Influência das Células de Langerhans no desenvolvimento inicial dos vasos linfáticos e na modulação das respostas imunes do adulto
09 de outubro de 2026
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Autores: Jackeline Marino Lucas e Bárbara Garcia

Edição e correção: Profa. Vanessa Carregaro

Seminário apresentado junto ao Curso de Pós-Graduação em Imunologia Básica e Aplicada da FMRP-USP.

 

Em um estudo intitulado “Langerhans cell control of early-life dermal lymphatic development shapes adult immunity”, publicado no periódico Science Immunology em junho de 2026, Ji Hyun Sim e colaboradores revelaram o papel das células de Langerhans na formação dos vasos linfáticos da derme no início da vida e sua influência nas  respostas imunes no adulto.

As células de Langerhans (LC) são células sentinelas da epiderme, com características relacionadas às células dendríticas, porém, origem ontogenética de macrófagos. Essas células residem na epiderme, se autorenovam e, frente à patógenos, migram para a derme e para os vasos linfáticos, em direção aos linfonodos drenantes, para apresentação de antígenos e ativação de células T. Trabalhos anteriores do grupo já demonstraram o papel dessas células na proteção das demais populações da pele, como os queratinócitos, sendo importantes produtores de ligantes de EGFR (Epidermal growth factor receptor), relacionada com a via de sobrevivência celular. Recentemente, também foi demonstrada a participação dessas células na angiogênese durante processos de lesão. Nesse contexto, os autores caracterizaram a expressão de PlGF (Placental Growth Factor) pelas LCs, um fator de crescimento envolvido tanto na angiogênese quanto na linfangiogênese. Além disso, já havia sido caracterizado o papel de macrófagos na produção de VEGF-C (Vascular Growth Factor - C), um fator de crescimento fundamental para o crescimento dos vasos linfáticos. Diante desses achados, surgiu uma lacuna acerca da possível participação das LCs, abundantes na epiderme e intimamente associadas à rede linfática cutânea, na formação e manutenção dos vasos linfáticos dérmicos.

Utilizando camundongos Lang-DTA, deficientes constitutivamente em LCs, os autores observaram que, na idade adulta, havia uma redução superior a 50% no número de células endoteliais linfáticas (LECs) da pele, acompanhada por menor expressão de LYVE1 e CCL21, marcadores de LECs responsáveis pela reabsorção da linfa, assim como redução da densidade e complexidade dos vasos linfáticos e comprometimento do fluxo linfático para os linfonodos drenantes. A partir desse resultado, os autores determinaram o período crítico da vida em que a ausência de células de Langerhans gerava tais alterações.

A análise temporal demonstrou que essas modificações resultavam de uma falha na expansão linfática durante o desenvolvimento pós-natal, observada principalmente entre 3 e 8 semanas de idade. Mecanisticamente, as LCs expressaram o gene de PlGF e foram capazes de se ligar a VEGF-C, carregando essa molécula, enquanto as LECs jovens expressaram VEGFR1 e VEGFR3, receptores destes fatores de crescimento. O bloqueio combinado de PlGF e VEGFR3 reduziu a expansão das LECs, enquanto a administração conjunta de PlGF e VEGF-C restaurou seu número em animais Lang-DTA. Além disso, em cocultura, as LCs promoveram expansão e sobrevivência das LECs de maneira dependente de PlGF e VEGFR3, demonstrando que esse seria o mecanismo sugerido pelo qual as células de Langerhans atuariam na expansão dos vasos linfáticos.

Por fim, a deficiência linfática em animais Lang-DTA comprometeu a resposta de células T CD4+ e T CD8+ a antígeno solúvel, evidenciada pela redução da ativação e proliferação de células OT-II e OT-I após administração intradérmica de OVA. Essa alteração não foi observada quando as LCs foram depletadas apenas na idade adulta, indicando que o defeito imunológico decorria principalmente da alteração precoce da rede linfática. De forma consistente, a restauração das LECs com PlGF e VEGF-C durante o desenvolvimento recuperou as respostas de células T na idade adulta. Assim, o trabalho demonstra a produção desses fatores de crescimento como mecanismo pelo qual as LCs promovem o desenvolvimento linfático na vida inicial e, consequentemente, regulam à distância e ao longo do tempo a resposta imune nos linfonodos drenantes.

Figura 1: As células de Langerhsn (LCs) atuam na vida inicial no desenvolvimento e arquitetura dos vasos linfáticos dermais, levando à eficiente drenagem e apresentação de antígenos, que se apresenta defeituosa na sua ausência.

 

Referências:

Sim JH, Bell R, Chinenov Y, Feng Z, Shin J, Chyou S, et al. Langerhans cell control of early-life dermal lymphatic development shapes adult immunity. Sci Immunol. 2026;11(120):eaed8745. doi:10.1126/sciimmunol.aed8745.