linfócitos formam padrões estáveis de reatividade e isto não surge ao acaso.

As respostas imunes, supostamente, surgem quando materiais estranhos ao corpo encontram linfócitos com receptores adequados; estes linfócitos estariam inertes até a chegada do material estranho. Nesta visão, o corpo fica colocado entre dois processos aleatórios que ele não controla: as mutações somadas a outros processos de geração da diversidade linfocitária, e o encontro com materiais estranhos nas contingências do viver. Mas há um processo conservador, a atividade imunológica natural é contínua e não diferencia materiais externos de materiais do próprio corpo, os linfócitos interagem com ambos.

Esta atividade natural é continuamente “perturbada” pela própria atividade do sistema, na qual novos linfócitos estão sendo formados, e pelo contato com materiais externos, principalmente aqueles provindos da dieta e da microbiota nativa (“perturbação é um terno inadequado porque não há um estado não-perturbado). O sistema está continuamente vivendo variações estruturais que compensam as mudanças e restauram “padrões” que são referenciais em torno do qual a atividade gravita. A ideia de uma operação ao acaso do sistema imune é falsa.

Mas a atividade imunológica natural não é cognitiva, mas sim uma parte da construção e manutenção do organismo vertebrado. A especificidade das respostas imunes é projetiva, ou seja, ela é detectada e medida com base naquilo que o observador humano imagina que se passa. Simultaneamente com as reações específicas, ocorrem outras reações (inespecíficas), que são frequentemente de maior intensidade que as específicas, mas não são examinadas pelo observador porque são consideradas um “ruído” do processo cognitivo de reconhecimento do antígeno.

PUBLICADO POR
Nelson Vaz
ver todos os artigos desse colunista >

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OUTROS SBLOGI
Impressões digitais
Nelson Vaz
24 de setembro de 2020
A imunidade e a leitura de imersão
Nelson Vaz
16 de setembro de 2020
A natureza do problema
Nelson Vaz
10 de setembro de 2020